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Entre sinais e palavras

Sala de aula com aproximadamente quinze crianças sentadas em cadeiras verdes ao redor de mesas brancas, vestindo roupas em tons de branco, azul-marinho e cores variadas, com mochilas coloridas no chão, enquanto uma pessoa em pé à direita gesticula em direção a uma tela de projeção que exibe imagens de pessoas, e nas paredes ao fundo estão afixados cartazes amarelos, verdes e coloridos, um relógio de parede, calendários e materiais didáticos diversos.
Sala de aula da Emefei Júlio de Mesquita Filho, em Campinas, escola bilíngue português-Libras que atende cerca de 75 crianças surdas e 430 ouvintes

Entre sinais e palavras

Escola bilíngue de Campinas participa de projeto que busca ensinar português a alunos surdos

Sala de aula com aproximadamente 15 crianças sentadas em cadeiras verdes ao redor de mesas brancas, vestindo roupas em tons de branco, azul marinho e preto, observando uma projeção em tela branca à direita que exibe imagem de pessoas em ambiente interno, enquanto uma pessoa em pé à frente da turma, usando jaqueta azul sobre blusa rosa, gesticula durante apresentação, com paredes ao fundo contendo calendários coloridos, gráficos educativos em amarelo e verde, relógio analógico, mochilas e materiais escolares distribuídos pelo espaço, e piso cinza claro.
Sala de aula da Emefei Júlio de Mesquita Filho, em Campinas, escola bilíngue português-Libras que atende cerca de 75 crianças surdas e 430 ouvintes

Em geral, a primeira língua da criança surda no Brasil é a língua brasileira de sinais, conhecida como Libras. Todo o aprendizado do estudante surdo deve ser mediado pela modalidade gestual-visual, que permite o acesso ao conhecimento das diversas disciplinas escolares, entre elas o português. Libras, portanto, é a língua de interação e instrução dessa criança, enquanto o português é a sua segunda língua. Mas a barreira linguística que se impõe neste contexto cria obstáculos ao aprendizado da língua portuguesa escrita.

Para solucionar essa lacuna pedagógica, um projeto interinstitucional sediado na Unicamp desenvolve uma pesquisa aplicada a políticas linguísticas nacionais para a educação de surdos que resulte na criação de material didático próprio para esse grupo linguístico.

“Ainda há surdos que saem da escola sem ter aprendido o português”, afirma Ivani Rodrigues Silva, especialista em linguística aplicada, docente de Fonoaudiologia da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp e pesquisadora responsável do projeto Centro de Ciência para o Desenvolvimento de Tecnologia Assistiva para a Educação Bilíngue de Surdos (CCD-TAEBS). Esse trabalho é realizado em parceria com pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Federal do ABC (UFABC), com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Iniciado em 2024, o projeto tem duração prevista de cinco anos e conta com o apoio da Secretaria de Educação do município de Campinas.

“O surdo hoje está dentro das escolas utilizando, para sua aprendizagem, as mesmas metodologias das crianças e jovens ouvintes. Isso tem produzido falhas na formação escolar, já que ele termina o ensino médio sem uma produção textual ou uma compreensão leitora semelhante à do ouvinte”, afirma Silva. “

Não é porque o surdo é surdo que ele não consegue passar no vestibular, mas sim porque até agora a escola está falhando em relação ao seu ensino”, acrescenta. Segundo ela, a proposta é fazer um material específico para essa minoria linguística, de modo a inserir o sujeito surdo na sociedade letrada.

Amparados pela lei

A Libras é reconhecida como a língua natural para pessoas surdas pela Lei 10.436/2002, que estabeleceu o seu uso cotidiano como direito do surdo. Além de garantir o acesso dos surdos à educação, o que é um direito previsto na Constituição, a norma promoveu uma grande mudança na perspectiva desses indivíduos como cidadãos. Porém, apesar da legislação favorável, “a operacionalização da educação bilíngue para surdos ainda está por vir”, constata Silva.

Em 2005, o Decreto 5.626 complementou a lei de 2002 estabelecendo diretrizes para a educação bilíngue e reconhecendo que os surdos têm uma língua natural diferente da língua da maioria dos brasileiros e que, consequentemente, o português deve ser ensinado aos surdos como segunda língua.

“Houve avanços legais, mas a oferta de material de ensino dirigido à comunidade surda é escassa e não atende ao desenvolvimento das interfaces de leitura e escrita da língua portuguesa. A escola continua utilizando os materiais de ouvintes para ensinar surdos, e as metodologias são as mesmas. Isso representa um apagamento desses estudantes em nossas escolas”, diz a professora. “Ainda há pouca sensibilização da sociedade e pouco mudou no cotidiano.”

“Acreditamos que o ensino deve ser na língua forte do aluno, mas ele precisa também aprender a língua da sociedade envolvente”, defende Silva, que atualmente coordena o Centro de Estudos e Pesquisas em Reabilitação Prof. Dr. Gabriel O.S. Porto (Cepre), que serve de sede ao projeto da Fapesp.

Criado na Unicamp em 1973 para atendimento a pessoas com deficiência visual e auditiva, o centro ampliou suas atividades, anos depois, para o ensino e a pesquisa. Com uma equipe multiprofissional, a instituição também contribui para a formação de alunos de graduação, pós-graduação e especialização.

Onze pessoas em pé enfileiradas em um pátio de instituição com paredes azuis, piso de concreto com padrão geométrico, palmeira ao fundo, algumas vestindo crachás de identificação, com roupas em cores variadas incluindo tons de azul, preto, rosa, verde e marrom, a maioria usando óculos, em ambiente externo com cobertura parcial e estrutura arquitetônica ao fundo.
Da esq. para a dir., Adriana Pereira, Luhema Ueti, Ivani Silva, Tatiana Gabas, Cássia Sígolo, Marcela Cândido, Ana Cecília Bizon, Lucia Reily, Maria Mertzani, Luciana Rosa e Lis Melo, equipe de pesquisa que desenvolve o material didático

O profissional surdo

“Esse projeto tem uma relevância muito grande em relação à educação em língua de surdos, do português como segunda língua, porque foram identificadas lacunas no aprendizado dos surdos, que precisam ter um ensino equivalente ao dos ouvintes. É também um trabalho muito importante que valoriza e faz reflexões a respeito do trabalho do profissional surdo”, diz Luciana Aguera Rosa, professora surda que integra a equipe de pesquisadores do Cepre, onde trabalha há dez anos.

Rosa sempre estudou em escola pública de ouvintes, até o ensino médio. “Tive que me esforçar muito para desenvolver a escrita, com apoio de amigos e da família. Precisamos lutar constantemente pelos nossos direitos”, conta a professora, que fez graduação em Letras-Libras no polo Unicamp, uma parceria da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) com a Faculdade de Educação (FE) da Unicamp.

“Nós, surdos, estamos sempre atrasados em relação aos ouvintes”, relata Rosa, que também foi aluna do Cepre. “Tenho muito orgulho desse centro porque ele me ajudou muito e impactou demais na minha vida. Lembro de quando eu era pequena, numa época em que ainda não existia Libras nas escolas, antes da promulgação da lei de Libras.”

Ela é pós-graduada na área de Educação e tem como meta incentivar o desenvolvimento educacional das pessoas surdas. “Eu sei o quanto é angustiante a dificuldade na escrita. Sei o quanto os alunos surdos sofrem com o português como segunda língua, porque eu também sofri.”

A estudante surda Thays Silva de Oliveira, de 13 anos, também encontra barreiras no aprendizado do português. “Nasci surda e meus pais descobriram quando eu tinha nove meses. No Cepre me ensinam as palavras e a estrutura do português. Eu acho importante ter ensino voltado para os surdos, para conseguirmos fazer provas e mais atividades”, diz ela, que cursa 8º ano do ensino fundamental e quer estudar Medicina.

Márcia Alves Antonia da Silva, mãe de Lerrandro, de 15 anos, leva o filho ao Cepre desde os seus 8 anos para sessões de fonoaudiologia. Ele nasceu surdo. “Como mãe, você se sente incapaz. Procurei ajuda de todos os lados.” Lerrandro fez um implante coclear na Unicamp e hoje consegue falar, mas ainda está em processo de aprendizagem do português. “Apesar de alfabetizado, se você colocar um texto na frente dele, ele vai ler, sem entender. Por isso eu acho que tinha que ter um material apropriado para surdos, como tem para pessoa ouvinte. Ele quer fazer faculdade”, diz a mãe.

Pessoa usando óculos de armação azul e jaqueta bege sobre camisa com listras roxas e brancas, sentada à frente de uma mesa de madeira com as mãos apoiadas sobre ela em gesto de apresentação, com estantes de livros coloridos ao fundo e uma porta com vidros cinzas à direita.
Vice-diretora da Emefei Júlio de Mesquita Filho, Danieli Tasca: escola busca dar autonomia aos alunos surdos fora do ambiente escolar

Equipe multidisciplinar

A equipe multidisciplinar do projeto tem formações distintas em áreas como linguística, artes, pedagogia e fonoaudiologia. Nos dois primeiros anos, o projeto focou no mapeamento e na pesquisa etnográfica, em parceria com a escola municipal, seus professores e gestores. “O que estamos procurando fazer é uma pesquisa que construa subsídio para uma política linguística realmente voltada para o estudante surdo”, afirma Ana Cecília Cossi Bizon, professora do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) e uma das pesquisadoras principais do CCD-TAEBS.

Segundo Bizon, essa é uma área ainda com pouca pesquisa, e o trabalho do Cepre, anterior ao projeto, tem contribuído também para a formação de um corpo de pesquisa. “O Cepre é um lugar transdisciplinar que se tornou referência nessa área, capaz de subsidiar uma política pública e linguística que tenha impacto direto para essa população.”

De acordo com a pós-doutoranda e pesquisadora do CCD-TAEBS Cássia Sígolo, a comunidade surda é muito diversa. “Em alguns casos é um surdo filho de pais surdos, então a língua de sinais circula em casa como língua natural; ou um surdo filho de pais ouvintes, caso em que o surdo vai ter aquisição tardia da Libras e isso vai impactar no processo de escolarização. Há também grupos mais vulneráveis por questões raciais, sociais ou econômicas”, explica.

De acordo com a professora da FCM e do Instituto de Artes (IA) Lucia Reily, o projeto é focado no aprendizado do português, mas a equipe identifica também uma demanda reprimida entre os professores de outras disciplinas, como inglês, história, geografia, química, física e matemática. A pesquisadora e pós-doutoranda Tatiana Martins Gabas reforça a ideia de que o ensino da língua portuguesa não serve apenas para as aulas de português no contexto da escolarização, mas também para aprender todos os outros conteúdos.

A equipe conta ainda com a pós-doutoranda Marcela Dezotti Cândido, que desenvolve uma proposta curricular que subsidie a elaboração de materiais didáticos para estudantes surdos, e a pesquisadora grega Maria Mertzani, bolsista de pós-doutorado no CCD-TAEBS. Segundo Mertzani, desde 2004 a Grécia tem educação bilíngue como política nacional. Isso significa que existe um currículo nacional para língua de sinais grega e um currículo para o grego como segunda língua para os alunos surdos. Parte da equipe multidisciplinar já visitou o Reino Unido e deve ir à Suécia para conhecer o modelo de ensino para surdos nesses países.

PARCERIA COM A ESCOLA

CAMINHOS ATÉ O PORTUGUÊS

Relatos (em Libras) de surdos da Emefei Júlio de Mesquita Filho

Três pessoas em pé em uma biblioteca, cercadas por estantes de livros coloridos, sendo que a pessoa do centro veste moletom preto com estampa branca, a pessoa à esquerda veste moletom preto com calça azul marinho com listras brancas e tênis marrom, e a pessoa à direita veste jaqueta preta com cinza e calça jeans clara, todas conversando entre si em um piso de cerâmica com padrão geométrico.
Dashca Pierre, Stephany Cirilo de Oliveira e Keven Alexandre da Silva Bernardes na biblioteca da escola
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