Degradação amazônica impacta mais cadeia alimentar dos pobres
Grau de vulnerabilidade influencia percepção dos benefícios da floresta



Pesquisadores do programa AmazonFACE realizaram um estudo socioambiental com moradores – dentre os quais, ribeirinhos e indígenas – dos municípios amazonenses de Manaus, Tabatinga e Carauari para investigar como a insegurança alimentar molda a percepção humana sobre serviços ecossistêmicos, isto é, os benefícios gratuitos que o ser humano obtém da natureza, tais quais água potável, alimentos, lazer e regulação climática. Encontraram um cenário de dependência crítica: enquanto famílias em segurança alimentar valorizam a floresta por serviços ecossistêmicos de cunho cultural e de lazer, aquelas que estão em situação de vulnerabilidade extrema veem o meio ambiente como uma “rede de segurança” vital. A dependência direta de serviços de provisão como coleta de alimentos silvestres e pesca de subsistência é significativamente maior entre grupos que enfrentam fome – uma evidência de que a degradação dos ecossistemas impacta em primeiro lugar, e de forma mais severa, a base da pirâmide socioeconômica do país.
Os resultados da pesquisa, que envolveu a realização de 216 entrevistas semiestruturadas, foram publicados em janeiro no periódico científico Ecosystem Services, em artigo intitulado “Ecosystem services and food security: Local perception aligning with demands in the state of Amazonas, Brazil” (Serviços ecossistêmicos e segurança alimentar: percepção local alinhada às demandas no estado do Amazonas, Brasil). Cada local pesquisado apresentou um nível diferente de vulnerabilidade alimentar, sendo que a situação mais grave foi observada em Tabatinga (muito alta). Na capital amazonense, a situação foi classificada como média, e em Carauari, como média-alta.
A comparação dos resultados permitiu aos pesquisadores observar como as necessidades básicas influenciam a relação das pessoas com o ambiente. Populações mais expostas à fome tendem a ter uma percepção mais limitada dos benefícios do bioma, restringindo-se àqueles diretamente conectados à segurança alimentar (como a disponibilidade de peixe ou de um fruto da floresta). “O estudo mostrou quais são os benefícios de que as pessoas mais precisam. Esse tipo de pesquisa ajuda a tornar políticas públicas mais eficazes, mais justas”, afirma a ecóloga Ana Luísa de Carvalho Cruz, que assina o artigo com outros sete autores.


Iniciativa pioneira
Estabelecido em 2015 pelo governo federal brasileiro em parceria com o Reino Unido, o AmazonFACE é um programa científico liderado pela Unicamp, pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e pelo MetOffice (instituto público britânico de meteorologia). Traz, entre seus coordenadores, o ecólogo David Lapola, também coordenador do Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura (Cepagri) da Universidade. Marko Synesio Monteiro, professor do Instituto de Geociências (IG), e Maíra Padgurschi, pesquisadora do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), compõem seu comitê científico.
O objetivo principal da iniciativa é investigar como o aumento do gás carbônico (CO2) – principal vetor das mudanças climáticas – na atmosfera da Amazônia afeta a floresta, sua biodiversidade e até mesmo o clima global. FACE (“enriquecimento de carbono ao ar livre”, na sigla em inglês) é o nome da tecnologia que torna possível simular esse cenário. Trata-se de um sistema de torres de alumínio de 35 metros de altura, instaladas em uma configuração circular e ligadas a um tanque de gás carbônico puro. Por um complexo sistema de sensores e válvulas, essas torres liberam ar enriquecido com CO2 no perímetro do círculo, de maneira controlada.
O experimento está localizado no meio da floresta amazônica, a cerca de 85 km de Manaus, e é realizado enquanto o planeta sofre as consequências das mudanças climáticas, pontua Lapola, que também assina o artigo. Essa combinação causa diversos impactos. “Queremos saber como a floresta, afetada por CO2 elevado, atinge as pessoas que dependem dela, direta ou indiretamente. Como essa relação muda”, diz.
O setor de pesquisa socioambiental do AmazonFACE foi estabelecido em 2019, expandindo a investigação do programa brasileiro sobre os impactos do aumento de CO2 e da degradação do bioma sobre as populações locais. Trata-se de uma inovação em relação a outros projetos realizados pelo mundo com a mesma tecnologia. Alguns deles, inclusive, revelam um padrão preocupante: o distanciamento entre a alta tecnologia de monitoramento ambiental e o engajamento socioeducativo.
Os experimentos Oak Ridge e Aspen (ambos nos Estados Unidos), por exemplo, acumularam décadas de dados cruciais sobre o comportamento das florestas temperadas, porém suas ações de extensão foram descritas como quase inexistentes. Apenas em projetos mais recentes se observa uma tentativa estruturada de integrar a sociedade – por meio de workshops e medidas que focam em educação pública –, sinalizando uma evolução na forma como a ciência climática é comunicada.
Pesquisador principal do programa sediado na floresta de Duke, na Carolina do Norte (EUA), Ram Oren conta que não há no local registro de atividades de envolvimento social ou formal da comunidade, nem visitas públicas de escolas no local, situado no interior de uma floresta de coníferas.


Em busca dos saberes tradicionais
Colíder da área socioambiental e integrante do comitê-científico do AmazonFACE, Monteiro reconhece que incorporar saberes locais ao programa é um desafio, porque não são vistos como conhecimento sistematizado. “Ninguém sabe ainda como integrá-los”, diz. Em fevereiro, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), organização científico-política criada no âmbito das Nações Unidas, realizou uma oficina no Reino Unido para discutir a incorporação de conhecimentos indígenas, locais e de profissionais em relatórios técnicos e científicos sobre o comportamento do clima. A iniciativa, segundo o professor, mostrou que a comunidade científica internacional está atenta à relevância da aliança entre as diferentes formas de conhecimento para a governança climática.
Sediado em uma floresta com espécies nativas do Reino Unido, o BIFoR (Instituto de Pesquisas Florestais de Birmingham) mantém como atividade social do seu projeto FACE uma série de programas educacionais, para envolver alunos dos ensinos fundamental e médio, conforme explicou Samantha Dobbie, pesquisadora-líder da área de aprendizagem e engajamento da iniciativa. Suas atividades, apresentadas no ano passado em Belém, durante a conferência climática global COP30, são realizadas em colaboração com escolas e universidades em todo o Reino Unido e no exterior. O objetivo é “amplificar a voz dos jovens em torno do impacto das mudanças climáticas nas paisagens florestais, globalmente”, explica Dobbie, professora da Universidade de Birmingham.
Reportagem produzida por estudantes do curso de especialização em Jornalismo Científico do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) da Unicamp, sob a supervisão do jornalista Guilherme Gorgulho
