Contar o que ainda não tinha sido contado. Com esse objetivo em mente, o jornalista e escritor Camilo Vannuchi revisitou os bastidores do projeto Brasil: Nunca Mais, que resultou no livro homônimo lançado em 1985 e se tornou um marco do final do período de repressão militar, iniciado em 1964. No livro-reportagem “Nunca Mais: Os bastidores da maior denúncia contra a tortura já feita no Brasil” (editora Discurso Direto), lançado durante evento nesta quarta-feira, dia 8, no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp, Vannuchi lista 444 torturadores e 242 centros de tortura, além de revelar como, de forma quase improvisada, heróis anônimos conseguiram sustentar a maior denúncia contra a tortura já realizada no país.
“Quem foram as pessoas que, longe dos holofotes e sob risco permanente, trabalharam para impedir que a memória da tortura e da violência de Estado desaparecesse com o fim da ditadura militar? Quem copiou, microfilmou, organizou e escondeu os documentos?”, questiona Vannuchi, filho de Paulo de Tarso Vannuchi, preso político encarcerado durante cinco anos durante a ditadura militar, e primo de Alexandre Vannucchi Leme, estudante torturado e morto em 1973, cuja trágica história ele conta no livro “Eu só disse meu nome”, lançado em 2024.

O encontro, intitulado Memória e Democracia, promovido pelo IFCH e pelo Arquivo Edgard Leuenroth (AEL), da Unicamp, onde parte fundamental desse acervo se encontra preservada, reuniu Vannuchi, o diretor do arquivo, Mário Medeiros, que mediou o evento, a pesquisadora Magali Cunha, do Instituto de Estudos da Religião (Iser), e o professor do IFCH Marcelo Ridenti. Ao abrir a mesa, o autor ressaltou o simbolismo de discutir o tema no AEL, “guardião desta memória”.
Pontinha do iceberg
Vannuchi destaca que o livro “Brasil: Nunca Mais” sintetizou, em pouco mais de 300 páginas, um relatório de cerca de 6 mil páginas a partir da análise de mais de 1 milhão de páginas de processos da Justiça Militar. “Ele foi feito nos últimos dez meses de um projeto de seis anos. O livro ‘Brasil: Nunca Mais’ é uma pontinha do iceberg.”
Ao revisitar o tema, primeiro em um podcast e agora em livro, ambos com o título “Nunca Mais”, o autor reconstruiu a rede humana que sustentou a operação: advogados, religiosos, arquivistas, técnicos de microfilmagem, militantes e funcionários que trabalharam em absoluto sigilo entre 1979 e 1985. Trata-se de uma investigação que trouxe à luz personagens menos conhecidos, que atuaram longe do protagonismo público e cuja participação foi decisiva para a preservação da memória.
Com 236 páginas, o livro reconstrói o trabalho sigiloso conduzido por uma equipe de cerca de 30 pessoas ao longo de cinco anos. Entre eles estão Abel de Alencar, responsável por fotocopiar as milhares de páginas dos processos, e José do Egito Sombra, encarregado de microfilmar, página por página, parte fundamental do acervo. Vannuchi também resgatou o papel de Alê Corazza, responsável pela tesouraria e pela logística financeira da operação clandestina, além de Anivaldo Padilha (pai do ministro da Saúde, Alexandre Padilha), cuja interlocução com o Conselho Mundial de Igrejas, em Genebra (Suíça), foi decisiva para a obtenção de recursos internacionais que mantiveram o projeto em funcionamento.
Paralelamente à atuação pública de nomes centrais do projeto Brasil: Nunca Mais, como d. Paulo Evaristo Arns, o reverendo Jaime Wright e a advogada Eny Raimundo Moreira, atuavam, em segredo, para levar a empreitada adiante, um grupo se encarregou da missão de salvar os processos políticos antes que fossem destruídos. Um dos episódios mais emblemáticos revelados pelo jornalista diz respeito ao modo como os recursos enviados da Suíça chegavam ao Brasil. Para preservar o sigilo da operação, a equipe utilizava um código para avisar sobre a vinda do dinheiro: “Chegaram os chocolates”.

Segundo o autor, o dinheiro era trazido de forma discreta por integrantes da articulação internacional, muitas vezes escondido em roupas e pertences pessoais. “Era um dinheiro não contabilizado”, relata. O escritor também descobriu como foi realizado o transporte clandestino dos microfilmes para Genebra, onde se formou uma cópia de segurança do acervo. “Iam escondidos no sapato, na bolsa, na cueca. Se tudo desaparecesse aqui, haveria uma cópia preservada.”
Vannuchi ressalta que a dimensão técnica da operação foi gigantesca: 707 processos analisados, milhares de questionários preenchidos manualmente e uma base de dados construída antes da era digital. “Foi esse trabalho que permitiu identificar 444 agentes envolvidos na tortura, desmontando a narrativa de que a violência teria sido episódica ou resultado de excessos individuais. Não eram casos isolados. Era uma estrutura institucionalizada”, afirma.
Ao trazer a discussão para o presente, o autor destaca que a memória não pode ser tratada como assunto exclusivamente histórico. “Não é para falar do passado. É para falar do presente e do futuro.” Ao mencionar denúncias recentes de tortura no sistema prisional e episódios de violência policial, afirma: “A impunidade de ontem é o salvo-conduto para a violência de hoje”.
Vannuchi confirma que a história do projeto Brasil: Nunca Mais vai ganhar uma adaptação para o cinema. “Tem um filme sendo feito. Antes do meu projeto, eles já estavam há seis anos trabalhando no roteiro e me procuraram. Estou ajudando com consultoria de pesquisa para não ter erros históricos”, conta. A adaptação, segundo ele, deverá enfatizar o caráter de suspense e espionagem da operação clandestina que deu origem ao acervo. “Essa história já nasceu como thriller, como filme de espionagem”, destaca.
A verdade, somente a verdade
Durante o evento no IFCH, a pesquisadora Magali Cunha ampliou a discussão ao recuperar um aspecto pouco conhecido da história do projeto: o papel decisivo de setores evangélicos na resistência democrática e na viabilização do Brasil: Nunca Mais. Para ela, o projeto foi “nossa primeira Comissão da Verdade”.
Segundo ela, o protagonismo contemporâneo de igrejas e lideranças religiosas intensificou o apagamento de uma memória histórica fundamental. “Muita gente não sabe que igrejas evangélicas tornaram possível o acervo. A participação do pastor presbiteriano Jaime Wright, que buscava pelo irmão desaparecido, Paulo Stuart Wright, foi fundamental.”

Cunha destaca que, em articulação com o Conselho Mundial de Igrejas, em Genebra, e com d. Paulo Evaristo Arns, então cardeal-arcebispo de São Paulo, Wright ajudou a estruturar a rede que trouxe recursos ao Brasil e possibilitou a operação clandestina.
Já o professor Marcelo Ridenti, do Departamento de Sociologia do IFCH, relembrou sua relação pioneira com o acervo e como utilizou a documentação do projeto Brasil: Nunca Mais ainda nos anos 1980, antes de sua ampla disponibilização pública. Segundo ele, o trabalho foi fundamental para a tese que resultaria no seu livro “O Fantasma da Revolução Brasileira”.
Ridenti ressalta que o projeto permitiu não apenas a leitura qualitativa dos depoimentos, mas também a construção de uma base estatística sem precedentes sobre os perseguidos pelo regime. Com apoio do setor de informática da Universidade Estadual de Londrina (UEL), onde era professor, organizou tabelas e quadros quantitativos sobre idade, sexo, ocupação profissional e filiação política dos processados. “Foi um trabalho monumental.”
Entre os resultados, destaca a forte presença da juventude entre os processados. “A maior parte dos perseguidos era muito jovem, com até 25 anos”, conta. Outro dado relevante foi a possibilidade de identificar a participação das mulheres nas organizações políticas e de analisar comparativamente diferentes perfis sociais. Esses levantamentos, afirma, permitiram compreender as bases sociais da oposição política ao regime e se tornaram referência para estudos posteriores sobre repressão e resistência. “O projeto Brasil: Nunca Mais fez um trabalho fabuloso: preservar a memória para que essas histórias sigam vivas.”
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