Urbanização muda hábitos alimentares de macacos-pregos
Urbanização muda hábitos alimentares de macacos-pregos
Primatas da Mata de Santa Genebra, em Campinas, comem seis vezes mais espécies de alimentos exóticos do que há 30 anos


Entre 1988 e 1991, um estudo realizado por estudantes do Instituto de Biologia (IB) da Unicamp investigou os hábitos alimentares de primatas que habitavam a Mata de Santa Genebra, fragmento urbano de Mata Atlântica localizado na porção oeste do Distrito de Barão Geraldo, em Campinas. Na época, os pesquisadores verificaram a ingestão de 71 espécies de vegetais, sendo quatro delas exóticas — aquelas que não são naturais de uma região. O principal componente exótico verificado na alimentação dos macacos era o milho, encontrado nas plantações que existiam no entorno da mata.
Cerca de 30 anos depois, entre 2019 e 2021, uma nova pesquisa voltou a analisar o comportamento desses primatas por meio de sua alimentação. A variedade de plantas que compõem a dieta dos macacos aumentou para 80 espécies vegetais encontradas. Porém, o número de espécies exóticas chamou a atenção: se no início dos anos 1990 eram quatro, na nova pesquisa foram verificadas 23 espécies exóticas compondo a alimentação dos primatas, quase seis vezes mais. Isso fora outros alimentos que estão longe do que se supõe compor a dieta de macacos, como pães, biscoitos, ração para cães e até macarrão instantâneo.
Além de caracterizar os hábitos alimentares dos macacos-prego-de-tufo-preto (Sapajus nigritus) que hoje vivem no local, o estudo fornece evidências importantes a respeito das mudanças ocorridas na região e do quanto o avanço das áreas urbanas sobre a Mata de Santa Genebra pode impactar a biodiversidade local. A pesquisa foi realizada por João Victor de Amorim Verçosa, doutorando em Ecologia pela Unicamp, e pela professora do Instituto de Biologia (IB) Eleonore Zulnara Freire Setz. Os resultados foram publicados no International Journal of Primatology.
Olhando para a comida
A primeira pesquisa foi realizada por ex-alunos de Setz, entre eles Mauro Galetti Rodrigues, hoje professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Ela lembra que as condições de estudo da área eram bem mais limitadas do que as atuais. “Não existiam trilhas dentro da mata que ajudassem na observação dos macacos, nem recursos como GPS.” Outra diferença para o trabalho atual de Verçosa foi que, naquela época, foi possível registrar dados não apenas de macacos-prego, mas também de bugios que viviam no local. “Atualmente, conversando com os moradores do entorno, vários relatam que não veem ou ouvem os bugios há bastante tempo”, destaca a professora.
Segundo os pesquisadores, os macacos-prego são uma espécie bastante ativa, que permanece acordada durante longos períodos, o que favorece as observações. Trata-se também de animais que se adaptam facilmente a espaços em que o meio urbano se conecta com as áreas florestais, como é o caso da Mata de Santa Genebra. “Cada vez mais as cidades estão crescendo sobre as florestas e outros tipos de vegetação. Esse encontro da fauna com os seres humanos torna-se cada vez mais iminente”, pontua Verçosa.
Foram realizadas observações de um grupo de 20 a 30 macacos em dois períodos, entre agosto de 2019 e março de 2020 e de outubro de 2020 a fevereiro de 2021, totalizando 437 horas de trabalho de campo, sendo 213 horas de observação efetiva. Verçosa observava as plantas e animais que eram consumidos, as partes dos vegetais e a frequência da alimentação. Também foi feita a análise de 123 amostras de fezes para identificar as espécies de plantas ingeridas e como isso se reflete em um potencial de dispersão de sementes.
Os vegetais totalizaram 82,5% da alimentação dos animais, sendo 35,7% de frutos com polpa e 23% de frutos com arilo, nos quais a polpa carnosa envolve as sementes, como é o caso da romã. O restante da alimentação vegetal é composto por sementes, caules, flores e raízes. Animais, como os pequenos invertebrados, compõem 18,5% da dieta. Entre as espécies vegetais nativas mais frequentes, destacam-se o ingá (Inga vera affinis), o ipê-amarelo (Handroanthus albus) e a tabocuva (Pera glabrata). Entre as espécies exóticas, os pesquisadores ressaltam a acerola, a amora e a goiaba, uma espécie classificada como invasora, que pode causar alterações na biodiversidade local. Outros frutos exóticos encontrados, que os pesquisadores atribuem à disponibilidade em jardins urbanos do entorno, ou que são fornecidos pelos moradores ou visitantes da mata, são a banana e a manga.

“Não alimente os animais”
O aumento da presença de espécies exóticas na dieta dos macacos é um reflexo tanto da maior proximidade entre a cidade e a floresta quanto da facilidade de adaptação da espécie nesse contexto. “Essa é nossa preocupação: discutir o efeito dessas espécies exóticas na dieta de animais frugívoros como os macacos-pregos”, aponta Setz. Um dos fatores que influenciam esse consumo é a maior disponibilidade: enquanto espécies nativas são sazonais, as frutas exóticas acabam sendo cultivadas durante todo o ano em jardins, parques e pomares urbanos, espaços em que é mais fácil para os animais obterem alimentos. “Geralmente, as pessoas adoram ter árvores frutíferas nas praças, mas isso impacta na alimentação da fauna urbana”, reflete a professora.
É o que acontece com a goiaba e a amora, duas frutas exóticas amplamente encontradas no espaço urbano. A ingestão delas também pode se refletir na dispersão de sementes por meio das fezes, o que pode impactar a própria paisagem natural da floresta. “Alguns estudos mostram que a goiaba acaba afetando a composição, a estrutura da floresta e a qualidade do solo nas áreas em que ela se dispersa”, lembra Verçosa.
O pesquisador também lembra que o contato com os humanos é outro fator de impacto para a alimentação dos primatas, já que muitas pessoas lhes deixam alimentos inadequados. “Eles [os macacos] se tornam habituados às pessoas porque obtêm recursos delas. Quando as pessoas os alimentam, eles perdem o medo e começam a explorar muito mais a área urbana. Alimentar os macacos pode parecer inofensivo, mas pode causar diversos problemas à saúde deles, como questões dentárias e doenças transmitidas por humanos.”


