
Considerado um dos maiores especialistas brasileiros em geografia física, área que estuda os elementos naturais da terra – como relevo, clima, vegetação, solo e hidrografia –, Archimedes Perez Filho recebeu, nesta quinta-feira (27), o título de professor emérito da Unicamp. Na cerimônia que lotou o Auditório Milton Santos, do Instituto de Geociências (IG), o docente, de 78 anos, recebeu homenagens de amigos, colegas, familiares e ex-alunos. E fez alguns alertas. Perez Filho criticou o que chamou de “desmantelamento” dos institutos de pesquisa do país e defendeu a educação pública de qualidade.
O professor confidenciou à plateia haver preparado um discurso intitulado “Da nascente à foz”, comparando sua trajetória de vida ao curso de um rio. “E, assim como uma nascente, como uma fonte, tenho de agradecer aos meus pais, Archimedes e Eliete”, disse. “Tive uma infância absolutamente tranquila, sem pressão. Fui até mesmo paparicado.”
Emocionado, lembrou da professora com quem aprendeu a ler e escrever. Rememorou os colégios pelos quais passou no ensino fundamental e médio e agradeceu fortemente aos professores de graduação no ensino superior. Citou os nomes de docentes e pesquisadores com os quais trabalhou e agradeceu o apoio de mais de uma dezena de pessoas que o ajudaram a construir sua carreira. Agradeceu ainda à mulher, Regina Helena, e aos filhos, netos, irmãos e primos presentes na cerimônia.

Antes de iniciar sua carreira de professor na Unicamp, em 1984, Perez Filho foi pesquisador científico do Instituto Geológico (1973/75) e do Instituto Agronômico (1977/82). E, nessa condição, criticou a situação atual dos institutos de pesquisa, como o Agronômico, o Geológico, o Instituto Florestal, o Instituto de Botânica e o Instituto da Pesca.
“É incrível como, a partir dos anos 1980, esses institutos foram desmantelados”, disse. “O Instituto Agronômico de Campinas, por exemplo, jamais poderia estar na situação em que se encontra hoje. Quando eu vim para cá, éramos 16 pesquisadores em uma única área da pedologia [um ramo da ciência do solo]. Hoje só há um. Não temos mais mapeamento de solo no Estado de São Paulo. Infelizmente”, lamentou.
O professor reafirmou a importância de uma escola pública de qualidade. “Somente por meio de uma educação pública de qualidade, como a praticada pela Unicamp por meio da produção de conhecimento científico de excelência e da formação de profissionais altamente qualificados, estaremos aptos para contribuir com a existência de uma sociedade mais justa e com menores diferenças sociais.”
O reitor da Unicamp, professor Antonio José de Almeida Meirelles, afirmou que as lutas travadas por Perez Filho coincidem com as da Unicamp.
“Quando o professor Archimedes fala ‘da nascente à foz’ para descrever sua trajetória, isso revela uma conexão com um dos maiores problemas do nosso mundo de hoje, que são as mudanças climáticas, a questão ambiental”, disse o reitor. “E esse é um dos pilares da nossa Universidade. Já temos uma história no que se refere a essa questão, nas várias áreas em que ela se desenvolve.”

Contundência, paciência e presença
Na cerimônia de entrega do título, o homenageado contou com a presença de dois padrinhos, o professor do IG Raul Reis Amorim e o ex-reitor da Unicamp e atual secretário municipal de Educação de Campinas, José Tadeu Jorge.
O diretor do IG, professor Márcio Cataia, lembrou que Perez Filho é o quarto docente do instituto a receber a distinção. Cataia destacou o que chamou de três grandes qualidades do homenageado: a contundência, a paciência e a presença.
“A contundência nada tem a ver com aspereza, mas, sim, com a maneira forte com que defende os altos padrões de um ensino de qualidade”, explicou. A paciência, segundo Cataia, é consequência da virtude de saber esperar o momento certo de agir. Já a presença, de acordo com o diretor do IG, deriva do fato de Perez Filho ter contribuído para a construção da Universidade em diversos níveis.
O agora professor emérito desempenhou um papel fundamental na criação do Departamento de Geografia do IG e figura entre os responsáveis pela concepção e implantação do curso de graduação em geografia e do programa de pós-graduação na disciplina na Universidade. Além disso, participou da fundação do Laboratório de Geomorfologia e Análise Ambiental do instituto.
