Quatro professores do curso de música do Instituto de Artes (IA) embarcam para a Itália levando na bagagem um projeto inédito que mistura performance, escuta e reflexão crítica em torno da música popular brasileira, tratada como campo de criação, história e pensamento. A iniciativa reúne a cantora Regina Machado, a pianista Thaís Nicodemo, o baterista Leandro Barsalini e o contrabaixista José Alexandre Carvalho em uma programação que inclui aulas, concerto e palestras em Frosinone e Roma, nos dias 25 e 29 de maio.
O ponto de partida foi um convite simples, quase pontual, feito para Machado pela cantora e professora italiana Susanna Stivali: ministrar aulas de canto no Conservatorio di Musica Licinio Refice di Frosinone, a cerca de uma hora de Roma. Mas a ideia se expandiu. “Eu recebi o convite e pensei: vou, claro, mas podemos fazer algo maior. A proposta acabou se tornando uma semana inteira dedicada à música popular brasileira, fora dos formatos já estabelecidos de congressos e eventos acadêmicos”, conta.
No conservatório de Frosinone, onde o ensino musical se organiza com estatuto de universidade e forte ênfase na performance, o encontro se dará sobretudo no território do som. Pela manhã, cada professor trabalhará com os alunos em seu instrumento; à tarde, as vozes e os instrumentos se reúnem em torno de um repertório construído em conjunto, na experiência compartilhada do fazer musical. No dia 27, esse percurso se abre ao público em forma de concerto, incorporando também os alunos italianos.
A escolha do repertório reflete uma preocupação central do projeto: apresentar a diversidade da música popular brasileira para além dos recortes mais difundidos internacionalmente. Obras de Tom Jobim, Gilberto Gil, Chico Buarque e Cartola estão previstas, mas não como fim em si mesmas. “Lá fora, a principal referência ainda é a bossa nova, porque ela teve uma internacionalização muito forte”, observa Machado. “Mas a gente quer ampliar esse horizonte, mostrar outros gêneros, como o samba e o baião. A ideia é fazer uma espécie de amostragem dessa música que se consolidou ao longo do século 20 e que hoje é matéria de estudo.”


Essa ideia de “matéria” como algo que se investiga, se transmite e se transforma atravessa todo o projeto. Em Roma, onde os professores participam de atividades na La Sapienza Università di Roma, a música se desloca para a palavra. Ali, o grupo chega como convidado do professor e pesquisador Luca Bacchini, ligado a um departamento dedicado aos estudos interculturais e brasileiros. “O professor que nos convidou é um brasilianista com vários trabalhos sobre a canção brasileira. É um campo de estudo consolidado”, aponta Machado.
Cada docente da Unicamp apresentará uma palestra, expandindo em reflexão aquilo que se experimenta na prática. Machado enfocará a voz, suas formas, suas sonoridades, aquilo que se construiu historicamente e ainda ressoa. “A voz na canção brasileira foi se definindo ao longo do século 20 e isso constitui uma linguagem, uma estética, um campo de pesquisa”, explica.
Barsalini aponta a bateria como eixo para pensar uma tensão mais ampla. “Quero discutir a relação entre tradição e modernidade a partir da presença da bateria, observar como ela aparece em diferentes momentos históricos e o que isso revela sobre transformações da linguagem.”
Se a bateria tensiona, o piano, na leitura de Thaís Nicodemo, atravessa. “Eu penso o piano como um mediador cultural”, define. Historicamente associado a espaços de prestígio e à tradição europeia, o instrumento, no Brasil, desce às ruas, sobe o morro, infiltra-se no samba. “Ele cria uma ponte entre universos distintos”, afirma. “Não está apartado da música popular, pelo contrário, participa ativamente de sua construção, muitas vezes como elemento de modernização.”
Na base de tudo, sustentando e articulando essas camadas, está o trabalho de Carvalho, que abordará o acompanhamento, sobretudo no samba e no choro. “Quero mostrar como os instrumentos constroem essa base para que a música aconteça”, explica.
As quatro abordagens, distintas em seus focos, convergem em um ponto essencial: a recusa de separar prática e pensamento. “A gente trabalha com a ideia de que a performance e a reflexão crítica caminham juntas”, ressalta Barsalini. “Isso faz parte da própria história da música popular brasileira.”
Essa convergência também resulta de uma formação comum, construída ao longo de décadas na Unicamp. “Somos fruto de um trabalho que começou há 15, 20 anos, com professores que criaram grupos de pesquisa e trouxeram uma leitura mais crítica e multidisciplinar da música”, acrescenta o baterista.


Memória e afirmação
No contexto dos 60 anos da Unicamp, comemorados em 2026, a viagem assume também um caráter simbólico, como um gesto de memória e afirmação. Ao levar essa perspectiva para fora do país, o grupo reafirma a própria história da Universidade, que, em 1989, criou o primeiro curso de graduação em música popular em uma universidade pública brasileira. “Não é trivial”, lembra Machado. “É o reconhecimento de que essa música tem uma importância cultural enorme, não só para o Brasil, mas para o mundo.”
Ao longo do tempo, o curso foi se transformando, equilibrando diferentes demandas e visões. Se, em sua origem, privilegiava a formação crítica de músicos já atuantes, incorporou progressivamente a dimensão da performance e expandiu sua atuação para a pós-graduação. “A performance está consolidada”, observa Barsalini. “Agora a gente busca fortalecer novamente a formação crítica.”
A música popular brasileira se constrói muitas vezes fora dos modelos formais de ensino, em práticas coletivas, na oralidade e na circulação entre espaços. “Ela envolve a roda, a convivência, a troca”, diz Nicodemo. “E nem sempre isso se encaixa nas estruturas tradicionais da universidade.” Há lacunas a serem enfrentadas, como a presença tímida de instrumentos ligados às tradições populares, como pandeiro e cavaquinho, no ambiente acadêmico. “São caminhos que ainda precisamos abrir”, reconhece Barsalini.
Se a viagem aponta para esses desafios, ela também revela possibilidades. O interesse pela música brasileira no exterior, concordam os professores, é intenso e consistente. “Às vezes maior do que aqui”, observa Machado. O departamento que os recebe em Roma é um exemplo desse campo de investigação que se consolida fora do país, impulsionado por pesquisadores e artistas que veem na canção brasileira um território fértil de análise.
A expectativa é que o projeto não se encerre em si mesmo. Já há articulações para a vinda de professores italianos à Unicamp e para a construção de programas de intercâmbio que incluam estudantes. “A ideia é criar um fluxo. Levar e trazer, estabelecer vínculos”, completa Carvalho.
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