É comum usarmos a palavra “fome” para expressar a necessidade imediata de alimento – um sentir que, para a maioria de nós, é passageiro e termina na próxima refeição. No entanto, o termo assume um significado técnico para qualificar a Insegurança Alimentar Grave, que nem sempre é temporária e reflete, invariavelmente, uma fragilidade na nossa estrutura de direitos. Para entender o cenário atual e a relevância que o pensamento do economista e filósofo Amartya Sen assume nesse cenário, é preciso, primeiro, decifrar os conceitos por meio dos dados. Isto, pois a definição de fome varia entre a métrica estatística e a perspectiva filosófica que se adota para compreendê-la.
Segurança alimentar
Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), segurança alimentar não é apenas “ter o que comer” hoje. É o acesso contínuo a alimentos em quantidade e qualidade suficientes, sem que isso obrigue o indivíduo a sacrificar outras necessidades básicas, como aluguel ou saúde, nem comprometa a subsistência das gerações futuras. No Brasil, este é um direito constitucional (Art. 6º)[1] garantido pelo Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Sisan) (BRASIL, 2006).
Como a medir?
Para medir a efetividade desse direito e qualificar a fome, o Brasil utiliza a EBIA (Escala Brasileira de Insegurança Alimentar), que estratifica a realidade dos domicílios brasileiros em quatro níveis[2]:
- Segurança Alimentar: Acesso pleno e regular aos alimentos.
- Insegurança Leve: Quando surge a incerteza ou a preocupação com o acesso aos alimentos no futuro, comprometendo a qualidade da dieta para preservar a quantidade.
- Insegurança Moderada: Redução quantitativa de alimentos e/ou ruptura nos padrões de alimentação entre os adultos.
- Insegurança Grave: Representa a ruptura severa no acesso aos alimentos, onde a fome se manifesta fisicamente, com comprometimento da qualidade e redução da quantidade de alimentos de todos os membros da família residentes no domicílio, tanto adultos quanto crianças.
Globalmente, a FAO utiliza a Escala de Experiência de Insegurança Alimentar (Fies) e o índice de Prevalência de Subalimentação (PoU). Enquanto o PoU mede o percentual da população que não consome calorias suficientes para uma vida ativa a longo prazo, a Fies avalia o acesso a uma alimentação adequada, sendo amplamente adotada na América Latina e Caribe (ALC).
O Mapa da Fome: O Termômetro da Dignidade
Diferente do que o nome sugere, o Mapa da Fome não é um mapa geográfico fixo, mas um relatório estatístico anual da ONU/FAO. Um país entra no Mapa da Fome quando a subalimentação crônica ou subnutrição (o índice PoU) atinge 2,5% ou mais da sua população. Abaixo de 2,5%, a fome deixa de ser considerada um problema estrutural e generalizado, mas sim um problema residual que exige políticas focadas.
Panorama regional e global
Na região de ALC, a desigualdade geográfica é nítida: em 2023, a insegurança alimentar moderada ou severa no Caribe atingiu 58,8% da população, mais que o dobro do registrado na América Central (28,2%) e na América do Sul (25,1%). Enquanto a América do Sul apresenta melhoras, o Caribe registrou um aumento marginal na insegurança alimentar grave desde 2021. Fatores como concentração de renda, exclusão social e pobreza – agravados pela pandemia de covid-19 – continuam a limitar o acesso a uma dieta adequada (RAMÍREZ-JUÁREZ, 2022).
De acordo com o relatório SOFI 2025 da FAO, o mundo apresenta sinais de redução na fome, com a população global afetada caindo de 8,7% em 2022 para 8,2% em 2024. Apesar da queda, o desafio permanece monumental: cerca de 720 milhões de pessoas enfrentam a fome e 2,3 bilhões vivem em insegurança alimentar moderada ou grave. Essa realidade ameaça o alcance do ODS 2 e de toda a Agenda 2030, comprometendo a saúde pública e a estabilidade dos sistemas agroalimentares globais.
Nesse contexto, sair do Mapa da Fome da ONU é uma vitória estratégica, mas não o fim do jogo. Um país pode deixar de constar estatisticamente no mapa por baixar sua subalimentação crônica, mas ainda reter milhões de cidadãos em insegurança moderada.
A realidade brasileira e regional
Em 2026, o Brasil celebra um marco histórico ao consolidar sua saída do Mapa da Fome da ONU pela segunda vez, conforme se mostra no Gráfico.

Ao atingir o índice de 2,4% de subalimentação, o Brasil não apenas reverteu o retrocesso de triênios anteriores, mas se tornou um sinalizador de recuperação para toda a América Latina. No cenário pós-pandemia, o país apresentou uma queda na insegurança alimentar mais acentuada que a média global e regional, consolidando a eficácia de políticas públicas articuladas, como o Bolsa Família, o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA).
Embora a Prevalência de Subnutrição (PoU) na América Latina e Caribe (ALC) tenha caído para 5,4% no último triênio, o progresso relatado pela FAO (2022-2024) não anula o fato de que a insegurança alimentar permanece um desafio persistente. Para o Brasil, a região e o mundo, o combate à fome ainda é dificultado por questões políticas e sociais que exacerbam desigualdades estruturais, exigindo atenção contínua mesmo que o país esteja fora do Mapa da Fome.
Para compreender a complexidade do problema, é necessário diferenciar as métricas: enquanto o mapa da FAO monitora a oferta macro de calorias e o consumo crônico, a Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (EBIA) foca no cotidiano doméstico. É a EBIA que capta a angústia de famílias que substituem proteínas por ultraprocessados ou reduzem porções para priorizar o alimento dos filhos.
Dados da PNAD Contínua de 2025 reforçam que, embora fora do mapa internacional, o desafio interno persiste (IBGE, 2025):
- Insegurança Alimentar Grave (Fome): Recuou de 4,1% para 3,2% dos domicílios entre 2023 e 2024.
- Em números absolutos: Cerca de 2,5 milhões de lares brasileiros ainda conviviam com a fome em 2024/2025.
- A “Fila” da Insegurança: 28 milhões de pessoas permanecem sem a garantia de uma alimentação saudável e regular ao somarmos as formas leve e moderada de Insegurança Alimentar.
Esses indicadores evidenciam que, apesar do progresso estatístico global, a persistência da privação em milhões de lares denuncia falhas profundas em nossa estrutura de direitos.
Amartya Sen[3] e dados para alimentar a esperança
Sob a ótica de Amartya Sen, a gradação técnica da insegurança alimentar ganha uma dimensão ética profunda. Para o Nobel de Economia, a fome em um país que bate recordes de safra em 2026 não é um problema de produção, mas de “capacidades” (SEN, 2010). Quando um domicílio é classificado em insegurança alimentar grave, o dado não registra apenas a ausência de calorias; ele denuncia o cerceamento da liberdade. Afinal, uma criança que não come tem seu aprendizado comprometido, e um adulto desnutrido é impedido de participar plenamente da vida produtiva e democrática.
Assim, a EBIA não apenas conta pratos vazios, ela mapeia onde se nega autonomia aos seres humanos. Sair do Mapa da Fome é uma vitória que exige vigilância constante, pois as consequências da insegurança alimentar são profundas, duradouras e coletivas. Elas se manifestam de forma silenciosa no atraso cognitivo infantil – gerando um custo social e econômico que será sentido no médio e longo prazo – e na saúde pública, onde a insegurança alimentar leve ironicamente impulsiona a obesidade pelo consumo de ultraprocessados baratos.
Essas implicações revelam que a fome não é apenas uma tragédia individual, mas um entrave ao desenvolvimento: um trabalhador faminto produz menos e adoece mais, onerando o sistema e travando o Produto Interno bruto (PIB). Por isso, a segurança alimentar deve ser tratada como infraestrutura nacional básica, tão vital para o crescimento econômico sustentável quanto estradas ou energia.
A fome é um problema de todos. Afinal, uma sociedade só é verdadeiramente soberana quando seu povo não precisa de coragem para enfrentar a próxima manhã de estômago vazio.
Esse texto não reflete necessariamente a opinião da Unicamp.
[1] No Brasil, a alimentação foi oficialmente incluída no rol dos direitos sociais da Constituição Federal em 4 de fevereiro de 2010, por meio da Emenda Constitucional nº 64.
[2] A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), adota a EBIA em seu módulo suplementar sobre Segurança Alimentar.
[3] Nascido na Índia em 1933, Sen é economista e filósofo, professor em Harvard e vencedor do Prêmio Nobel de Economia de 1998. Ele é conhecido como o “economista dos pobres” por ter dedicado sua carreira a entender as causas da fome, da desigualdade e da pobreza.
Referências
- BRASIL. Lei nº 11.346, de 15 de setembro de 2006. Cria o Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional – SISAN com vistas em assegurar o direito humano à alimentação adequada, e dá outras providências. Brasília, DF: Diário Oficial da União, 2006.
- FAO, IFAD, UNICEF, WFP and WHO. The State of Food Security and Nutrition in the World 2024: Financing to end hunger, food insecurity and malnutrition in all its forms. Rome: FAO, 2024.
- FAO, IFAD, UNICEF, WFP and WHO. The State of Food Security and Nutrition in the World 2025: Financing to end hunger, food insecurity and malnutrition in all its forms. Rome: FAO, 2025. Disponível em: fao.org/publications/sofi.
- RAMÍREZ-JUÁREZ, Javier. Food security and family farming in Mexico. Revista Mexicana de Ciencias Agrícolas, v. 13, n. 3, p. 553–565, 8 ago. 2022.
- IBGE. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua): Segurança Alimentar 2024-2025. Rio de Janeiro: IBGE, 2025.
- SEN, Amartya. Desenvolvimento como liberdade. Tradução de Laura Teixeira Motta. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
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