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Projeto mapeia feiras livres e busca resgatar cultura de convivência em Campinas

Estudantes do IFCH apontam perda de visibilidade como maior desafio para continuidade desses espaços

Se existem lugares que estão no DNA do Brasil, a feira livre é um deles. De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), existem cerca de 9 mil delas em funcionamento atualmente, distribuídas em 3.961 municípios, alcançando 71,5% do país. Disposto a incentivar o público universitário a frequentar esses locais, um grupo de estudantes do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), da Unicamp, deu início ao projeto de extensão “Cadê a feira?”, que busca mapear e descrever cada um desses pontos de comércio popular e tradicional em Campinas. Valorizar a agricultura familiar é outro foco do grupo com este trabalho.

O que era para ser uma ação entre colegas, transformou-se em um projeto a serviço da comunidade em geral. Surgido em 2024 dentro das disciplinas de extensão universitária, alunos das Ciências Sociais passaram a combinar pesquisa acadêmica com ações práticas de resgate destes espaços, que vão além da compra de alimentos.

Atualmente, a iniciativa tem uma página no Instagram — kdafeira.unicamp —, onde é possível saber os bairros, dias e horários das feiras, além do que cada local oferece. “Hoje, entendemos que o projeto tem um caráter de utilidade pública, porque facilita o acesso à informação. Queremos conectar feirantes a consumidores”, explica o estudante Pedro Montefusco Neto, integrante da iniciativa.

Além de reunir dados, o grupo busca resgatar o papel das feiras como espaços de convivência. Mais do que locais de compra, elas são vistas como ambientes de socialização e de troca entre pessoas de diferentes origens. “Queremos recuperar essa cultura de frequentar a feira não só pelo consumo, mas pela experiência social”, comenta o estudante.

Estudantes durante a programação do Unicamp Portas Abertas, em 2025; a docente Artionka Capiberipe no centro e ao lado o estudante Pedro Montefusco Neto
Estudantes durante a programação do Unicamp Portas Abertas, em 2025; a docente Artionka Capiberipe no centro e ao lado o estudante Pedro Montefusco Neto

O projeto também tem investido em ações educativas. Entre elas, a participação em eventos universitários com atividades interativas sobre os caminhos dos alimentos até o consumo e a organização de exibições de documentários sobre alimentação e indústria alimentícia. Na edição mais recente do programa Unicamp de Portas Abertas (UPA), por exemplo, o grupo montou literalmente uma banca de feira para chamar a atenção dos visitantes.

Para ampliar este verdadeiro raio-x das feiras, o grupo do IFCH realiza um trabalho de campo que envolve um mapeamento a partir de dados públicos (site da Prefeitura de Campinas, por exemplo), a verificação das informações e visitas presenciais. Pedro Neto conta que, em alguns casos, feiras existentes no portal do município, na verdade, não existem. Por isso, a importância desse contato presencial pelas regiões da cidade.

Durante as idas aos locais, eles conversam com feirantes e consumidores, registram imagens em foto e vídeo, além de coletar dados sobre o funcionamento e o perfil dos trabalhadores. Outra ação do grupo foi a criação de localizações no Google para feiras que ainda não estavam registradas digitalmente.

Barão Geraldo

Por enquanto, as atividades estão concentradas em Campinas, principalmente por questões logísticas. O levantamento mais detalhado até agora foi feito na feira de Barão Geraldo, distrito de Campinas, onde os estudantes aplicaram questionários para compreender aspectos econômicos e históricos dos feirantes. Ainda de acordo com Pedro Neto, o perfil dos trabalhadores é diverso, e nem todos são produtores diretos. “É comum que muitos sejam revendedores, o que também faz parte da dinâmica atual. Por isso, além da agricultura familiar, também valorizamos a economia local como um todo”, afirma ele.

Questionado sobre a percepção de que as feiras estariam desaparecendo, o estudante avalia que elas continuam ativas, mas perderam visibilidade. A concorrência com supermercados, que oferecem maior praticidade, é apontada como um dos principais desafios. “As feiras não sumiram. O que mudou foi o acesso e o hábito das pessoas”, acredita.

Outro ponto observado é o perfil do público. A frequência ainda é majoritariamente composta por pessoas de uma faixa etária mais alta, habituadas culturalmente a frequentar esses espaços, o que reforça a necessidade de atrair novos consumidores. Para os integrantes do grupo, o objetivo central é manter viva uma prática cultural que resiste às transformações urbanas. “A feira é um espaço importante de convivência e de resistência. Fazer com que as pessoas saibam que ela existe já é um passo muito grande”, conclui.

Feirantes no distrito de Barão Geraldo: atividades para compreender aspectos econômicos e históricos dos feirantes
Feirantes no distrito de Barão Geraldo: atividades para compreender aspectos econômicos e históricos dos feirantes

Vida própria

A professora Artionka Capiberibe, coordenadora da graduação em Ciências Sociais (2024-2026) do IFCH, lembra que o projeto “Cadê a Feira?” surgiu em sala de aula como parte de uma disciplina de extensão e rapidamente ganhou vida própria. A proposta inicial evoluiu para um trabalho mais profundo de interação com feirantes e frequentadores.

“A partir desse diagnóstico, passaram a atuar em diálogo com os trabalhadores locais, respeitando o princípio fundamental da extensão universitária: a construção conjunta com a comunidade”, aponta a professora. “A experiência prática também revelou aos alunos a complexidade do cotidiano dos feirantes, muitos dos quais exercem  múltiplas atividades além da feira. Esse contato direto contribuiu para desconstruir visões simplificadas e ampliar a compreensão sobre as dinâmicas sociais e econômicas envolvidas”, acrescenta.

Capiberibe faz questão de ressaltar que a “curricularização” da extensão universitária tem provocado mudanças significativas na formação de estudantes, ao estimular o contato direto com a sociedade e a aplicação prática do conhecimento acadêmico. “Na área de Ciências Sociais, essa transformação tem se materializado em uma série de projetos que conectam universidade e comunidade de forma contínua e colaborativa”, diz ela.

O “Cadê a Feira?” é apenas uma entre diversas iniciativas desenvolvidas no âmbito das disciplinas de extensão. Projetos como o “Falacine”, que leva sessões de cinema nacional a escolas públicas, o “Iranti”, voltado à realização de oficinas com mulheres idosas, e o “Humanidades em Cena”, que articula teoria social e produção teatral, demonstram a diversidade de propostas e públicos alcançados.

Ainda de acordo com Capiberibe, diferentemente de atividades acadêmicas tradicionais, os projetos de extensão não se encerram em um semestre. Estruturados em ciclos de disciplinas, eles permitem continuidade e aprofundamento ao longo do tempo, além de favorecer a participação coletiva — tanto entre estudantes quanto com os grupos externos envolvidos.

“Mais do que aplicar conhecimentos, os alunos relatam transformações pessoais ao longo do processo. Em muitos casos, a expectativa de levar algo à comunidade dá lugar à percepção de troca e aprendizado mútuo. A vivência prática, marcada pelo diálogo e pela adaptação às realidades encontradas, reforça o papel social da universidade pública”, comenta a professora.

Com iniciativas que seguem ativas desde 2024, os projetos indicam que a extensão pode ir além de uma exigência curricular, consolidando-se como um eixo estruturante da formação universitária. Ao romper os muros da academia, essas experiências contribuem para formar profissionais mais conscientes, engajados e preparados para atuar em contextos diversos.

Feiras visitadas pelos estudantes para colher informações; à esquerda no bairro Costa e Silva e à direita no Jardim Chapadão
Feiras visitadas pelos estudantes para colher informações; à esquerda no bairro Costa e Silva e à direita no Jardim Chapadão

Praça de alimentação

Rogério Chiminazzo, presidente do Sindicato dos Feirantes e Ambulantes de Campinas, valoriza a iniciativa surgida na Unicamp e acredita que ela pode reaquecer um estratégico setor comercial da cidade. “Também sou feirante e considero esse trabalho maravilhoso, justamente por atrair a atenção dos jovens. Atuo há seis anos em feiras noturnas e, hoje, elas estão ainda mais completas com verduras, peixe, espetinhos, milho, chope, pastel, crepe, hambúrguer, cookie e até acarajé. Tem muita coisa. É praticamente uma praça de alimentação. Queremos fazer isso também com as feiras diurnas”, conta.

Documentário

Como parte complementar desse universo ligado à alimentação, o IFCH exibe, no próximo dia 30, a partir das 18h, no Auditório Marielle Franco (Rua Cora Coralina, 100, na Unicamp), o documentário “Comida de Mentira”, de Rafael Mellin e Chica Andrade. Após a exibição, haverá uma roda de conversa sobre o filme. O evento é promovido pelo projeto “Cadê a Feira?”. A obra revela como a indústria dos ultraprocessados, movida pelo lucro a qualquer custo, quer reprogramar a alimentação de milhões de pessoas, comprometendo a saúde e ameaçando ecossistemas inteiros. A produção é do Coletivo Bodoque e Pajú Entretenimento.

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