Há anos, lendo a correspondência entre Fernando Sabino e Clarice Lispector, me dei conta de que ser cronista era coisa complicada. Não poderia imaginar que, ao aceitar o convite do Álvaro Kassab, acabaria no dilema da Clarice. Era em 1953 e, na época, ela vivia em Washington; queria saber se a revista Manchete estaria interessada numa espécie de “bilhete dos E.E.U.U. com notícias e comentários variados”. E sugeriu: “Eu assinaria com um pseudônimo qualquer onde me sinto mais à vontade – até Tereza Quadros poderia ressuscitar”. Clarice queria apenas “pôr-se em movimento”, como explica ao amigo. “Não!”, retorquiu Fernando Sabino, depois de oferecer o caso aos editores da Manchete. A direção da revista queria “Clarice Lispector” assinado, pois o nome da autora eragarantia de prestígio. E, conhecendo o retraimento da amiga, Sabino assegurou: “Tem que ser assinado, mas não tem importância, nós todos perdemos a vergonha e estamos assinando […]. Não se incomode muito com a qualidade literária por ser assinado. Um título qualquer como Bilhete Americano, Carta da América, ou coisa parecida se encarregará de dar caráter de seção.”
À primeira vista, soa estranho isso que o Sabino afirmou para tranquilizar a amiga, sobretudo porque as crônicas da época hoje são mesmo literatura. Eu me pergunto se os cronistas daquele tempo tinham alguma noção do tipo de literatura que estavam inventando? Pergunto porque, à parte algum material tópico que possa ter envelhecido, a linguagem é de tinta fresca e, no meu entender, o suprassumo da língua brasileira que o Mário de Andrade tanto queria inventar. E quanto ao “pôr-se em movimento”, nada como um bom limite de palavras e caracteres para instigar a concisão de linguagem, pois a crônica é prima da poesia.
Acabei, por isso mesmo, escrevendo um artigo publicado na REVISUSP sobre o espinhoso problema do cronista, porque um cronista não é um narrador de conto ou de romance. Seria um quase autor? Embora a crônica termine sendo quase uma conversa de bar, ou uma conversa entre amigos, isso não quer dizer que a figura do cronista seja a mesma da carteira de identidade. Na ficção do romance ou do conto, a gente já sabe que o autor é um outro; seja ficcional, como o autor das Memórias Póstumas, seja aquele ser existencial. A condição biológica, ou mesmo existencial, para falar que nem o Sartre, não é condição necessária, mas é contingente, afinal o/a cronista não baixa o santo como no terreiro, no entanto, alguma coisa se incorpora, creiam-me. E por isso é que quem escreve crônica prefere o escurinho do cinema, o baile de máscaras do carnaval de Veneza, que além de tudo é muito chique. O cronista é um ser intermediário entre o ser da experiência, que é o ser vivo, e o eu ficcional. Não é fácil manter esse equilíbrio, porque a cada crônica, o fio ficcional pode se romper, e não há remendo que não seja visível. O conto e o romance têm rede de segurança. A crônica é um salto sem corda.
E o efeito da crônica? Falastrona ou perfeita e elegante como só o Rubem Braga podia fazer, a gente acaba acreditando que conhece intimamente o Fernando, o Rubem, a Rachel, o Otto, o Paulo, a Clarice; jura que ontem mesmo conversou e riu com o Luís Fernando Veríssimo, por mais sério que ele fosse! Taí um cronista completamente diferente do sujeito existencial. Até um poeta difícil de ler, Drummond, virou amigão do povo. Só o Manuel Bandeira conseguiu escrever crônicas tão difíceis quanto sua poesia. Ele e Clarice, porque, mesmo numa Carta da América, um autor acaba se transformando ficcionalmente num outro. A máscara é tão fina que parece invisível.
Foi do talento genial dessa geração de cronistas que veio essa ideia do Antonio Candido de que a crônica é um gênero brasileiro por excelência. Não sei. Pode ser. O que sei é que ela é uma coisa esquisita mesmo. Quem escreve a crônica? E eu, que até agora só escrevi crônica que ninguém leu, para um leitor invisível? Como é que fico?
Eu me apresento não me apresentando. O leitor que tire suas conclusões. Não prometo que não vou balançar o coreto, mas se alguém vê aí algum espírito de porco, que veja, porque é possível, imaginável e provável: de porco, de raposa, de lobo, de skunk (também conhecido como jaritataca), de raccoon ou guaxinim, que adoro os animais. Todos, menos um, que não vou dizer.
E aviso que falo em línguas, viu? Outras línguas, porque nem sempre penso em língua brasileira. Penso numa mixórdia que ninguém entende. Cada vez mais, quando quero falar, as palavras me saem em línguas diferentes, porque não me lembro de tudo numa língua só. É o meu problema. De tanto traduzir, não consigo me traduzir. Ou será enxaqueca? Ou algum sinal de demência? Relaxa! Pelo visto isso acontece. Em New Haven, onde vivi por algum tempo, é o napolitano que manda no inglês: abizza, arrugula, vafangu!
Pronto, agora já se vê que, ao levantar essa máscara fininha, é com a língua e com a literatura que gosto de brincar. Brinco de tudo: de ler, de escrever, de traduzir, de tocar piano. E moro aqui na velha Califórnia, não na nova, como no conto do Lima Barreto, que o ouro acabou; e na Iansã do Norte: Santa Bárbara.
Quando chovia e trovoava em Sampa, minha avó sempre dizia: Santa Bárbara!
Aqui quase nunca chove, e pode trovoar sem chover. Pode até relampejar sem chover. A sério, pessoal. E tem fogo e terremoto. Às vezes tudo isso junto. É lindo. Tem gente que não aguenta e vai embora. Eu vou ficando. Vou ficando pelo aroma do chaparral ao entardecer, todas aquelas ervas acostumadas com o fogo que rebrotam a cada incêndio, com a vista do mar gelado de cima dos barrancos chamados mesas, das montanhas que crescem porque a Placa do Pacífico se enfia debaixo do continente, e daí os barrancos e os terremotos! E estamos é na Placa do Pacífico, ou seja, no mar mesmo. Estamos do lado de cá da Falha de San Andreas. Lembram-se daquele filme do super-homem em que o Lex Luthor queria aniquilar a Califórnia com um míssil nuclear e criar uma faixa litorânea chamada Lex Coast? Pois é, a realidade é mais estranha que a ficção, se é que entendem minha linguagem figurada.
Entendam como quiserem, mas só falo a verdade, como Luciano, Rabelais e Swift.
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