Mensagens de ódio no X impactaram menos que o esperado em eleições


Pesquisa inédita cruzou localização de tuítes com resultados das urnas em 2022


Os discursos de ódio na rede social X (antigo Twitter) podem ter impactado o voto de eleitores jovens nas eleições presidenciais de 2022, porém o efeito foi o contrário do esperado: aumento do apoio ao candidato alvo dos ataques, de acordo com pesquisa realizada por Alexandre Gori, professor do Instituto de Economia (IE) da Unicamp, e por Esther Menezes, especialista em políticas públicas da Secretaria de Gestão e Governo Digital do Estado de São Paulo. No entanto, o trabalho concluiu que não há evidências de que os discursos de ódio proferidos na rede impactaram de maneira relevante os resultados gerais do pleito. Os autores avaliaram mais de 100 mil tuítes com discursos de ódio direcionados aos dois principais candidatos à presidência na ocasião, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Jair Bolsonaro (PL).
“Foi o primeiro estudo que avaliou empiricamente a relação entre discurso de ódio e resultado das eleições. As conclusões são convergentes com a literatura científica, segundo a qual não há evidências de que o que se passa nas redes sociais afeta de maneira relevante o comportamento político”, afirma Gori. Para o docente, uma das explicações é o fenômeno das “câmaras de eco”, em que as pessoas tendem a interagir com visões similares às suas e que as reforcem. “As pessoas reúnem-se em grupos com opiniões semelhantes, então o que acontece ali dentro não altera muito suas opiniões.”
No entanto, em regiões com maior concentração de eleitores mais jovens — a pesquisa considera menores de 45 anos como integrantes desse grupo —, os discursos de ódio associaram-se a um impacto contrário ao esperado, gerando um efeito-bumerangue, com maior apoio ao candidato alvo do discurso ofensivo e redução do apoio ao candidato opositor. “As pessoas são mais abertas a mudanças enquanto são jovens”, reflete o professor, que ressalta a convergência dos resultados com a literatura recente. Segundo pesquisas atuais, adolescentes demonstram empatia com as vítimas como resposta aos conteúdos ofensivos.
Para Gori, a pesquisa deixa uma reflexão sobre um cenário que ainda tende a ser bastante polarizado em 2026, ano de eleições presidenciais. Frente a posições políticas já cristalizadas, os discursos proferidos nas redes parecem não ter tanto impacto. “Esse estudo tranquiliza um pouco o debate, falando ‘calma lá, não é o discurso de ódio que vai afetar as eleições’”, observa.


Análise de dados
A pesquisa, financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), por meio do Centro de Pesquisa em Inteligência Artificial (Brazilian Institute of Data Science – BI0S), e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), utilizou modelos econométricos espaciais para analisar os dados de tuítes e os resultados eleitorais. Foram coletados mais de 4 milhões de mensagens durante o período oficial da campanha eleitoral, entre agosto e outubro de 2022, sendo que 138 mil postagens tiveram localização válida para as análises espaciais.
Os dados sobre a localização das publicações foram cruzados com informações dos resultados eleitorais do primeiro turno e com as características das 558 microrregiões do país. Para minimizar a chance de ter ocorrido apenas uma coincidência na relação entre tuítes e votos, Gori e Menezes adotaram diversas variáveis de controle, considerando outras possíveis influências no voto, como o resultado das eleições de 2018 e o perfil social dos eleitores. As análises espaciais também consideraram, por exemplo, que os efeitos dos discursos de ódio nas redes sociais podem se difundir para localidades distintas daquelas de origem das mensagens.
“Obviamente nós não conseguimos relacionar diretamente a opinião do usuário da rede com o seu voto, porque essa informação não é observada, mas podemos agregar as informações. Então nós comparamos, naquelas localidades onde o discurso de ódio é mais frequente, se isso tem um resultado diferente das localidades onde o discurso de ódio não é tão frequente”, sintetiza o professor.
Para a detecção do discurso de ódio, os pesquisadores utilizaram diferentes abordagens. Uma delas, simples, é baseada no léxico, com detecção de palavras ofensivas comuns no contexto político brasileiro. Eles consideraram expressões como “burro”, “ladrão”, “genocida”, “imbecil” e “criminoso”. O tuíte era classificado como discurso de ódio quando continha o nome do candidato e, pelo menos, um termo ofensivo. Nas publicações coletadas, o candidato Lula foi aquele que sofreu a maior parte das agressões — do total, 61,6% das mensagens mencionavam o nome de Lula, 49,8% o de Bolsonaro e 17,5% ambos os nomes. Gori e Menezes compararam esses resultados com aqueles obtidos por meio da ferramenta Perspective, do Google, que atribui uma pontuação de toxicidade às mensagens por meio de aprendizado de máquina. Os resultados foram semelhantes, indicando a robustez das conclusões.
Apesar de adotarem diferentes estratégias para garantir a confiabilidade das análises, o professor relata que há uma dificuldade na classificação do que é discurso de ódio, que pode ser considerado por alguns apenas um discurso “não civilizado”. Por isso, recomenda cautela com ferramentas de controle, já que elas podem incorrer em erros de detecção. “Não estou defendendo de maneira alguma que o discurso de ódio tenha que ser liberado, obviamente. As pessoas precisam ser responsabilizadas pelo que escrevem. Mas o trabalho aponta a dificuldade de se estabelecer um critério confiável”, reflete.

QUEM ESTÁ SUJEITO?

Com a mesma base de dados, o professor agora está trabalhando em um estudo sobre os efeitos do discurso de ódio entre pessoas que são expostas a esse tipo de conteúdo. “Se você é exposto ao discurso de ódio, aumenta a possibilidade de adotar um discurso mais agressivo?”, é a pergunta que direciona a pesquisa, pontua Gori.
Apesar de ainda em curso, os resultados parciais indicam uma propensão à adoção de um tom moderador. “Quando o discurso está muito inflamado, a tendência é que as pessoas passem a moderar um pouco o debate, e o discurso passa a ser menos inflamado”, antecipa o professor.
