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Vírus causa declínio inédito de população de pererecas

Pesquisa em parceria com a UFPR associa surtos do patógeno à queda de 80% na reprodução de anfíbios da Mata Atlântica

Dois sapos-arborícolas de coloração verde-clara e laranja-avermelhada pousam sobre um galho marrom, com o primeiro posicionado acima e voltado para a câmera exibindo olhos amarelos com pupilas verticais, enquanto o segundo encontra-se abaixo com a cabeça em direção oposta, ambos apresentando pele lisa e úmida, contra um fundo desfocado em tons de verde e bege.
Sapo de cor verde e branca com ventre claro pendurado entre duas folhas verdes, com membros anteriores estendidos para cima e corpo alongado em posição vertical contra fundo escuro.

Em um artigo recém-publicado no periódico Biodiversity and Conservation, cientistas da Unicamp e da Universidade Federal do Paraná (UFPR) relacionaram o declínio maciço de uma população de pererecas-macaco à infecção por ranavírus. Trata-se de um vírus que se espalha rapidamente entre anfíbios, répteis e peixes, resultando em uma alta taxa de mortalidade, mas até então nunca havia sido identificado como o causador de eventos de mortalidade em espécies nativas do Brasil, seja em ranários ou em vida livre.

As pererecas-macaco são um grupo de anfíbios conhecidos pelo seu movimento lento e por caminharem sobre a vegetação, em vez de saltarem. Seu nome é derivado da maneira como escalam as árvores, utilizando as quatro patas para se agarrar aos galhos, de forma semelhante a um primata. Elas não são consideradas uma espécie em risco de extinção, mas isso pode ocorrer caso suas populações continuem sendo afetadas por doenças como o ranavírus, uma ameaça silenciosa e sobre a qual faltam dados no país.

No estudo, os autores investigaram diversos eventos de mortandade em massa, distribuídos entre 2024 e 2026, em uma Unidade de Conservação de Santa Catarina. Os surtos impactaram os girinos das espécies Phyllomedusa distincta e Boana bischoffi, que são endêmicas da Mata Atlântica, possuem hábitos noturnos e coloração esverdeada. As infecções coincidiram com o declínio de mais de 80% no desempenho reprodutivo da P. distincta, o que resultou na queda acentuada do ingresso de novos indivíduos na população local, um cenário típico de epidemias.

Pessoa de cabelos brancos e óculos, vestindo camiseta preta, segura com a mão direita um frasco de vidro contendo líquido transparente com objetos em seu interior, em ambiente de prateleiras metálicas brancas com itens diversos ao fundo e janelas.
O professor Luis Felipe de Toledo, do IB, foi quem primeiro suspeitou do ranavírus ao analisar fotos dos girinos doentes
Pessoa de cabelos brancos e óculos, vestindo camiseta preta, segura com a mão direita um frasco de vidro contendo líquido transparente com objetos em seu interior, em ambiente de prateleiras metálicas brancas com itens diversos ao fundo e janelas.
O professor Luis Felipe de Toledo, do IB, foi quem primeiro suspeitou do ranavírus ao analisar fotos dos girinos doentes

Antes da publicação do estudo, pesquisadores somente tinham observado a mortalidade em massa causada por esse vírus em espécies invasoras, como a rã-touro e a tilápia, introduzidas no país como criações alimentícias. “Já havíamos detectado o vírus em outras espécies nativas, mas a intensidade da infecção observada naqueles casos foi muito menor”, afirma a professora Karla Campião, da UFPR, que lidera pesquisas sobre parasitismo em anfíbios.

Isso significa, segundo a bióloga Aline Fonseca, que o vírus está se reproduzindo de forma rápida e eficaz, evidenciando que a sua infecção e efeitos dependem do contexto ambiental e de fatores climáticos. Os achados também reforçam que mesmo áreas preservadas e espécies endêmicas são atingidas pelo patógeno, que pode ser disseminado pelo contato com a água, animais ou objetos contaminados. “Em Singapura já existe vacina para peixes que servem de alimento, mas como a gente vai vacinar animais na natureza?”, questiona Fonseca, primeira autora do artigo.

O estudo integrou parte da pesquisa de doutorado de Fonseca, realizada na UFPR sob a orientação de Campião. Em sua tese, ela investiga a prevalência do ranavírus em pontos com e sem a presença da rã-touro — conhecido reservatório da doença —, buscando entender se ela está contribuindo para a disseminação no país. No artigo, no entanto, a pesquisadora levanta outra hipótese ao afirmar que a contaminação pode ter vindo de tilápias, que também servem de reservatório para o microrganismo e são encontradas em lagoas próximas à região onde as pererecas-macaco morreram.

O local é uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) localizada no município catarinense de Guaramirim. Propriedade do casal Germano e Elza Woehl, a RPPN abriga o Instituto Rã-Bugio para a Preservação da Biodiversidade, voltado a projetos de educação ambiental. Em 2024, o ambientalista começou a encontrar animais mortos ou agonizantes às margens do lago em que viviam. Preocupado, entrou em contato com o professor Luis Felipe de Toledo, do Instituto de Biologia (IB) da Unicamp, para saber o que estava acontecendo.

“O Germano me procurou porque eu pesquiso animais deformados e trabalho com quitrídio”, afirma Toledo, referindo-se a um fungo que já era conhecido no Brasil por causar óbito em massa de anfíbios. “Mas ao olhar as fotos dos girinos, aquilo me pareceu um ranavírus. Esse é um vírus bem sistêmico, pois ataca o bicho inteiro, causando hemorragia interna, inchaços, ulcerações na pele, sangramentos e danos a órgãos. Nas imagens, foi isso que me chamou a atenção”, comenta.

Pessoa com sorriso exibindo na palma da mão direita um sapo-cururu de coloração marrom-avermelhada contra fundo desfocado de vegetação verde.
A bióloga Aline Fonseca, primeira autora do estudo, investiga em seu doutorado na UFPR se a rã-touro contribui para a disseminação do ranavírus
Pessoa com sorriso exibindo na palma da mão direita um sapo-cururu de coloração marrom-avermelhada contra fundo desfocado de vegetação verde.
A bióloga Aline Fonseca, primeira autora do estudo, investiga em seu doutorado na UFPR se a rã-touro contribui para a disseminação do ranavírus

O estudo

Diante dessa observação, Toledo aconselhou Germano a procurar a professora Karla Campião, cujo grupo de pesquisa possui experiência na área. Em seu laboratório, a docente busca entender como os anfíbios interagem com parasitos e patógenos e como essas interações são moduladas pelo ambiente, tendo como um de seus focos justamente o ranavírus. A docente, então, sugeriu o tema a Aline, que já estava no segundo ano de doutorado e ficou responsável por confirmar a presença do vírus nos animais e identificar a qual linhagem eles pertenciam.

Essa etapa foi realizada em parceria com o Instituto de Zoologia de Londres (Reino Unido), onde Aline passou um período de estágio-sanduíche, e com a Universidade de Oviedo, na Espanha. Além disso, a colaboração com pesquisadores da Universidade de Wisconsin-Madison, nos Estados Unidos, permitiu a caracterização filogenética do vírus, ou seja, o estudo do grau de parentesco entre diferentes grupos de organismos.

Por sua vez, observações de campo e monitoramento de longo prazo permitiram avaliar os efeitos dos surtos na população de pererecas-macaco, enquanto a modelagem estatística foi utilizada para verificar o papel de outras variáveis nos eventos de mortalidade. “A gente tentou comparar os dados de resultados ecológicos, temperatura e precipitação para verificar se teve alguma relação com o declínio populacional, mas o que explicou melhor esses eventos foi o vírus”, afirma Aline.

Sapo verde com manchas avermelhadas no dorso, olhos salientes com pupila vertical, pousado sobre um ramo verde horizontal com as patas dianteiras e traseiras flexionadas, próximo a uma folha verde clara pendente do mesmo ramo.
Pererecas-macaco se movem lentamente sobre a vegetação e escalam árvores com as quatro patas, em vez de saltar como a maioria dos anfíbios

Os resultados obtidos também levantam a possibilidade de o ranavírus estar relacionado ao desaparecimento histórico de anfíbios no país. Isso porque, embora quase todos os registros da doença tenham ocorrido nas últimas três décadas, o Brasil passou por um grande declínio de espécies nos anos 1970 e 1980. “Como o vírus não foi estudado historicamente, a gente não consegue fazer essa correlação, mas, como agora sabemos que ele causa esses declínios, essa é uma hipótese plausível. É um cenário que pode ter acontecido antes, mas que precisa de mais estudos”, afirma o professor Felipe Toledo.

Sapo verde com detalhes em vermelho e amarelo no peito e nas laterais do corpo, posicionado sobre um ramo verde inclinado, com as patas dianteiras estendidas para frente e as traseiras flexionadas, apresentando olho amarelo com pupila vertical característica, ao lado de uma folha verde clara pendurada no mesmo ramo contra fundo branco.
Pererecas-macaco se movem lentamente sobre a vegetação e escalam árvores com as quatro patas, em vez de saltar como a maioria dos anfíbios
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