Os caminhos da inovação no Brasil
Dados do IBGE quantificam impacto das estratégias de P&D na produtividade das empresas

Há mais de um século, acadêmicos discutem o papel da inovação no desempenho produtivo das empresas, demonstrando como o investimento em pesquisa e desenvolvimento (P&D) resulta em melhores índices econômicos e de competitividade. Entretanto, no mercado brasileiro, a criação de produtos e processos totalmente originais tende a ser vista como um risco pelas empresas, que preferem adotar e adaptar tecnologias de terceiros.
Para desfazer esse mito, o economista Luis Otávio Lucas, em sua pesquisa de doutorado em Política Científica e Tecnológica (DPCT) realizada no Instituto de Geociências (IG) da Unicamp, quantificou o impacto positivo das estratégias de P&D para a produtividade. Para isso, utilizou dados da Pesquisa de Inovação (Pintec) e da Pesquisa Industrial Anual (PIA), ambas elaboradas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), para relacionar a produtividade das indústrias a quatro categorias de inovação elaboradas por ele em seu mestrado: inovação pioneira, imitação pioneira, imitação seguidora e adoção.
A primeira abrange o conceito de inovação stricto sensu, quando empresas desenvolvem um produto ou processo original em todo o mundo. Já o segundo tipo introduz novidades apenas no âmbito nacional. Por sua vez, a imitação seguidora produz novidades somente para a empresa, enquanto a adoção se refere à aquisição de inovação desenvolvida por outras empresas. “Essa foi a principal contribuição do trabalho. Isso porque a maior parte da literatura da área foca apenas em um conceito unificado de inovação, sem abordar estratégias separadas, como imitação e adoção”, afirma o agora doutor.
Resultados
A investigação constatou que as pioneiras, tanto por inovação quanto por imitação, tendem a ser as empresas com o maior número de funcionários, mais investimentos em P&D, atuação internacional e participação em grandes grupos empresariais. Enquanto as inovadoras pioneiras apresentam gasto total médio em atividades de inovação da ordem de R$ 26.320 por trabalhador, as imitadoras seguidoras e as adotantes possuem médias respectivas de R$ 3.280 e R$ 1,5 mil por trabalhador. Porém, as inovadoras pioneiras compensam esse custo com maiores valores de produtividade, tanto no caso de inovações de produto quanto de processo.
Por outro lado, a análise demonstrou que a adoção parece ser uma estratégia importante para as empresas que inovam em produtos. Embora não esteja associada ao maior retorno em produtividade, o estudo demonstrou que a aquisição de bens produzidos por terceiros gera resultados superiores aos da imitação seguidora. “Provavelmente isso acontece porque as empresas optam por adotar um produto somente quando veem uma oportunidade certa de desempenho superior”, supõe Lucas.
O estudo também mostrou a preponderância da imitação seguidora em empresas que focam em inovações de produto, e da adoção tecnológica para as que inovam em processos. De acordo com os dados, 58% das empresas com alguma estratégia de inovação realizam imitação seguidora, e 26% imitação pioneira para produtos, enquanto, nas estratégias de processo, 58% adotam e 32% realizam imitação seguidora. Em contrapartida, apenas 7% são pioneiras em produtos e 2% em processos, valor que cai para menos de 1% quando as amostras incluem as não inovadoras.


Mercado nacional
Para realizar o estudo, Lucas analisou dados de 2012 a 2014 fornecidos por mais de dez mil indústrias à Pintec. Realizada a cada três anos, a pesquisa teve sua primeira edição publicada em 2000, e desde então serve como termômetro para os setores de P&D das empresas, contribuindo para revelar obstáculos à inovação na iniciativa privada. Por conta da redução nos investimentos federais direcionados ao IBGE durante o governo de Jair Bolsonaro, sua última versão completa foi realizada em 2017, mas ainda não estava disponível quando o autor solicitou o acesso aos dados, motivo pelo qual a tese focou na edição anterior.
A escolha da área de transformação também não se deu ao acaso. A indústria é o setor de maior representatividade no levantamento do IBGE, tendo motivado a criação da Pintec por ser o ramo de atividades com maior progresso tecnológico, afirma o professor André Furtado, que orientou o estudo. “E dentro da indústria, a de transformação envolve as atividades com o maior dinamismo tecnológico. É ali que se concentra a inovação”, sustenta.
Apesar desse desempenho, chama atenção o fato de que a maioria das empresas analisadas não reportou qualquer estratégia inovadora de produto (65%) ou de processo (53%). Como a Pintec levanta informações sobre um período de três anos, é possível que a organização tenha inovado anteriormente e não esteja completamente defasada. No entanto, novos estudos são necessários para comparar as estatísticas com dados recentes, o que se tornará viável em 2027, quando o IBGE lançará a próxima edição da Pintec.
Ainda segundo Furtado, o mercado interno bastante protegido e a concentração da atividade econômica nas grandes empresas — enquanto as pequenas sobrevivem de mercados regionais — ajudam a explicar a pouca inovação. Além disso, há o baixo dinamismo da indústria nacional, estagnada há quatro décadas. “A relação entre inovação e desempenho também ocorre inversamente: quando a economia cresce, as empresas investem mais em inovação. Aqui, a quantidade de doutores fazendo P&D nas indústrias é reduzida, e essa pesquisa, quando ocorre, não é de fronteira”, esclarece.
Para o cientista social Diego de Moraes, que coorientou o estudo, resolver esses problemas passa por ampliar o escopo das políticas públicas, saindo do viés ofertista que caracterizou as iniciativas das últimas décadas, como isenção de impostos e crédito subsidiado, para focar na demanda. Ainda assim, defende que, enquanto as empresas não sentirem necessidade de inovar, pouco será mudado. “Se a inovação for um imperativo para a estratégia da empresa, ela irá fazer. Mas, se ela tiver lucratividade neste mercado, não irá se arriscar. Então ficamos a reboque do que é produzido no mundo, com uma postura mais passiva que se reflete nessas estratégias que Luis observou”, afirma.
