
Livro resgata história das línguas românicas
Obra do linguista alemão Georg Kaiser chega ao Brasil traduzida por Rodolfo Ilari e colegas

Rodolfo Ilari não é um grande conhecedor do alemão. Após uma má experiência no ensino secundário, o docente aposentado da Unicamp passou décadas evitando esse idioma, apesar de sua longa trajetória nas áreas de linguística e semântica. Mas quando recebeu os originais do livro Romanische Sprachgeschichte (história das línguas românicas) junto com uma dedicatória em português do autor, Georg A. Kaiser, a curiosidade falou mais alto. “Li com um dicionário, duas gramáticas e, sobretudo, muita vontade de me reconciliar com a língua”, conta.
Cinco anos depois, o resultado dessa jornada pode ser conferido em História das Línguas Românicas, tradução realizada por Ilari em parceria com os linguistas Renato Miguel Basso, da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar), e Maurício Sartori Resende, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Publicada no Brasil pela Editora da Unicamp, a obra, de caráter didático e introdutório, trata da história das línguas românicas a partir da sua origem no latim e da sua evolução ao longo dos séculos, comparando suas estruturas e contextos linguísticos.
Também chamadas de neolatinas, as línguas românicas são os idiomas, vivos ou mortos, originados do latim vulgar – a forma coloquial utilizada pelas camadas menos letradas do Império Romano. Assim como ocorre com as línguas modernas, o latim sempre apresentou fortes variações regionais e sociais, mais suscetíveis a mudanças do que o registro clássico da língua, usado nos livros de grandes escritores como Cícero e Virgílio. Com o tempo, ele originou descendentes já extintos, como o dalmático, ou ainda falados, caso do spanhol, do francês, do italiano, do romeno e, claro, do português, entre vários outros.
História
O estudo da linguística românica surgiu no século XIX, com o trabalho do pesquisador alemão Friedrich Diez, a partir do qual diversos pesquisadores passaram a explorar seu processo de evolução e diferenciação ao longo do tempo. O livro de Kaiser condensa essa trajetória em pouco mais de trezentas páginas. Lançada em 2013, pela editora Brill, a obra se baseia em cursos que Kaiser ministrou nas universidades de Hamburgo e Constança, ambas na Alemanha, e configura-se como um manual de iniciação destinado a estudantes de letras.
Sua chegada às mãos de Ilari não ocorreu por acaso. Os dois linguistas se conheceram no final dos anos 1980, durante um evento que comemorava duas décadas de ensino da língua portuguesa em uma das principais universidades de Budapeste. Anos depois, em uma viagem ao Brasil, Kaiser comprou a obra Linguística Românica, que o colega havia publicado pela Editora Ática, e decidiu enviar a ele o original alemão de seu livro sobre o mesmo assunto. “Agora falta mandarmos cópias da nossa tradução para Kaiser”, afirma o docente da Unicamp.


Uma obra singular
No prefácio à edição brasileira, o tradutor comenta que a leitura da obra o fez recordar das aulas de linguística românica que assistia em sua graduação na USP, nos anos 1960, ministradas por Theodoro Maurer Jr. e Isaac Salum. Grandes referências na área, os dois ajudaram a formar o primeiro quadro docente do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Unicamp, do qual faziam parte Carlos Vogt, Haquira Osakabe e o próprio Ilari, e contribuíram para formar uma tradição antiga e respeitável de ensino da disciplina.
Essa tradição está preservada em ambientes como o Cedae, o Centro de Documentação Cultural do IEL, e a Biblioteca Professor Antônio Cândido, que, entre outras obras, abrigam manuscritos de escritores famosos, a biblioteca completa de Maurer e toda a correspondência pessoal de Salum.
E o livro de Kaiser, afirma o professor, contribui para manter vivo o interesse. Apesar de não trazer novidades quando comparado a outras obras introdutórias, o docente explica que seu diferencial está na organização dos dados, sintetizados de maneira clara e bem dosada, mas sem abrir mão da riqueza do conteúdo.
Uma das principais qualidades, por exemplo, são as dezenas de tabelas que permitem ao leitor visualizar as diferenças entre os idiomas. Além disso, o livro apresenta resumos de todas as seções, questionários ao final de cada capítulo para a recapitulação do conteúdo e referências detalhadas das citações e fontes mencionadas. Por último, há também um índice de assuntos com centenas de entradas e milhares de referências de páginas destinado a quem deseja fazer uma leitura transversal da obra, de acordo com seu tema de interesse.


“Índices desse tipo permitem acompanhar não só a evolução das várias línguas, mas também traçar a história individual dos vários fenômenos linguísticos. Isso é uma coisa que eu nunca tinha visto”, observa o docente, que começou a traduzir o livro em 2021 como um exercício pessoal. No entanto, conforme avançava no texto, ele percebeu estar diante de um conteúdo a que mais pessoas deveriam ter acesso, o que o fez pedir ajuda a Basso e Resende, ambos ex-alunos do IEL, a quem coube “dar conta brilhantemente da tarefa de chegar a uma tradução de qualidade”.
Ao final da experiência, o docente destaca uma última lição: o estudo das línguas estrangeiras tem sua importância em todas as áreas. No caso da linguística românica, por exemplo, cuja origem ocorreu na Alemanha, muitas das principais obras da área continuam sendo escritas em alemão, motivo pelo qual ele aconselha aos interessados nessa área que se dediquem a aprender o idioma. “Nenhuma língua é chata ou inútil e tudo fica mais difícil para quem não supera no tempo certo as veleidades e as frustrações escolares da adolescência”, conclui.
