Ciência, esta jovem aventureira
Ciência, esta jovem aventureira
Livro do físico e professor Peter Schulz gira em torno do fazer científico

Em cena há cerca de quatro séculos, a ciência é a protagonista do livro Ciência em cena – quem faz, como se faz, onde se faz, do físico Peter Schulz, professor do Instituto de Física Gleb Wataghin (IFGW) por 20 anos e hoje docente da Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA) da Unicamp. Metaforicamente tratada como uma jovem personagem, a ciência é apresentada por Schulz em narrativas contextualizadas histórica e politicamente, apuradas em seus fundamentos científicos e sutilmente bem-humoradas. O caráter de aventura da ciência é o elemento comum, identificado por Schulz, em suas 39 histórias sobre essa jovem cheia de vida que atua no cenário mundial e que, acima de tudo, existe graças ao desempenho de cientistas, uns consagrados e outros anônimos que também são lembrados pelo autor.
Publicado pela Faccioli Editorial, o livro de 272 páginas foi organizado em seis blocos: “Algumas aventuras na ciência”, “Algumas pessoas da ciência”, “Lugares da ciência”, “Os instrumentos da ciência”, “Como a ciência funciona” e “A ciência e o público”. Os textos foram produzidos originalmente como crônicas, publicadas ao longo de oito anos no Jornal da Unicamp e na revista eletrônica ComCiência, além de textos totalmente inéditos. “Todos foram reescritos, porque o texto de um livro é diferente do de uma coluna. Fiz checagens e atualizações das referências. São como textos inéditos”, explica Schulz, que contou com a edição de Alexandre Faccioli.
“O texto de (Peter) Schulz é, ao mesmo tempo, informativo e agradável”, descreve Faccioli. “Além de ser atraente para o meio acadêmico, ele também chega ao público leigo, com bom conteúdo e linguagem acessível”, completa o editor, que optou pela divulgação científica como tema do quarto livro lançado pela editora. “Fizemos um casamento perfeito, que resultou em um livro com texto de livro”, acredita Faccioli. Juntos, os dois selecionaram os textos entre 150 crônicas publicadas. Há material, portanto, para novos livros. “As pessoas precisam ter mais consciência de como se faz ciência”, analisa o editor.
Antídoto às fake news
Para Schulz, há uma armadilha semântica na afirmação “a ciência precisa ser entendida”, porque não é necessariamente o público que precisa entender a ciência. “Acho vital que o público entenda a ciência, porque o pensamento científico é um guia para você não cair em fake news, por exemplo, mas o que eu defendo é que a ciência precisa se fazer entender melhor também entre quem a pratica. Existem múltiplos mecanismos para isso e muitos deles surgiram no século da profissionalização da ciência, século XIX, quando havia muitas revistas de divulgação científica que promoviam participação popular”, contextualiza o físico.
No início da sua história, nos séculos XVII e XVIII, a ciência tinha grande participação do público, diz Schulz. “A ciência foi para as universidades somente no século XIX, na época da sua profissionalização, mas antes os cientistas também faziam ciência em casa e a família participava. O caráter de aventura, que vem lá do começo, continuou mesmo com a profissionalização, porque fazer ciência é uma aventura”, defende o cientista.
De acordo com Schulz, a profissionalização da ciência, como se deu, foi bem-sucedida, mas hoje há um movimento para recuperar o público que a própria academia expulsou, só não se sabe como fazer isso direito. “Isso é provocativo, mas é assim que eu vejo. É um dilema que eu acho que é muito pouco discutido dessa forma.”

Aventura e prazer
Schulz define a ciência em seu livro como “um grande movimento coletivo, cheio de idas, vindas e emoções”. Para ele, é necessário defender a ciência, mas não se pode esquecer que “ela vale também pela emoção, não só pela sua utilidade”. “Não estou sendo epicurista (filosofia de Epicuro), mas não podemos esquecer essa dimensão da emoção e do prazer de se fazer ciência.”

A atração pela aventura da ciência começou na infância. “Eu tinha meu ‘laboratório’ em casa, quando tinha cerca de 10 anos. Fazia experimentos, como colocar ponta metálica dentro de um limão ou pegar um grilo sem perna no jardim de casa e tentar colar um pedaço de capim para fazer uma prótese. Nada dava certo, mas eu tentava”, lembra o físico. Filho de pai engenheiro e mãe dona de casa, Schulz era incentivado pelos pais. “Eu lia biografias de cientistas, mas achava que nunca conseguiria fazer ciência, ao mesmo tempo que eu pensava ‘por que não tentar?’.”
Na vida adulta, teve que escolher entre as Artes Plásticas e a Física. “Decidi fazer Física. Quando eu me aposentar, talvez eu volte às artes.” Dedicado à atividade acadêmica e científica na Unicamp, Schulz recebeu no início do século o convite do colega físico Marcelo Knobel (reitor da Unicamp de 2017 a 2020) para escrever em dupla um artigo sobre a importância da ciência básica. Pouco tempo depois, participou do projeto de divulgação científica “Nanoaventura”, do Museu de Ciências da Unicamp. Já inserido na prática da divulgação científica, publicou em 2009 o livro A encruzilhada da nanotecnologia (Vieira & Lent). No ano seguinte, foi curador da exposição “Tão longe, tão perto – as telecomunicações e a sociedade”, no Museu de Arte Brasileira, montada em Brasília e em São Paulo.

Divulgação científica
A convite do editor do Jornal da Unicamp, Álvaro Kassab, começou a escrever uma coluna sobre ciência no jornal e se surpreendeu com a interatividade do leitor. Entre 2017 e 2021, foi secretário executivo de Comunicação da Unicamp. “Eu tenho prazer em divulgar e tenho a intuição de que, de alguma forma, é útil.” Para o físico, o tratamento dado pela imprensa à ciência é muito focado nas grandes descobertas. “Parece que é sempre uma sucessão de novidades, que não tem história. Às vezes é algo que vai demorar décadas, que ainda precisa ser confirmado e que 30 pessoas vão se debruçar sobre isso para ver se realmente é uma mudança tão grande. E a história se perde”, explica o cientista.
O convite para a publicação do livro Ciência em cena veio do editor Faccioli. A princípio, Schulz achou que já havia muitos livros sobre ciência no mercado. mas logo percebeu que boa parte deles aborda temas específicos ou se restringe à defesa da ciência contra os ataques negacionistas. Também identificou que somente os gênios isolados ficam na berlinda. “Normalmente somente os grandes nomes são lembrados: Newton, Einstein, Darwin, como se não houvesse coadjuvantes”, pontua o cientista.
No capítulo “Afinal, quem inventou o telégrafo?”, Schulz conta que mais de 50 anos antes de Samuel Morse, um dos inventores do telégrafo, diversos cientistas (que não eram chamados de cientistas na época) já haviam proposto sinais elétricos para transmissão de mensagens à distância. “Mas Morse teve a sacada do código, uma ideia simples que tornou viável. Antes disso, ele era pintor, não era engenheiro ou cientista”, conta. “Ciência é isso, uma aventura”, define Schulz. “Mas é também uma atividade humana, que tem seus sucessos, fracassos, tretas, humor, como qualquer outra atividade.”
Serviço – Ciência em cena
Faccioli Editorial – Lançamento em Campinas
Data: 28/11/2025 Horário: às 18h.
Local: Livraria Pontes
Endereço: Rua Dr. Quirino, 1223 – Centro, Campinas-SP
