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Canções dos Beatles sob o olhar da

psicologia e da educação

O professor Valério Arantes e suas ex-alunas, em livro,
revisitam a história dos quatro rapazes de Liverpool

A “Beatlelogia” vai além do culto aos Beatles, responsáveis por provocar revoluções tanto na música quanto no comportamento e um dos maiores fenômenos da cultura de massa do século 20. A partir das músicas e das histórias que marcaram a trajetória dos quatro rapazes de Liverpool, o autointitulado “beatlelogo” Valério José Arantes, psicoterapeuta e professor recém-aposentado da Faculdade de Educação (FE) da Unicamp, reuniu as ex-alunas Anita Cecília Lofrano, Roseli Coutinho dos Santos e Stela Maria Muneiro Belle para a produção do livro Beatlemania na Psicologia e Educação (Ícone Editora).

As músicas, as fases e as inspirações dos músicos são analisadas sob o olhar da filosofia, do psicodrama e do legado de criatividade e rebeldia que marcaram a história dos quatro integrantes do grupo. “O professor Valério orientou a dissertação da professora Anita e orientou a mim e a Stela no doutorado. E, por muitos anos, nutriu o desejo de publicar um livro sobre os Beatles que fosse diferente de tudo já publicado. Concordamos em participar da aventura de publicar o livro, cuja origem são os textos acadêmicos. Foi o professor que organizou o texto final”, conta Santos, que concluiu seu doutorado em 2017, na FE, com a tese “A influência da Psicologia Transpessoal nos discursos, nas práticas e na trajetória estética dos Beatles: fundamentos educacionais, filosóficos e históricos”. “O resultado foi muito bom porque foi como se fôssemos quatro compositores escrevendo em conjunto, desenvolvendo e contribuindo com ideias e arranjos.”

Da esquerda para a direita, o professor da FE Valério José Arantes e suas ex-alunas Roseli Coutinho dos Santos e Stela Maria Muneiro Belle e Anita Cecília Lofrano
Da esquerda para a direita, o professor da FE Valério José Arantes e suas ex-alunas Roseli Coutinho dos Santos e Stela Maria Muneiro Belle e Anita Cecília Lofrano

“Sou admiradora da trajetória dos Beatles, aprecio a história e a música da banda e como eles se permitiram mudar durante a década de 1960. Como admiradora, pude analisar de forma mais distante e menos ativa, embora profunda, sem o envolvimento emocional que acompanha o fã, muitas vezes”, conta. “Um exemplo de minha participação é a análise de conteúdo de um conjunto de canções que identificaram temas inseridos em categorias discursivas às quais, segundo a Psicologia Transpessoal, o ser humano recorre para compreender o mundo, ou seja, os discursos artístico, religioso, filosófico e científico”, completa Santos.

O primeiro disco

Arantes se recorda quando ouviu um disco dos Beatles pela primeira vez. “Desde aquele dia, minha vida em preto e branco se tornou colorida”, conta. Natural de São José do Rio Preto (SP), Arantes foi proprietário, entre 1968 e 1970, de uma loja de discos, a Valério Esportesom, em sua cidade natal. “Só quem viveu aquela época para acreditar como era. Quando os discos novos chegavam, a gente ia tirando das caixas e vendendo em seguida. Vendia todos. Só o Roberto Carlos superava.”

O psicoterapeuta Valério Arantes: livro será lançado em novembro em São José do Rio Preto
O psicoterapeuta Valério Arantes: livro será lançado em novembro em São José do Rio Preto

Após dois lançamentos na Unicamp, em julho, na FE, e em agosto, na Associação de Docentes da Unicamp (Adunicamp) — uma entidade presidida por Arantes durante muitos anos —, o livro será lançado em novembro em São José do Rio Preto, onde atua Lofrano. A psicoterapeuta concluiu sua dissertação de mestrado “O fator Espontaneidade-Criatividade na obra dos Beatles”, em 2016, com um trabalho realizado com alunos do Instituto Riopretense de Psicodrama. “Os Beatles foram criativos em toda a sua produção e resolvi abordá-los como promotores e desencadeadores de criatividade em outras pessoas e, depois, trabalhar na análise de conteúdo.” Para Lofrano, o destaque do livro é que há “vários olhares”. “O professor Valério fez toda a amarração e uma boa mescla para que não ficasse repetitivo.”

Arantes destaca ver os Beatles como uma mandala, na qual John Lennon é o intelectual, Paul McCartney, o afetivo, Ringo Starr, o sensorial e George Harrison, o intuitivo. Segundo o professor, a ideia do livro, e de mais outros três ainda em fase de elaboração, surgiu após o assassinato de Lennon, em 1980.

“Quando os Beatles se separaram, eu vendi a loja e resolvi cursar psicologia, mas nunca deixei de acompanhar a carreira solo de cada um deles. Quando Lennon morreu, comecei a pensar nesse livro, que é o primeiro de uma tetralogia.” No caso dos outros livros, um contará justamente a história da loja de discos e deve se chamar Magical Mistery Shop, em alusão à obra Magical Mistery Tour, lançado pelos Beatles em 1967.

Beatles como disciplina

Santos lembra que, desde 2009, a Liverpool Hope University, na Inglaterra, oferece um mestrado chamado The Beatles, Popular Music & Society (os Beatles, música popular e sociedade). “Eu achava aquilo inusitado. E não é que, no segundo semestre de 2014, participamos da disciplina de pós-graduação intitulada ‘Aspectos filosóficos, sociológicos e psicológicos da obra dos Beatles’, oferecida na Faculdade de Educação e cuja ementa abrangia os aspectos filosóficos, sociológicos e psicológicos da obra dos Beatles? Pensei que tratar os Beatles como objeto de estudo em um contexto acadêmico formal poderia ser considerado algo incomum, mas foi muito bom”, conta.

Belle, responsável pelas ilustrações do livro e uma das alunas da disciplina, lembra que os estudos a fizeram pensar sobre algumas questões filosóficas. “Depois de reunir dados históricos, analisar músicas, conceitos e outras referências que tratam dos Beatles e da filosofia, apresentei minha pequena colaboração contextualizando os Beatles na teoria do conhecimento e na concepção do conceito de amor e na noção de ética”, explica.

Sobre os desenhos do livro, Belle destaca que na capa está uma ilustração dos Beatles inspirada em fotografias tiradas em 1969. “No fundo da ilustração, vê-se a mansão que foi de John Lennon e depois de Ringo. Esse cenário foi importante porque ali ocorreu uma das últimas sessões de fotos do Beatles antes da separação oficial da banda, em 1970. Na introdução, há pequenas ilustrações de cada integrante da banda, também inspiradas em fotografias.”

Na contracapa, Belle seguiu a orientação do professor e retratou os autores na juventude. “A ilustração, com o desenho dos rostos dos autores do livro com idade de 16 anos aproximadamente, foi inspirada no disco With the Beatles, que, em português, foi traduzido como Beatlemania”, afirma. “Há, ainda, uma ilustração que retrata o professor José Roberto Zan, que assina o prefácio do livro.”

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