
Carne cultivada supera proteína de inseto em aceitação pública
Estudo avalia percepção do consumidor brasileiro em relação às duas alternativas sustentáveis

Você incluiria em seu cardápio carne cultivada em laboratório? Ou comeria alimentos à base de insetos? Em uma pesquisa que avaliou as percepções e representações sociais do consumidor brasileiro em relação a essas duas opções alimentares, 75% dos entrevistados responderam que comeriam carne cultivada, enquanto apenas 31% disseram que consumiriam insetos tais como grilos. Em artigo publicado na revista holandesa Journal of Insects as Food and Feed, especializada em entomofagia (o consumo alimentício de insetos), Christiano França da Cunha, professor da Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA) da Unicamp, faz uma análise dos resultados de sua investigação e aponta possíveis caminhos para aumentar a aceitação dessas duas fontes alternativas e sustentáveis de proteína animal.
Ambas têm se consolidado cientificamente como solução de alto valor proteico e baixo impacto ambiental. “Mas a realidade é que não adianta apresentar vantagens comparativas e competitivas se o consumidor não quiser o produto. São boas alternativas, desde que sejam escolhidas”, avalia o professor. “O consumidor é a figura mais importante da cadeia de alimentos. Se ele não der o voto financeiro, nada acontece.” Portanto, há muito a se fazer para incluir essas duas opções nos hábitos alimentares do brasileiro, conclui Cunha.
Estudioso de marketing e comportamento do consumidor há 35 anos, com atuação especialmente na área de alimentos sustentáveis, o professor é também engenheiro agrônomo de formação e há mais de seis anos publica artigos a respeito de entomofagia no periódico holandês – um dos mais importantes de seu segmento – e em outras revistas acadêmicas também nas áreas de agricultura sustentável e ciência de alimentos.
Racional x emocional
Na pesquisa que gerou o artigo “Perceptions and social representations of cultured meat and entomophagy” (Percepções e representações sociais de carne cultivada e entomofagia), Cunha compara as duas alternativas propostas com o objetivo de medir a reação do consumidor ao desconhecido. “Diante do resultado, precisamos pensar em estratégias de educação, divulgação e marketing”, acredita. Uma das possibilidades para aumentar a aceitação seria disseminar o conhecimento mais aprofundado sobre o tema, reforçando argumentos científicos e benefícios ambientais. No entanto, ele também conclui que é essencial combater preconceitos culturais.
“O apelo ambiental é grande, mas ele é racional. Existem os apelos emocionais e sociais. Racionalmente, temos claras evidências de que ambientalmente é melhor a proteína de grilo, por exemplo, mas temos que quebrar a barreira emocional e social. No geral, a pessoa tem medo do desconhecido. Não é só no Brasil que isso acontece”, argumenta Cunha.
Conhecer não é aceitar
Foram entrevistadas 751 pessoas, com idades entre 16 e 65 anos, em todo o Brasil. Destas, 43% conheciam carne cultivada, enquanto 96% conheciam o grilo como alternativa alimentar. “Ou seja, conhecer não quer dizer aceitar ou comprar. Eu falo isso para meus alunos.” O pesquisador acredita que a mudança precisa acontecer do micro para o macro. “Estamos falando de uma representação social. Portanto, é possível mudar, mas isso acontece aos poucos, de acordo com o comportamento do consumidor.”
Segundo a pesquisa, os homens apresentam maior taxa de aceitação do que as mulheres em relação às duas alternativas. Para a carne cultivada, 80% dos homens estavam abertos à inovação, enquanto 70% das mulheres aceitariam. Já para a entomofagia, 39% dos homens se dispunham a provar insetos e 27% das mulheres demonstraram a mesma disposição.


Ambivalência
Por meio da técnica de associação livre de palavras, a pesquisa revelou que a carne cultivada (processada em laboratório a partir da cultura de células musculares de animais vivos) é frequentemente associada à artificialidade e identificada a partir da menção das palavras tecnologia, sustentabilidade, veganismo, ciência e futuro – resposta da maioria (41,5%). Há uma ambivalência na aceitação desse tipo de carne, que gera curiosidade e, ao mesmo tempo, provoca a percepção de que não se trata de “comida de verdade”.
Já o consumo da proteína de insetos está ligado a sentimentos como nojo, aversão e estranheza, além de preocupações com a higiene, a segurança e o risco de doenças. Sobre esta opção, 34% dos entrevistados a associaram a palavras como cultura, estranho, necessidade, diferente e fome. Para o autor da pesquisa, são barreiras emocionais mais severas que as da carne cultivada.
Representação social
O Brasil é o maior produtor de carne bovina e de frango do mundo e está entre os maiores consumidores. Isso também faz com que o consumo de carne, em geral, esteja arraigado na cultura nacional. “O Brasil é um grande player nessa questão”, aponta Cunha. “Muito mais que uma questão nutricional e econômica, a carne convencional e o churrasco são representações sociais que simbolizam, entre outras coisas, amizade e família. O consumo de carne está ligado, portanto, a tradições culturais.”
Os números da pesquisa mostram que a pessoa que já consome carne convencional está mais disposta a substituí-la pela carne cultivada: a aceitação aumenta em 10,89 pontos percentuais. “Se convencermos o brasileiro a trocar ou pelo menos a mudar seu hábito, de alguma forma, isso vai ter um impacto gigantesco no mundo, porque somos grandes produtores e consumidores”, acredita. A idade também influencia na aceitação da carne cultivada no Brasil: a cada ano de vida, a probabilidade de experimentá-la diminui 0,6 ponto percentual. Ou seja, os consumidores mais jovens resistem menos que os mais velhos.
Os estudos indicam ainda que existe uma relação cruzada entre as duas alternativas (carne cultivada e entomofagia), visto que a disposição de um consumidor em experimentar uma delas aumenta a probabilidade de também aceitar a outra.
Preconceitos arraigados
A primeira reação à entomofagia é negativa, diz a pesquisa. “Mas em várias regiões do Brasil come-se içá [uma espécie de formiga]”, lembra o professor. “Em Tremembé e em Pindamonhangaba, na minha infância, era comum comermos o bumbum da formiga na farofa. Para mim não é tão surpreendente”, diz Cunha. Ele atribui a rejeição à “falta de familiaridade cultural e à presença de preconceitos arraigados em relação aos insetos como fonte de alimento”. Um dos fatores que fazem crescer a disposição de consumir insetos é o alimento em forma de farinha, “porque quebra barreiras”.
As vantagens proteicas e ambientais da entomofagia são muito grandes, pontua o pesquisador. Ele cita como exemplo a concentração proteica. Enquanto uma barrinha de whey protein possui em média 15% de proteína, em uma barrinha à base de grilo esse teor sobe para 70%. Para se converter em um quilo de proteína, o grilo consome 1,7 quilo de alimento. Já o boi precisa ingerir seis quilos de ração para produzir um quilo de proteína.
O artigo também traz a perspectiva ambiental, comparando a eficiência em carbono. Criar um quilo de grilos, por exemplo, gera 1,2 quilo de gás carbônico (CO2). Já a produção de um quilo da carne convencional pode emitir 32,3 quilos de CO2, e a de carne cultivada, entre 1,9 a 2,2 quilos de CO2. “Temos que pensar na responsabilidade da sustentabilidade ao tomarmos decisões sobre o tipo de alimento que nós queremos”, alerta Cunha.
