Arte que pulsa para tocar corações e mentes
Entre espetáculos, encontros e percursos cotidianos, Universidade transforma a experiência cultural em parte da própria produção de conhecimento

No caminho entre uma aula e outra, o estudante, quase sem perceber, desacelera. Um som escapa de um ensaio ao longe, uma arte em uma parede atrai a vista, uma escultura no jardim interrompe o olhar automático de quem só queria chegar. O trajeto se transforma, e já não é apenas deslocamento, mas encontro. Na Universidade, a cultura não se limita a salas, palcos ou horários. Ela circula, ocupa os intervalos, faz pulsar corações e mentes. Mas essa rede de experiências não alcança todos da mesma maneira e nem sempre é compreendida em toda a sua diversidade. Ainda existem distâncias: de acesso, de repertório e, muitas vezes, de reconhecimento.
À frente da Pró-Reitoria de Extensão, Esporte e Cultura da Unicamp (Proeec), a pró-reitora Sylvia Furegatti, escultora e professora de Artes Visuais no Instituto de Artes (IA), destaca que o próprio formato do campus de Barão Geraldo favorece a dinâmica da articulação entre cultura e extensão, que tem sido um dos eixos centrais da gestão, inclusive nos campi de Limeira e Piracicaba. “Trabalhamos para que essas dimensões se encontrem. Um projeto de saúde pode ter aspectos culturais, assim como uma ação cultural também dialoga com a sociedade”, explica.
A presença da arte no espaço cotidiano é uma frente em expansão. “A ideia é criar encontros inesperados”, aponta. Projetos como o Arte no Campus e o jardim de esculturas do Instituto de Artes (IA) buscam integração ao percurso diário. Mais do que montar instalações permanentes, a proposta é pensar o espaço como algo vivo, “um lugar de atravessamento, de convivência, de novas interações”.

No ano passado, o Arte no Campus entrou em uma nova fase, com a instalação de duas obras de artistas mineiros: uma escultura de ferro de Leandro Gabriel, no centro da revitalizada praça Milton Santos, e a peça “Sentinela”, de Jorge dos Anjos, produzida com chapa de aço, que passou a ocupar um espaço no gramado do Restaurante Universitário (RU).” O campus de Limeira será o próximo a receber uma escultura, ainda em 2026”, adianta a pró-reitora.
Iniciativas como o Cine Cult e o Palco DCult ampliam o acesso a diferentes linguagens, tanto em espaços fechados quanto em áreas abertas do campus. A proposta, segundo Furegatti, é criar uma agenda diversa e contínua, capaz de oferecer múltiplas possibilidades de escolha ao público. “A Universidade precisa ter uma programação maior do que a capacidade individual de absorção. As pessoas escolhem, se identificam com uma linguagem, e isso também faz parte da experiência cultural.”
Essa lógica se desdobra em diferentes escalas, da formação de estudantes e produção artística interna à circulação de obras e artistas externos. Editais, parcerias e eventos de maior porte contribuem para projetar a Unicamp em circuitos mais amplos, ao mesmo tempo em que fortalecem a produção local, tanto em Barão Geraldo quanto nos campi de Limeira e Piracicaba. A Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA), por exemplo, organiza todos os anos o evento Primavera Cultural e Literária, cuja terceira edição, em novembro do ano passado, teve como objetivo a democratização da cultura em Limeira, além do incentivo à leitura e a integração com a comunidade.

“Trabalhamos com um sentido bastante ampliado de cultura”, destaca Eduardo Okamoto, que comanda a Diretoria de Cultura (DCult) da Unicamp. “Ela envolve as artes, mas também o comportamento, o convívio, as formas de estar junto.” É nesse território ampliado que a cultura se conecta diretamente à produção de conhecimento. “A inovação se produz no ambiente da cultura”, observa Okamoto. “A gente precisa de imaginação para pensar o novo, e essa imaginação se alimenta dos encontros, muitas vezes fora dos laboratórios.”
Esses encontros nem sempre são planejados. Podem surgir, por exemplo, no impacto de um concerto da Orquestra Sinfônica da Unicamp, no corpo em movimento ao participar de uma oficina, na atenção silenciosa diante de uma cena teatral. São momentos breves, às vezes quase invisíveis, mas que deixam marcas. “A pessoa volta diferente”, resume o diretor. “A cultura fertiliza o pensamento.”
Em um tempo marcado por distâncias e fragmentações, “precisamos reconstruir o convívio”, afirma Okamoto. “A cultura pode ser esse espaço seguro onde as pessoas se encontram e voltam a dialogar. Sentar-se em uma plateia, dividir o silêncio, reagir junto. Gestos simples que, pouco a pouco, reconstroem o tecido coletivo.”
No centro desse movimento, o Teatro de Arena se destaca como ponto de convergência. Aberto, atravessado por fluxos, ele, materializando uma ideia simbólica: a de que o coração da vida universitária pode ser um espaço de encontro e expressão. “É curioso pensar que o centro da nossa ‘pólis’ é um teatro”, ressalta.
Entre palcos e passagens, entre o previsto e o inesperado, a cultura na Unicamp não se impõe, ela acontece. E, ao acontecer, desloca, provoca, transforma. Como um gesto quase invisível que, de repente, muda a forma de ver, de pensar, de estar no mundo.


Paredes que falam
Nos corredores, escadarias e fachadas do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), as paredes falam. Grafites, pichações, murais e inscrições espontâneas formam camadas de memória, expressão e conflito que transformam o campus em um espaço vivo de leitura e pertencimento.
“A parede é incontrolável. Gostamos de falar que as paredes têm ouvidos, mas, no caso das nossas, elas têm boca e falam muito. As paredes falam aquilo que está pulsando fora do controle da Universidade”, destaca Josianne Cerasoli, professora do IFCH.


Ao percorrer o prédio, a sensação é de que cada parede acumula tempos distintos. Uma palavra reaparece em outro muro. Um símbolo resiste sob novas camadas de tinta. Um desenho conhecido ressurge em outro corredor. “É muito interessante passar pelas paredes não tentando fazer um juízo de valor, mas buscando de fato dialogar com aquilo que elas estão dizendo”, observa Cerasoli. “Elas expressam muita coisa. São muitos tempos colocados nessas mesmas paredes, então são muitas vozes.”
Durante eventos como o Universidade de Portas Abertas (UPA), as paredes do IFCH também se tornam pontos de identificação para os visitantes, especialmente os mais jovens. “Os adolescentes chegam impactados pelas paredes”, relata a professora. “Muitos reconhecem os artistas que estão ali, especialmente nas manifestações ligadas ao hip-hop. Dizem: ‘Esse fulano eu conheço’. E se surpreendem ao perceber que podem estar ao lado da arte de alguém que admiram.” Para Cerasoli, esse encontro ajuda a aproximar a Universidade da comunidade. “Olhar para as paredes sem o sentido de ficar isolado do mundo pode abrir portas.”
Um projeto desenvolvido no Instituto propõe justamente esse exercício: desacelerar o olhar e perceber as intervenções urbanas como linguagem, história e presença. A iniciativa, que surgiu a partir de uma disciplina voltada ao patrimônio e se tornou uma ação de extensão, envolveu o mapeamento e a investigação das obras espalhadas pelo prédio.
“O trabalho de extensão surgiu como um desdobramento da disciplina de patrimônio”, explica Luana Espig Regiani, doutoranda do IFCH, que contou com os estudantes Kelly Leme de Proença e Max Nascimento da Silva, autores do trabalho que deu origem ao projeto. “A ideia começou com o mapeamento dos murais do IFCH e, a partir disso, percebemos que o trabalho iria além, porque o Instituto tem essa característica muito forte de ser um museu a céu aberto, com tantas manifestações artísticas.”

A partir do mapeamento inicial, os estudantes e pesquisadores passaram a identificar, catalogar e investigar as histórias por trás das obras: os eventos em que foram produzidas, os artistas envolvidos e os sentidos que circulam entre elas. “Trabalhamos na identificação, no mapeamento e na seleção dessas obras para entender quais histórias estavam por trás delas, em que eventos foram feitas e quem são os artistas”, explica Regiani.
Entre as obras mapeadas, um dos murais de maior impacto é o que dialoga com a cultura e a luta indígena, funcionando também como memorial. “Essa obra traz também uma homenagem a uma aluna indígena do campus que faleceu e que está representada ali”, contou Regiane. Segundo Regiani, a obra mobiliza diferentes leituras e provocações. “Para a comunidade indígena, ele tem uma questão muito forte de representatividade e reconhecimento.”

