
Médico da Unicamp criou o primeiro livro didático de Anatomia Patológica do país
Obra buscava suprir a ausência de fontes de estudo para estudantes da Faculdade de Medicina e tornou-se referência por mais de 30 anos
Era início da década de 1960 quando o professor de Anatomia Patológica e médico José Lopes de Faria percebeu a dificuldade de seus alunos — a primeira turma da então Faculdade de Medicina — em prestar atenção ao que ele falava e, ao mesmo tempo, anotar cada detalhe do que ensinava.
Como não havia livros da área de Anatomia Patológica disponíveis no Brasil, os estudantes não tinham fontes de estudo e eram obrigados a criar suas próprias apostilas dessa especialidade médica, que diagnostica doenças por meio do estudo de células, tecidos e órgãos.


Foi isso que motivou o professor a se debruçar sobre o problema e escrever o livro Anatomia Patológica, considerada a primeira obra científica publicada pela editora da Unicamp, em 1971, e a primeira da área no Brasil.
O jornal Diário do Povo, de Campinas, publicou uma reportagem na época intitulada “Unicamp lança primeira obra científica”, em que dizia: “Contribuindo com a campanha em favor do livro didático no Brasil, o volume que será lançado terá baixo custo para os estudantes [e] foi escrito em linguagem simples, de fácil compreensão, ao mesmo tempo que possui conhecimentos profundos sobre anatomia patológica”.

“Na época, existiam apenas livros editados em alemão e em inglês, o que dificultava o acesso e utilização. Então, o professor Faria criou o livro do zero, usando o material das rotinas de atendimento e das autópsias”, conta Athanase Billis, professor colaborador da Unicamp e ex-aluno de Faria na segunda turma de Medicina.
Segundo Billis, que também seguiu carreira nessa especialidade, o livro foi inteiramente produzido por Faria entre 1965 e 1971. A obra, com 211 páginas, traz imagens e materiais colecionados e fotografados a partir dos atendimentos que o professor realizava na Santa Casa de Misericórdia, em Campinas.
A Unicamp foi fundada pelo professor Zeferino Vaz somente em 1966, mas antes disso a Faculdade de Medicina — hoje Faculdade de Ciências Médicas (FCM) — já funcionava na Santa Casa. Incorporado à nova universidade, o curso de medicina só migrou para o campus de Barão Geraldo após a construção do Hospital de Clínicas (HC), em 1985.
Na década de 1960, o Departamento de Anatomia Patológica da Unicamp, fundado pelo professor Lopes de Faria, contava com um fotógrafo responsável por documentar as lâminas e materiais coletados, um trabalho que contribuiu para a qualidade da obra escrita por ele.
“Na anatomia patológica, as imagens são muito importantes. Quando ele [Faria] não estava, por exemplo, dando aula ou corrigindo as lâminas ou as autópsias, estava se dedicando, exatamente, a escrever o livro e a documentar os materiais coletados”, relembra Billis.



Imagens feitas em laboratório fundamentaram a obra

A introdução do livro didático revela o contexto em que foi produzido. Após a página em que o professor declara seus agradecimentos à esposa, Júlia, e aos cinco filhos, seguem-se três parágrafos que dizem, segundo a grafia da época: “Estimulou-nos a escrever êste [sic] compêndio a dificuldade que encontram nossos alunos de estudar em livros a matéria por nós ensinada, o que nos leva ao uso de apostilas. Tem êle [sic], assim, caráter didático”.
A obra aborda a Anatomia patológica geral, apresentando os diferentes tipos de lesões e a natureza degenerativa delas ( inflamatória, circulatória, necrótica ou neoplásica, entre outras), independentemente de onde ocorrem no corpo humano.
Também apresenta a parte teórica e, dentro de cada um dos capítulos, descreve as degenerações e como elas são classificadas, como cada doença se desenvolve (patogênese) e como é feito seu diagnóstico, com ilustrações baseadas em lâminas de casos, biópsias ou autópsias.
“Era algo inédito. O livro passou a ser de grande utilidade para os nossos alunos, mas também passou a ser utilizado por professores de outras universidades”, conta Billis.
Seis anos depois, em 1977, a obra de Faria ganhou uma segunda edição, revista e ampliada, chamada “Anatomia Patológica Geral”, pela editora Guanabara Koogan.
No prefácio, Faria declara estar “alegre” por saber que a primeira edição, esgotada, havia sido acessada por colegas de vários estados do Brasil. O professor também reforçava que o livro se destinava aos estudantes do curso de graduação e àqueles que tivessem interesse em aprender sobre anatomia patológica.
“É necessário que o aprendizado seja feito com lógica, a fim de se esquecer o menos possível o que se aprendeu, bem como para modificar pontos de vista e ser, no futuro, o próprio professor”, escreveu o docente no prefácio.
Mais tarde, em 1988, pela mesma editora, foi publicada a terceira edição, “Patologia geral: fundamentos das doenças, com aplicações clínicas”, dedicada, desta vez, não só aos graduandos, mas também a residentes e patologistas em formação. A obra teve colaboração de ex-alunos que haviam se tornado professores da Unicamp.
Segundo Billis, a obra de Faria foi usada no ensino de Anatomia Patológica por cerca de 30 anos, até o começo dos anos 2000. Atualmente, o livro referência na área é o manual “Bogliolo – Patologia”, criado em 1972 por Luigi Bogliolo, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), falecido em 1981. Diferente da obra de Lopes de Faria, o livro do docente da UFMG continua sendo editado por especialistas da área e, em 2022, chegou à 10ª edição. O livro de Faria ainda está disponível para retirada na Biblioteca da FCM.

Professor tinha apelido de ‘homenageado crônico’
José Lopes de Faria era conhecido na Unicamp como um “homenageado crônico”, devido aos inúmeros convites de homenagens em formaturas que recebia dos estudantes da Unicamp. Isso era um reflexo do respeito e da admiração que os alunos e colegas tinham por ele e pelo trabalho dedicado que realizava na Universidade.
Faria nasceu em 1917, no interior de Minas Gerais, sendo o primeiro de oito irmãos. Formou-se em Medicina pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) em 1941. Sua carreira docente começou no Departamento de Anatomia Patológica da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).
Em 1954, obteve uma oportunidade no Instituto de Patologia da Universidade de Freiburg, na Alemanha, sob a direção de Franz Büchner, onde se destacou e ganhou muitas características “germânicas” que passou a carregar para o resto da vida, em especial na atividade acadêmica. Era conhecido pelos colegas da Unicamp por ser exigente e muito sério.

Em 1963, ingressou na Unicamp, onde desempenhou um papel central na fundação e na direção do Departamento de Anatomia Patológica. Tornou-se professor titular em 1965 e dirigiu a Faculdade de Ciências Médicas entre 1967 e 1969 e entre 1972 e 1976.
Antonio Frederico Novais de Magalhães, médico gastrologista, professor aposentado e ex-diretor da FCM, relembra a dedicação de Lopes para estruturar e fortalecer o Departamento de Anatomia Patológica.
“Desde o início, ele conseguiu um espaço físico, que era um predinho, e espaços para fazer as análises de lâminas. E, para ensinar os alunos, ele conseguiu microscópios para que todos estudassem no seu próprio equipamento. Os alunos dele, depois, tornavam-se profissionais muito competentes”, afirma.
“Apesar de ser uma pessoa mais reservada, de não fazer muitas brincadeiras, ele era extremamente respeitado e muito admirado pelos alunos”, acrescenta Magalhães.
O médico pediatra José Martins Filho, ex-reitor e ex-diretor da FCM, conta que ingressou na Universidade quando Faria já tinha carreira consolidada e lembra-se do respeito que os colegas tinham por ele.
“Como somos de áreas diferentes, não convivemos diretamente. Mas me recordo de que, nas reuniões de congregação, a palavra dele era muito forte e ele tinha uma liderança importante. Eu estava apenas começando e o admirava bastante”, relata.

Dedicação à pesquisa e à divulgação da ciência
A dedicação de Faria ao ensino e à pesquisa era reconhecida na Unicamp, tanto pelas mais de 80 publicações científicas ao longo da vida quanto por sua disposição em dedicar o máximo de tempo possível às atividades acadêmicas.
O laboratório do professor, conforme rememora Billis, era o único, entre todos os outros da Santa Casa, que funcionava aos sábados, um dia reservado exclusivamente à pesquisa. Tudo que aprendeu sobre anatomia patológica, diz o ex-aluno, foi com Faria.
“Ele estava sempre do nosso lado, ajudando na redação do trabalho, na correção das lâminas. E isso era sempre feito aos sábados”, conta Billis.
Naquela época, início dos anos 1960, quando a Unicamp ainda se consolidava, a pesquisa científica não era institucionalizada como hoje, e muito do que era realizado dependia do esforço e do envolvimento dos docentes com os seus alunos.
Em 1971, a direção da FCM criou uma Comissão de Pesquisa, que teve o professor Faria entre os membros eleitos. O objetivo era cumprir o que previa o estatuto da própria Universidade: a promoção do conhecimento por meio da pesquisa científica.
A criação dessa comissão consta na primeira e única publicação da Revista da Universidade Estadual de Campinas, editada em 1971 pelo Diretório Acadêmico Adolfo Lutz, com artigos assinados por diversos docentes.
No artigo, consta que a Comissão havia distribuído um questionário a todos os professores da FCM a fim de coletar informações sobre o que cada departamento estava produzindo.
O historiador Ivan Luiz Martins Franco do Amaral, que trabalhou no Centro de Memória da FCM, conta que, quando o professor Lopes morreu, em 2009, houve autorização para o arquivamento do material da sala dele, que estava sem uso desde a sua aposentadoria, em 1987.
Durante o trabalho de listagem e documentação dos materiais, foram encontradas peças anatômicas dentro de recipientes de vidro e álcool — como um pé de um paciente com doença de Chagas, um feto e até um cérebro — acompanhados de anotações a mão.[2]
“Ele tinha os prontuários, as peças anatômicas e as lâminas para que os alunos estudassem. Era como se tivesse construído uma biblioteca de peças anatômicas. Isso era um material didático que apresentava principalmente casos raros”, afirma Amaral.
A médica e professora de Anatomia Patológica da Unicamp Liliana De Angelo Andrade foi aluna do professor José Lopes de Faria, que criou a primeira obra científica da Universidade, em 1971.
Ela relembra as memórias com o professor e como ele a influenciou a seguir a carreira de pesquisadora e docente na mesma área.
Com relação próxima com seus alunos, Faria convencia os melhores estudantes a seguirem a carreira acadêmica na Unicamp, estimulando sempre o desenvolvimento e o crescimento profissional na Universidade, como ocorreu com Billis. “Ele gostava de contratar quem conhecia, aqueles que se destacavam. Era um incentivador, no sentido de que cada um podia seguir a carreira”, relembra.
Em uma entrevista com Faria publicada por ocasião dos 40 anos da FCM, em 2003, ele declarou que sempre procurou dar o máximo de si. “Fui, por isso, talvez, um homenageado crônico pelos alunos, tanto que os professores passavam por trotes, mas eu sempre fui poupado. Se há algum conselho que eu deva dar para quem deseja ter uma carreira bem-sucedida na FCM, digo: ‘Trabalhe, para chegar a um bom resultado’.”
Faria aposentou-se por limite de idade em 1987. No ano seguinte, recebeu o título de professor emérito da Unicamp, uma honraria entregue pelo então reitor Paulo Renato Souza. Apesar da aposentadoria, permaneceu ativo até o seu falecimento, em 2009, revisando as edições de suas obras e contribuindo para a ciência.
Conforme histórico disponibilizado pela FCM, além das três edições de “Anatomia Patológica”, ao longo da carreira Faria editou também a obra “Nevos, tumores da pele, dermatoses cancerizáveis” (1981), em colaboração com o professor Aureliano da Fonseca.
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