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O fracasso dos três acordos globais sobre o desmatamento

No Brasil, apenas em 2024, o fogo consumiu cerca de 300 mil km2 da cobertura vegetal, mais da metade da qual (156 mil km2) na Amazônia

Em 2014, mais de 50 governos nacionais e diversas organizações proclamaram a Declaração de Nova York das Florestas. Suas metas, descritas como “voluntárias”, incluíam diminuir em 50% o desmatamento até 2020, zerá-lo até 2030 e restaurar 3,5 milhões de km2 até essa data. A Declaração afirmava também que as commodities agropecuárias não podiam mais continuar a devorar as florestas e defendia a mobilização de recursos financeiros para o cumprimento de seus objetivos.[1] Em 2015, o Acordo de Paris reforçava a Declaração de Nova York, exortando as partes a “agir para conservar e melhorar (…) os sumidouros e reservatórios de gases do efeito estufa (…), incluindo as florestas”.[2]

Veio então, em 2021, a Declaração dos Líderes sobre as Florestas e o Uso da Terra, na COP26, em Glasgow: 127 países, contendo 90% da cobertura arbórea mundial e 85% das florestas tropicais primárias, comprometeram-se a zerar o desmatamento líquido até 2030, a “conservar as florestas e outros ecossistemas terrestres e a acelerar sua restauração”.[3] Em 2025, a plataforma Forest Declaration Assessment assim resumiu sua avaliação anual sobre a Declaração de Glasgow: “Na metade do caminho até 2030, o mundo deveria estar vendo um declínio acentuado no desmatamento. Em vez disso, a curva global do desmatamento não começou a se reverter”.[4] De fato, “dos 20 países com a maior área de florestas primárias, 17 tiveram mais perda hoje [2024] do que quando o acordo [de Glasgow] foi assinado”.[5] A despeito desses três acordos globais, a perda bruta de cobertura arbórea (ou seja, sem que seja compensada por eventuais ganhos na cobertura florestal) apenas se acelerou no século 21, como mostra a Figura 1.

Figura 1 - Perda bruta global de cobertura arbórea em milhões de hectares entre 2001 e 2024. De baixo para cima, em cada coluna: florestas boreais, florestas temperadas, florestas tropicais e florestas subtropicais. Fonte: M. Weisse & L. Goldman, “Forest Loss”, World Resources Institute, 21 maio 2025. Obs.: todos os valores calculados com uma densidade mínima de cobertura arbórea de 30%.
Figura 1 – Perda bruta global de cobertura arbórea em milhões de hectares entre 2001 e 2024. De baixo para cima, em cada coluna: florestas boreais, florestas temperadas, florestas tropicais e florestas subtropicais. Fonte: M. Weisse & L. Goldman, “Forest Loss”, World Resources Institute, 21 maio 2025. Obs.: todos os valores calculados com uma densidade mínima de cobertura arbórea de 30%.

A Figura 1 mostra que, no primeiro quarto do século, a perda bruta global de cobertura arbórea deu dois saltos em escala, a partir de 2012 e, sobretudo, a partir de 2016. Em cada um dos nove anos entre 2016 e 2024, essa perda foi superior a 220 mil km2. Na realidade, ela mais do que dobrou no primeiro quarto do século 21, passando de 134 mil km2 em 2001 para 296 mil km2 em 2024.

Ao todo, entre 2001 e 2024, “o mundo perdeu 517 milhões de hectares [5,17 milhões de km2] de cobertura arbórea, ou cerca de 13% da cobertura arbórea global em 2000”, sendo que 87% dessa perda no período se deve a três causas: (1) a agropecuária tropical (1,68 milhão de km2); (2) os incêndios florestais (1,51 milhão de km2) e (3) a extração de madeira (1,31 milhão de km2).[6] No Brasil, apenas em 2024, o fogo consumiu cerca de 300 mil km2 da cobertura vegetal, mais da metade da qual (156 mil km2) na Amazônia, sendo 67 mil km2 em suas florestas.[7] Como afirma Mario Naval, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da Universidade de São Paulo (Esalq/USP), “as queimadas recordes [em 2024] resultam da combinação da expansão agrícola e pecuária, degradação de florestas nativas vizinhas e secas prolongadas provocadas pelas mudanças climáticas”.[8]

O segundo quarto do século e as eleições de outubro

Corria o ano de 2011 quando Will Steffen e colegas assim concluíam um trabalho memorável: “Os vetores decisivos do Antropoceno, se mantidos ao longo deste século, podem ameaçar a viabilidade da civilização contemporânea e talvez mesmo a existência futura do Homo sapiens”.[9] Juntamente com a queima de combustíveis fósseis, a maior ameaça a essa viabilidade é a perda de florestas, que abrigam mais de 80% da biodiversidade terrestre, garantem e reciclam as chuvas e refrigeram o planeta.  

Ao adentrarmos no segundo quarto deste século, impõe-se reconhecer o fracasso dos três acordos globais de 2014, 2015 e 2021 contra o desmatamento. Uma prova suplementar disso é fornecido por um estudo de 2025: “As taxas de mortalidade das árvores estão aumentando globalmente, com implicações para as florestas e para o clima”.[10] É preciso agora um esforço redobrado de organização política, de educação e de convencimento para fazer entender três pontos fundamentais: (1) sob qualquer perspectiva jurídica, econômica, cultural ou espiritual, os humanos não podem mais se arrogar o direito de destruir as florestas; (2) ao fazê-lo, estamos minando as condições biofísicas de possibilidade de nossas sociedades e (3) a maior parte dessa destruição nos trópicos já é praticamente irreversível:[11]

“Entre 2001 e 2024, 34% [1,77 milhão de km2] das perdas florestais em escala global são provavelmente permanentes. (…) O impacto é ainda maior nas florestas tropicais primárias, onde impressionantes 61% da perda estão ligados a mudanças permanentes no uso da terra — um grande revés para alguns dos ecossistemas mais vitais do planeta para a biodiversidade e o armazenamento de carbono”.

No Brasil, entre 2000 e 2025, a vegetação nativa do Cerrado já foi suprimida em 1.032.575 km2 (50,7% de sua área)[12] e 657 de suas espécies vegetais já foram extintas.[13] Nos últimos 60 anos, a floresta amazônica brasileira já foi suprimida em mais de 870.000 km2 (Inpe), com uma área ainda maior degradada por extração de madeira, secas e incêndios. Mais de 90% da perda florestal amazônica teve por causa primeira a expansão das pastagens.[14] A cada hectare de perda florestal e a cada décimo de grau a mais de aquecimento, a capacidade de reverter essa perda se tornará mais difícil, mais lenta e mais incerta. Tão incerta quanto nossa sobrevivência. E, contudo, está ainda ao alcance da sociedade brasileira desviar-se in extremis de nossa trajetória suicida, elegendo em outubro um Congresso comprometido com a preservação e restauração de nosso patrimônio natural. É, definitivamente, nossa última chance. Ou alguém acha que ainda temos tempo?

Esse texto não reflete necessariamente a opinião da Unicamp.


[1] Cf. Forests Declaration Assessment.

[2] Cf. <https://unfccc.int/sites/default/files/resource/parisagreement_publication.pdf>.

[3] Cf. UNFCCC, “Glasgow Leaders’ Declaration on Forests and Land Use”, 2 nov. 2021.

[4] Cf. Forest Declaration Assessment, 13 out. 2025.

[5] Cf. E. Goldman, S. Carter & M. Sims, “Fires Drove Record-breaking Tropical Forest Loss in 2024“. Global Forest Watch, 21 maio 2025.

[6] Cf. M. Weisse & E. Goldman, “Forest Loss”. World Resources Institute,  21 maio 2025.

[7] Cf. “Área queimada no Brasil em 2024 supera média histórica em 62%”. MapBiomas, 24 junho 2025.

[8] Cf. Tadeu Arantes, “Fogo e agricultura impulsionam a degradação do solo no sul da Amazônia”. Agência Fapesp, 6 jun. 2025.

[9] Cf. W. Steffen, J. Grinevald, P. Crutzen & J. McNeill, “The Anthropocene: conceptual and historical perspectives”. Philosophical Transactions of the Royal Society of London A, 369, 1938, 2011.

[10] Cf. International Tree Mortality Network, “Towards a global understanding of tree mortality”. New Phytologist, 31 jan. 2025.

[11] Cf. “One-Third of Forest Lost This Century Is Likely Gone for Good — and Remaining Loss Carries Lasting Consequences, New Analysis Warns”. World Resources Institute, 12 junho 2025. 

[12] Cf. Prodes/INPE, Cerrado, 2025

[13] Cf. “Mudança do clima no Brasil”. MCTI, 2024.

[14] Cf. “Mais de 90% do desmatamento da Amazônia é para abertura de pastagem”. MapBiomas, 3 out. 2024.


Foto de capa:

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