Quando a questão de gênero entra em campo
Tese analisa trajetória de jogadoras de futebol e mostra disposição das atletas para ações em favor da igualdade

Jogadoras profissionais de futebol ingressam tardiamente em ambientes formais de treino e têm menos acesso a espaços oficiais de competições, o que gera efeitos negativos sobre seu desenvolvimento esportivo. Estes são alguns dos dados levantados pela profissional de educação física Chellsea Alcântara em seu doutorado, realizado na Faculdade de Educação Física (FEF) da Unicamp. Para a tese, foram entrevistadas 80 atletas de quatro clubes. Além de examinar trajetórias, a pesquisadora se deteve na análise do empoderamento e das experiências das jogadoras, identificando que, embora a maior parte delas demonstre atitudes críticas às condições trabalhistas frágeis e às desigualdades de gênero, o sentimento de gratidão por estar naquele espaço provoca uma normalização da precariedade.
Durante o estudo, Alcântara foi até os clubes, localizados no Nordeste e no Sudeste, para entrevistar as atletas. Os dados obtidos mostram que, em relação à trajetória, as jogadoras traçam um percurso formativo que geralmente começa cedo, a partir dos seis anos, de maneira informal. O acesso a um ambiente com treinadores e a competições só aparece em média a partir dos 12 anos. “Se comparado com o masculino, é um acesso tardio, o que a gente considera até positivo dentro do processo de desenvolvimento esportivo, para não especializar as jogadoras de forma precoce. Mas aí um alerta se acende: talvez isso ocorra porque esses ambientes formais, tanto de treino quanto de competição, não estão sendo oferecidos”, observa.
Segundo Larissa Galatti, professora da Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA) e orientadora da tese, um dos problemas é que a maior parte das meninas não tem acesso nem mesmo ao futebol informal. “Vimos que, para quem chegou a ser atleta, esse ambiente foi muito importante, mas, na nossa sociedade mais ampla, a maioria das meninas não é estimulada ao contato informal com o futebol”, pondera.
A docente recomenda cautela com comparações entre meninas e meninos, que são estimulados à profissionalização desde cedo. “Precisamos que as meninas tenham acesso a experiências diversificadas e divertidas de esporte. A partir daí, orientar para o futebol. Isso não deve ser feito de forma exclusiva antes dos 10 ou 11 anos”, destaca. O ideal é pensar em categorias de base e em competições alinhadas com as etapas do desenvolvimento, orienta, “que não especializem as meninas ou gerem uma mercadorização da infância, o que é um grande equívoco”.

Entre gratidão e crítica
Para a análise de empoderamento, Alcântara utilizou a abordagem Emerge, segundo a qual o empoderamento envolve consciência crítica (conhecimento sobre como desigualdades afetam e moldam circunstâncias), agência (ação sobre essa realidade) e objetivos autodeterminados (aspirações próprias). Nessa fase do estudo, participaram 67 atletas, sendo 52 da categoria sub-20 e 15 da categoria adulta. Cerca de 75% delas relataram não receber remuneração suficiente para cobrir suas despesas, e 39% disseram ganhar entre um e dois salários mínimos.
No campo da consciência crítica, 97% das mulheres concordaram que deveriam ter, em comparação com os homens, os mesmos salários médios, acesso aos mesmos gramados, cuidados médicos equivalentes e calendários competitivos adequados. A mesma porcentagem discorda de que homens sejam líderes melhores. Em relação à agência, 89,6% delas afirmaram que protestariam caso uma mulher no clube fosse discriminada ou assediada, e 88% disseram que participariam de reuniões com o intuito de organizar melhores condições de trabalho.
O ponto de discordância foi em relação à eficácia das ações políticas. Quando perguntadas se concordam com a afirmação de que as mulheres precisam focar no seu trabalho para superar a discriminação, em vez de dedicar seu tempo com atividades políticas, por exemplo, 50,75% discordaram em alguma medida, enquanto 49,25% concordaram. Quando perguntadas se consideram ser feministas, 55,2% disseram que sim. Entretanto, 77,6% concordaram que o movimento feminista contribui para a luta em prol do futebol das mulheres – o que inclui, portanto, muitas que não se definem como feministas. “Elas preferem não se identificar como tal, mas, no dia a dia e em suas ações, lutam e estão correndo atrás desse processo de igualdade, principalmente quando comparam a realidade que vivem com a profissionalização do futebol masculino”, sintetiza Alcântara.
A diferença geracional foi marcante em relação às atitudes e aos posicionamentos. Enquanto as atletas mais velhas são mais cautelosas, as mais novas parecem mais engajadas. “Talvez as mais jovens se sintam um pouco mais fortalecidas, ou tenham menos consciência das possíveis sanções que possam sofrer nos clubes. E as mais velhas já passaram por muita coisa e são mais cuidadosas nos posicionamentos”, analisa Galatti.
A relação entre gratidão e crítica é outro ponto destacado pelas pesquisadoras. Jogar por amor e agradecer por estar em um clube são sentimentos que acabam ofuscando as desigualdades. Algumas jogadoras do sub-20, destaca a autora da tese, ainda relatam ouvir das mais velhas frases como: “Vocês têm muita coisa hoje, não têm do que reclamar”. “Isso vai internalizando e vai trazendo um sentimento de gratidão maior do que o de precisar de melhores condições de trabalho. Então existe uma ambiguidade.”
De olho na Copa

A tese de Alcântara é publicada em meio aos preparativos para a edição de 2027 da Copa do Mundo Feminina da Fifa, que ocorrerá no Brasil. Segundo as pesquisadoras, o evento será importante para chamar a atenção para as condições de trabalho ainda insatisfatórias das atletas brasileiras. Além disso, oferecerá oportunidades para meninas e mulheres se verem representadas, fomentando a ampliação de espaços onde possam praticar a modalidade. “A cultura e a representatividade são muito importantes para as gerações que virão”, diz.
A professora Larissa Galatti lembra que, até os anos 1980, a legislação brasileira proibia as competições femininas de futebol. “Isso ainda está no nosso imaginário popular como sociedade. Muitas mulheres e homens nasceram e viveram sua infância e juventude com essa proibição. Agora temos a chance de mostrar que o futebol é um espaço, sim, ao qual as mulheres pertencem e onde se desenvolvem e inclusive performam em altíssimo nível. E, associando isso com o estudo da Chellsea, a gente aprendeu que as jogadoras brasileiras de futebol reconhecem e mostram que o avanço da modalidade não depende só de resultado. Depende também de igualdade, de reconhecimento, de condições reais para um desenvolvimento digno no esporte, e elas estão prontas para falar sobre isso.”


