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Poesia e filosofia desconstroem as falsas conciliações

Vladimir Safatle e Nicholas Brown ministram conferência sobre a força política da arte e a estética da irreconciliação em oposição à lógica do capital

Colagem de duas fotografias em preto e branco: à esquerda, grupo de pessoas em roupas de trabalho ao redor de um automóvel pequeno com inscrição visível, próximo a um ônibus com pessoas em pé sobre o teto e uma pessoa com chapéu levantando o braço esquerdo; à direita, retrato em close de uma pessoa idosa de perfil com cabelos grisalhos, olhos fechados e mão direita junto ao rosto.
Juscelino Kubitschek acena durante ato da Caravana da Integração Nacional, em São Paulo: para Vladimir Safatle, João Cabral de Melo Neto (à dir.) opera dentro de uma “estética da irreconciliação”, trazendo o “silêncio do sertão” em sua poética
Fotografia em preto e branco dividida em dois painéis: o painel esquerdo apresenta um grupo de crianças e adolescentes usando uniformes listrados em pé junto a uma cerca de arame farpado; o painel direito mostra um retrato em close de um homem adulto de perfil voltado para a esquerda em ambiente interior com iluminação lateral.
Crianças no campo de concentração de Auschwitz, na Polônia: na opinião de Safatle, a resposta de Paul Celan (à dir.) ao impasse da barbárie supera o silêncio, criando um “novo registro da lírica”, cuja força “é exatamente não parar diante da catástrofe”
Colagem de duas fotografias em preto e branco: à esquerda, seis pessoas posicionadas em um jardim com arbustos floridos ao fundo, sendo quatro sentadas em primeiro plano usando roupas de diferentes padrões e cores claras, uma em pé ao centro e uma criança pequena no colo de uma pessoa; à direita, retrato em close de uma pessoa idosa usando óculos redondos e com cabelo branco comprido, com a mão esquerda tocando o queixo em posição reflexiva.
Da esq. para a dir., Ferreira Gullar, Lygia Pape, Theon Spanudis, Lygia Clark e Reinaldo Jardim, em 1957: para Nicholas Brown, o poeta maranhense (à dir.) “passa a ver o neoconcretismo como algo trivial e inorgânico, desejando contribuir para uma arte orgânica e popular”

Quando o poeta Pablo Neruda foi candidato à presidência do Chile, em 1969, declamava seus poemas durante comícios, a pedido do público. Esse é um episódio emblemático que ilustra, para o professor e filósofo Vladimir Safatle, da Universidade de São Paulo (USP), o quanto o respeito à “força criativa da imaginação coletiva” também é uma questão política. “A arte é um elemento fundamental de organização da força política das massas”, avalia, e desconsiderar a poesia ou encará-la como elitista é uma forma de “incapacidade de entender a sua força política”.

A importância da arte, assim como da filosofia, segundo Safatle, torna-se bastante evidente na forma como grupos fascistas buscam implodir esses campos. “O fascismo sabe muito bem de onde vem a transformação política e entende muito bem que a cultura, a arte e a vida universitária não são setores isolados ou secundários dentro do processo político”, diz.

De forma semelhante, o professor Nicholas Brown, da Universidade de Illinois (EUA), frisa que a hostilidade da extrema direita à cultura, incluindo a ciência, “está causando grandes danos às universidades e às artes” durante o governo de Donald Trump. No entanto, pondera que a filosofia e as artes têm mais a temer vindo do processo capitalista, “talvez representado por um administrador universitário presumidamente liberal, com uma planilha na mão, querendo ter uma conversa racional sobre o ‘déficit estrutural’ e o ‘retorno sobre o investimento’, do que da repressão direta do Estado”. Ambos, no entanto, trabalham em conjunto, segundo Brown.

Safatle e Brown serão os palestrantes principais da conferência internacional da APL – Association for Philosophy and Literature (Associação de Filosofia e Literatura), que ocorre de 15 a 17 de julho no Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Unicamp (https://www.philosophyliterature.com/campinas-2026). Enquanto Safatle propõe uma reflexão sobre a musicalidade da poesia, trazendo análises sobre a “estética da irreconciliação” dos poetas João Cabral de Melo Neto e Paul Celan, Brown refletirá sobre a poesia como um ato que materializa a unidade entre a determinação econômica e a autonomia do sentido, partindo da trajetória e da obra de Ferreira Gullar.

Ao Jornal da Unicamp, os professores compartilham suas análises sobre a conexão entre a arte e a filosofia e alguns aspectos abordados em suas conferências.

Falsas conciliações

Para Safatle, a arte e a filosofia possuem uma conexão orgânica. “A filosofia é um discurso vazio, e traz os seus objetos do seu exterior. Então, por exemplo, não tem filosofia política sem uma reflexão sobre acontecimentos políticos, não tem estética sem crítica de arte, não tem epistemologia sem o conhecimento aprofundado de uma ciência empírica, não tem ontologia sem lógica.” Uma das interfaces mais importantes da filosofia, nesse sentido, é a arte. “As artes, a política, as ciências, as relações amorosas são os espaços fundamentais de elaboração da reflexão filosófica. Essa é uma ideia de Alain Badiou que eu acho uma bela ideia”, diz o professor.

Safatle irá ministrar uma conferência, no evento da APL, com o título “Contra a prosa: salvar a musicalidade da palavra poética”. “A poesia sempre foi a linguagem em seu ponto de máxima ruptura com a comunicação, com o espaço da circulação das informações, esse espaço prosaico. Por isso a ideia de ‘contra a prosa’, esse espaço no qual a descrição é o elemento fundamental do funcionamento da linguagem.” Diferentemente da linguagem nesse espaço funcional, a poesia possui uma musicalidade, que se desdobra de diversas formas, segundo o filósofo. “Esse é um elemento fundamental para que possamos estabelecer outra forma de relação com a linguagem, uma relação em que ela possa recuperar a sua característica expressiva, a despeito da sua característica comunicativa.”

Pessoa com cabelos brancos, óculos de armação escura, usando camiseta vermelha sobre camisa roxa, sentada em poltrona azul-turquesa, com planta verde ao fundo e janela com moldura cinza.
O professor e filósofo Vladimir Safatle, da Universidade de São Paulo: “A poesia sempre foi a linguagem em seu ponto de máxima ruptura com a comunicação”
Pessoa com cabelos brancos, óculos de armação escura, usando camiseta vermelha sobre camisa roxa, sentada em poltrona azul-turquesa, com planta verde ao fundo e janela com moldura cinza.
O professor e filósofo Vladimir Safatle, da Universidade de São Paulo: “A poesia sempre foi a linguagem em seu ponto de máxima ruptura com a comunicação”

Para aprofundar essa análise, Safatle reflete sobre a experiência poética de Paul Celan (1920-1970) e de João Cabral de Melo Neto (1920-1999). Os poetas representam o “momento máximo da poesia no século 20” e têm em comum, para o professor, o fato de evidenciarem a “natureza falsa das conciliações”.

Segundo Safatle, a poesia de João Cabral vai “no contrapelo do canto”, com quebras e silêncios, ao contrário de poemas que apresentam um ritmo e uma melodia que as tornam cantáveis. A poesia cabralina, para Safatle, traz uma questão importante para refletir sobre o significado da experiência estética no Brasil. “É um pouco como se fosse necessário recuperar essas dimensões profundas do silêncio, das quebras, das irreconciliações harmônicas, seja dessa contenção, que é um elemento muito próprio da sua poesia, para que algo do que não foi pensado no interior da realidade brasileira pudesse encontrar forma.”

Exemplificando com o poema A palo seco, publicado em 1960, o professor avalia que a obra de João Cabral opera dentro de uma “estética da irreconciliação” em um momento em que o Estado pautava uma integração nacional, representada pela construção de Brasília. “João Cabral traz o silêncio do sertão, o caráter seco daquilo que não se integra, digamos, a esse espaço de planejamento e geometria que vai sendo organizado pelo Estado nacional. Há uma outra forma de existir na língua que deve ser recuperada contra essa visão que vai se tornando hegemônica: a visão da conciliação nacional.”

O cante a palo seco
é o cante mais só:
é cantar num deserto
devassado de sol;
é o mesmo que cantar
num deserto sem sombra
em que a voz só dispõe
do que ela mesma ponha.
(trecho de A palo seco, João Cabral de Melo Neto)

Para Safatle, a ideia de integração aparece também no país com o “lulismo cultural”, forma como designa tentativas de conciliação patrocinadas pelo Estado durante os governos petistas, e com a estética do “agronejo” pautada pelo bolsonarismo. O lulismo cultural, explica, parte de uma “ideia de conciliação no interior da sociedade brasileira e que faz com que nasçam slogans do tipo ‘a favela venceu’. Ou seja, seria possível recuperar a dignidade e orgulho dessas pessoas economicamente massacradas através da mobilização da sua integração cultural.”

A respeito do bolsonarismo, prossegue, há uma posição política com uma estética própria. “Vende-se uma visão de um país agroexportador naturalmente conciliado consigo mesmo. Mas o interessante é que essa estética faz disso um elemento de orgulho nacional. É como se falasse: ‘Os setores esquecidos da sociedade brasileira, que são as elites do interior, agora ganham espaço’. É esse Brasil profundo que foi esquecido. Só que não é o Brasil profundo do brejo do Guimarães Rosa. É o Brasil profundo da grande plantação de soja.”

Poesia da recusa

A estética da irreconciliação, por outro lado, evidencia os falsos acordos. Ela está presente no poeta franco-romeno de expressão alemã Paul Celan, sobrevivente do Holocausto. O filósofo lembra que Celan não só reflete sobre os horrores do nazismo, mas também sobre o chamado “milagre alemão”. “Ele pensa também nesse momento onde, depois da violência, é necessário esquecê-la e estabelecer novas formas de parceria, novas formas de conciliação”, diz Safatle. Inclui-se aí o desenvolvimento de uma economia social de mercado e a orientação para o crescimento, conciliação que a poesia de Celan nega. “É uma poesia da recusa. E não é uma recusa do ressentimento de quem quer sempre se lembrar do dolo, mas é uma recusa de quem conhece a natureza das falsas conciliações.”

Para dar conta disso, questiona Safatle, “de que tipo de frieza a linguagem precisaria?” Ele lembra da frase do filósofo e sociólogo alemão Theodor Adorno: “Escrever poesia depois de Auschwitz é barbarismo”. No entanto, a resposta de Celan a esse impasse supera o silêncio, criando um “novo registro da lírica”.

“Há uma questão, eu diria, que é histórico-social. Como é possível utilizar uma língua que foi a língua de um genocídio? Como é possível pensar uma língua que foi marcada por uma experiência de profunda violência? E é muito impressionante como é exatamente nesse momento que a língua demonstra a sua força criadora máxima, uma língua que traz a consciência das suas cicatrizes, dos seus silêncios e da impossibilidade das conciliações.”

As obras de arte, de acordo com Safatle, podem guardar “cicatrizes de promessas”, e a poesia de Celan revela justamente essa faceta. Essas cicatrizes são o prenúncio de uma nova forma de funcionamento da linguagem. “A força do poema é exatamente não parar diante da catástrofe. Ele também extrai da catástrofe uma promessa e guarda a força de uma promessa”, indicando uma possibilidade de emancipação que a realidade ainda não alcançou.

Assim, a poesia manifesta uma experiência que se recusa a ser apenas o testemunho da dor, pois, se assim o fosse, não seria um poema, segundo o professor. “O poema é o reconhecimento do trauma e a capacidade de elaboração de uma experiência na qual a violência se torna uma astúcia daqueles que querem continuar a viver e preservar também a integridade da sua possibilidade de experiência”, afirma.

Fala –
Mas não separa o não do sim.
Dá a seu dizer também o sentido:
dá-lhe a sombra.
Dá-lhe sombra suficiente,
dá-lhe tanta,
quanta sabes repartida em torno de ti entre
Meio-dia e meia-noite e meio-dia.
Olha em volta:
vê, como isso ganha vida ao redor
Na morte! Vivo!
Quem fala sombras fala a verdade.
(Fala também você, de Paul Celan; tradução de Vladimir Safatle)

Pessoa com cabelo castanho curto, vestindo camiseta preta de manga curta, posicionada de frente para a câmera encostada em uma parede de concreto cinzento com textura áspera e marcas de desgaste, com fundo desfocado em tons de verde.
Nicholas Brown: para o professor da Universidade de Illinois, a apreciação de obras de arte abre margem para um conjunto de significados que transcendem a lógica mercantil
Pessoa com cabelo castanho curto, vestindo camiseta preta de manga curta, posicionada de frente para a câmera encostada em uma parede de concreto cinzento com textura áspera e marcas de desgaste, com fundo desfocado em tons de verde.
Nicholas Brown: para o professor da Universidade de Illinois, a apreciação de obras de arte abre margem para um conjunto de significados que transcendem a lógica mercantil

A busca por unanimidade

A investigação sobre a natureza da experiência, para Nicholas Brown, é uma das possibilidades diante da obra de Ferreira Gullar (1930-2016). “Algo impressionante em seus poemas é que eles raramente se afastam de uma questão central: o que é a experiência? O que significa ser não apenas um corpo sensível, não apenas um corpo que fala, não apenas um corpo que sente, mas um sujeito. Talvez toda poesia lírica formule essas perguntas de alguma maneira, mas, para Gullar, elas constituem um problema insistente.”

O professor, cuja conferência no evento da APL tem como título “Base e superestrutura na poesia”, lembra que, para a filosofia, essas também são questões importantes. A conexão entre ambos os campos, ainda, revela-se na forma como ambas buscam compreender a realidade. “Só existe uma realidade, e todos nós estamos tentando decifrá-la. A poesia é uma forma de nos comprometermos com o que encontramos – de assiná-la, por assim dizer – e de submetê-la ao julgamento dos outros. A filosofia é outra dessas formas.”

Os impasses da situação política do Brasil, na trajetória de Gullar, mesclam-se com os impasses estéticos, lembra Brown. Ele analisa que, até 1959, o poeta estava preocupado em produzir uma arte onde não houvesse antagonismo entre o artista e o espectador.

“Em sua tendência mais profunda, em seu desejo de unanimidade entre aquele que fala pelo todo (o artista) e aqueles que falam por seus interesses particulares (o público), a arte de Gullar desse período é, quer ele percebesse isso ou não, uma expressão formal do populismo de esquerda.”

A busca por unanimidade, no entanto, sofre um impasse, com o escritor representado pela tentativa da instalação de Poema enterrado (1959). O projeto era composto por um cubo subterrâneo de três metros, dentro do qual havia outros cubos menores. O público deveria descer ao espaço e manejar a instalação para descobrir uma palavra (“rejuvenesça”). Fortes chuvas, no entanto, inundaram a instalação. Essa foi a sua última obra dentro do neoconcretismo, movimento do qual havia sido um dos fundadores, no fim dos anos 1950, e que exigia uma participação do espectador.

“À luz de sua própria radicalização e da volatilidade do contexto, ele passa a ver o neoconcretismo como algo trivial e inorgânico, desejando contribuir para uma arte orgânica e popular. Ele afirma isso de maneira muito explícita alguns anos depois”, aponta Brown.

Em 1960, Ferreira Gullar ingressa no Centro Popular de Cultura (CPC), e sua produção artística adota uma perspectiva de engajamento, acompanhando sua atuação no Partido Comunista e de combate à ditadura que se instalou no país em 1964. Nesse período, ele começa a escrever poemas engajados. “A busca por unanimidade permanece, mas dessa vez tematicamente, com a produção de um povo unânime, que abrange a burguesia e os trabalhadores, a classe trabalhadora organizada e as massas. De forma bastante peculiar, acaba produzindo Chico, o vaqueiro, como uma espécie de catalisador mágico e santificado – muito semelhante ao cubo no fundo de Poema enterrado, que supostamente produz, livremente, a resposta ‘correta’ à linguagem por parte do observador.”

E antes que Boa-Morte,
levado pela aflição,
em seis peitos diferentes
varasse seu coração,
Chico Vaqueiro chegou:
“Compadre, não faça isso,
não mate quem é inocente.
O inimigo da gente
– lhe disse Chico Vaqueiro
não são os nossos parentes,
o inimigo da gente
é o coronel fazendeiro.
(trecho de João Boa-Morte, cabra marcado para morrer, de Ferreira Gullar)

A transição de Gullar para uma arte engajada, frisa Brown, é bastante particular e “não produz facilmente lições gerais”. Quanto à possibilidade de uma arte voltada à ação política ou desvinculada de seu valor de mercado nos dias de hoje, o professor se diz cético. “No contexto dos Estados Unidos, a arte engajada tornou-se uma forma de vender sua política para você mesmo — ou, de maneira mais cínica, de vender a você uma imagem de si mesmo como alguém que possui a política correta. Como a arte política possui um propósito externo, ela tem valor de uso. Ironicamente, em um contexto hipermercadorizado, uma obra artisticamente bem-sucedida ultrapassa intrinsecamente seu estatuto de mercadoria de uma forma que a arte engajada não consegue.”

Mas, para Nicholas Brown, ainda que sejam geralmente reduzidas ao valor de uso, as obras de arte são “corpos estranhos dentro de sociedades capitalistas”. Isso porque sua apreciação abre margem para um conjunto de significados que transcendem a lógica mercantil. “A obra pode ser boa ou ruim, bem-sucedida ou fracassada, e não apenas algo de que eu gostei ou você gostou. E julgamento, nesse sentido, envolve renunciar a muito de nós mesmos. Ele abre um ponto de vista desinteressado e universal que o capitalismo não sabe utilizar.”

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