Arte sob custódia

O relato é de Ângela Maria Rocha, uma das milhares de pessoas que sofreram com as prisões arbitrárias realizadas durante a ditadura civil-militar (1964-1985). Não existem números oficiais do total de presos políticos no Brasil durante o período, mas avaliações realizadas pela Comissão Nacional da Verdade estimam que até 50 mil pessoas teriam sido presas durante o regime.
As estratégias para sobreviver nas prisões eram várias. Para alguns, a arte foi o caminho. Uma pesquisa de mestrado em Artes Visuais da Unicamp debruçou-se sobre um conjunto de obras muito particular. Trata-se da Coleção de Arte de Presos Políticos Alípio Freire-Rita Sipahi, que reúne mais de 300 trabalhos artísticos, entre pinturas, desenhos, escritos e peças de artesanato produzidos por presos políticos em presídios e espaços de repressão no estado de São Paulo entre 1969 e 1979, período de maior violência do regime, reunidos pelo casal Alípio Freire e Rita Sipahi.
Além de questionar as motivações para que essas pessoas buscassem a expressão artística dentro dos presídios, o estudo mostra como as condições de produção de arte nesses espaços se relacionam com as funções que eles desempenhavam na estrutura de repressão, e também como as obras, mesmo que produzidas em condições adversas, mantinham proximidade com as linguagens estéticas do momento. A pesquisa teve a autoria de Rogério Mourtada Anselmo e orientação da professora Lucia Helena Reily.
Coleção para não esquecer
Alípio Freire foi jornalista, poeta, artista plástico, cineasta e militante político. Durante a ditadura, foi preso entre 1969 e 1974 e passou pelos presídios paulistanos de Tiradentes e Carandiru, pela Penitenciária do Estado e pela Delegacia de Ordem Política e Social (Dops). Baseado em sua própria experiência e no convívio com outros presos políticos, começou a reunir o acervo de obras criadas no contexto dos locais de detenção. “Se Alípio não os tivesse recolhido, hoje esses trabalhos estariam dispersos. Então esse foi um gesto de preservação da memória mirando o futuro”, aponta Mourtada. A partir de 1984, a coleção passou a ser objeto de exposições no Brasil e em outros países, iniciativa que contribuiu para que a memória dos presos políticos fosse tornada pública e para que novas obras encontradas passassem a integrar o acervo. Freire já estava em negociações com várias instituições para a manutenção da coleção. Após sua morte, em 2022, Rita Sipahi conseguiu encaminhá-la ao acervo do Memorial da Resistência de São Paulo, ligado à Pinacoteca do Estado.
As obras foram produzidas tanto por pessoas que já se dedicavam às artes antes de serem presas, como o próprio Alípio, Ângela Rocha, Artur Scavone, Carlos Takaoka, Sérgio Ferro e Sérgio Sister, como por presos que entraram em contato com a arte na prisão. É o caso de Cláudio Barriguelli, Wilson Palhares e Rita Sipahi. Entre as linguagens utilizadas, é possível encontrar desde cartas e desenhos feitos com lápis e caneta, que serviam de comunicação com o mundo externo, até itens mais elaborados, como xilogravuras, pinturas e colagens. Havia também itens de couro, como cintos e bolsas.

O pesquisador observa que as condições de produção artística variavam entre os locais. Enquanto em espaços clandestinos de tortura, como no Dops, as obras eram mais simples ou improvisadas, locais como o Presídio Tiradentes e a Casa de Detenção do Carandiru, voltados ao cumprimento de sentenças, chegavam a tolerar a existência de ateliês de arte e que familiares levassem materiais aos presos. “Trata-se de uma variação nos graus de vigilância e repressão que impactava diretamente na rotina dos presos políticos e nos materiais a que eles tinham acesso”, analisa.
A pesquisa contou com entrevistas e análises descritivas de algumas das obras. As experiências e sentimentos compartilhados vão ao encontro de um conceito do filósofo alemão Walter Benjamin apropriado para interpretar por que os presos recorriam à arte: a “nova barbárie positiva”. Elaborado após a Primeira Guerra Mundial, o conceito faz referência ao processo de o ser humano, após um esgotamento, reconstruir sua realidade e, neste caso, empregar a arte como um instrumento. “Depoimentos como os de Ângela Rocha e de Sérgio Sister falam da importância do fazer artístico para se reestruturar como sujeitos. A arte entra como algo que traz conforto, e o sujeito esfacelado encontra um espaço em que pode se reconstruir em um contexto de escassez”, lembra Mourtada.
Os pesquisadores também chamam a atenção para aspectos figurativos que aparecem nas obras, inscrevendo-as naquela que ficou conhecida como Nova Figuração Brasileira. “Nos anos 1940 e 1950, há um predomínio do abstracionismo e das linguagens não figurativas nas artes. Na década de 1960, a figuração volta com toda força para dar legibilidade a questões sociais e políticas”, detalha, ressaltando nas obras elementos que expressam o cotidiano e a violência. Outra observação é uma proximidade com a pop art, vanguarda que estava em evidência nos Estados Unidos ao comentar a sociedade de consumo. Aqui, no entanto, esses elementos entram como recursos para também denunciar o arbítrio. “Há uma apropriação crítica dos elementos da pop art, adaptada ao contexto de repressão.”
A orientadora, que já havia pesquisado artes produzidas em contextos adversos, como em instituições psiquiátricas e até campos de concentração da Segunda Guerra Mundial, comenta que os sentidos da expressão artística são bastante pessoais e podem ser, em alguns casos, instrumentais no processo de elaboração de vivências difíceis. “Penso que olhar para essa coleção ajuda a dar uma dimensão da importância de buscar a sobrevivência”, reflete Reily. “Nesse sentido, a arte tem um papel muito importante para o ser humano.”
“Saindo da cadeia”, xilogravura feita por Artur Scavone
em 1976, no Presídio Romão Gomes (Barro Branco)
