Mistura fina
Mistura fina
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Estudo realizado no Instituto de Artes analisa a aproximação com o jazz na obra de violonistas brasileiros
Estudo realizado no Instituto de Artes analisa a aproximação com o jazz na obra de violonistas brasileiros
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O violão é, por excelência, um símbolo emblemático da música brasileira. Vários de nossos ritmos encontraram na vibração das seis cordas a fonte ideal de harmonias e melodias. Desde as peças clássicas de Heitor Villa-Lobos, passando pelas populares rodas de choro e de samba, até a bossa nova de João Gilberto e seu banquinho, violonistas incorporaram em suas performances uma série de elementos emprestados de vários gêneros musicais, resultando em uma mistura que se convencionou chamar de “violão brasileiro”.
Uma das influências do violão brasileiro pela academia é aquela vinda do jazz, principalmente do bebop, uma corrente marcada pelo virtuosismo instrumental e pela grande liberdade de criação. A junção musical que, inicialmente, pode parecer incompatível, abriu a diversos músicos possibilidades de improvisação e de harmonização que, incorporadas aos gêneros brasileiros, originaram obras únicas.
A história, as características de estilo e os efeitos desse violão brasileiro com inflexão jazzística constituíram os temas do doutorado em música, pelo Instituto de Artes (IA) da Unicamp, de Victor Rocha Polo, com orientação do professor Hermilson Nascimento. Além do mapeamento e da análise da produção musical de violonistas brasileiros, Polo também contribuiu com composições próprias e arranjos originais que colocaram em prática os aspectos estudados. “A pesquisa artística tem essa função de tornar viva a música. Além do aspecto teórico, há o objetivo de levar ao público novas obras de arte”, reflete o violonista.
Violão ‘camaleão’
Apesar de considerado, hoje, um genuíno representante da brasilidade musical, o violão nem sempre foi visto com bons olhos. No período em que se popularizou no país, entre o fim do século 19 e início do século 20, o instrumento carregava o estigma de estar ligado à boemia e à malandragem, o que levava violonistas populares, que se dedicavam às serestas e modinhas, a esconderem sua ocupação.
Ao mesmo tempo, a disseminação do violão no Brasil fez-se sob uma marcada influência técnica e estilística da escola clássica europeia, tanto na consolidação do tipo de instrumento utilizado por aqui – o formato clássico, cristalizado pelo luthier espanhol Antonio de Torres – quanto na metodologia de ensino, que herdou grande parte de seus princípios da pedagogia do também espanhol Francisco Tárrega. “Muitos violonistas brasileiros, mesmo os associados ao campo popular, se amparam na técnica e no estilo do violão clássico, com uma trajetória pedagógica muito bem determinada”, explica Polo. Isso fez com que compositores ligados a diferentes estilos, como Villa-Lobos e Dilermando Reis, compartilhassem das mesmas influências e adaptassem essas práticas a suas realizações musicais. Segundo os pesquisadores, isso mostrou-se importante para que o violão caminhasse no sentido de adquirir legitimidade na sociedade brasileira, sobretudo em tempos nos quais havia um grande preconceito em relação ao instrumento.

Essa versatilidade fez o violão desempenhar um papel de mediador cultural ou, como argumentam os pesquisadores, de “camaleão”, abraçando a diversidade própria da cultura brasileira, o que explica o fato de o instrumento ter se tornado um símbolo da música nacional. Sobre esse pano de fundo, nos anos 1940 e 1950, especialmente após a Segunda Guerra Mundial, o jazz se propagou pelo país, acompanhando o movimento de internacionalização da cultura norte-americana. E o violão brasileiro, que incorporava diferentes vertentes, também o acolheu em seus acordes. “Em alguns momentos, a compreensão do que era o jazz não estava ainda bem estabelecida, levando até a críticas de músicos mais nacionalistas”, lembra Nascimento.
A pesquisa identificou no trabalho de instrumentistas como Bola Sete – nome artístico de Djalma de Andrade –, Laurindo Almeida, Hélio Delmiro, Lula Galvão, Diego Figueiredo e Romero Lubambo, características típicas do jazz e de gêneros brasileiros, como a grande liberdade para a improvisação, o uso de acordes e encadeamentos mais complexos – que se alternam no decorrer da harmonização –, a adoção de toques da percussão afro-brasileira e a execução de fraseados próximos tanto do blues e do bebop quanto de musicalidades brasileiras.
Segundo Polo, a adoção desses elementos deu origem a um violão com identidade própria, a uma identidade diferente daquela do violão popular brasileiro considerado hegemônico e daquela dos guitarristas de jazz norte-americanos. E isso se deve a características típicas dessas duas culturas musicais, afirma o pesquisador. “O jazz não é apenas sua vertente norte-americana. Ele extrapolou as fronteiras de gênero e entrou no universo dos procedimentos. Rompeu as barreiras do repertório estadunidense e se inseriu em outros, como é o caso da música brasileira.”
Além do foco na investigação dos aspectos que caracterizam o violão brasileiro de inflexões jazzísticas, o trabalho de Polo, como já dito, contou com sua participação enquanto músico. O artista desenvolveu oito composições inéditas e dois arranjos para obras já existentes baseados nos aspectos e procedimentos identificados nas performances dos violonistas estudados. As partituras das músicas foram disponibilizadas na tese e as gravações realizadas por Polo podem ser ouvidas em seu canal no YouTube: youtube.com/@victorpolo, na playlist Arranjos/Composições – Doutorado Victor Polo.
A criação artística como parte do processo de pesquisa científica constitui uma característica do campo das artes, cumprindo a missão de dar visibilidade a práticas pouco disseminadas entre o grande público consumidor de música. “Trata-se de práticas musicais com elaboração técnica e estilística diferentes. A academia é, atualmente, um dos refúgios desse tipo de música”, defende o artista.