
Diante da sala fria e barulhenta, no Instituto de Computação (IC) da Unicamp, convidados ansiosos esperavam a vez de conhecer o cluster Abaporu, no final da tarde de sexta-feira (5 de dezembro). Lá dentro, o supercomputador da Universidade rodava, insensível a toda aquela atenção. Quem entrou, aproveitou o cenário para fazer selfies e comemorar o feito de uma equipe de pesquisadores que já entrou para a história. O anfitrião, o professor Anderson Rocha, fez questão de descerrar a placa simbólica da inauguração.
Um dos fundadores do laboratório de inteligência artificial (IA) Recod.ai, do IC, e o único entre eles que permaneceu na Unicamp, Rocha contou porque escolheu o nome Abaporu para o cluster, como são chamados grupos de computadores interligados que trabalham em conjunto para funcionar como um único sistema, aumentando o poder de processamento. “O Abaporu da artista Tarsila do Amaral significa ‘devorador de homens’. No nosso caso, refere-se a um ‘devorador de dados’.”
O Abaporu começa especificamente com uma estrutura de 28 GPUs, fruto de um trabalho que reuniu as empresas Scherm, Supermicro, Nvidia e Positivo. “Essa estrutura permite que a gente faça 50 ‘pentalhões’ de operações. É bastante significativo para quem trabalha com IA”, comentou.
“Começamos uma parceria, lá em 2009, com a Scherm e a Supermicro, que estão desde o início, depois veio a Nvidia e, mais recentemente, a Positivo. Juntos, criamos um ambiente de IA muito interessante e poderoso. Estamos reunidos agora para mostrar aos nossos parceiros o que estamos fazendo”, contou o professor. O cluster foi adquirido com recursos da Shell Brasil [advindos da cláusula de PD&I da ANP, no âmbito do Centro de Estudos de Energia e Petróleo (Cepetro Unicamp)] para ser usado em projetos de pesquisa que combinam IA e engenharia de petróleo. Hoje, já expandiu seus contratos para empresas como a Samsung, Natura e órgãos governamentais. “Esperamos crescer muito mais.”
Rocha lembra que, ainda aluno no IC, disse ao seu coordenador que o laboratório de computação estava crescendo e que seria preciso comprar um disco rígido novo, de 1 terabyte. “Ele me respondeu que a gente nunca iria encher um disco de 1 tera. Hoje, é o que tem em um notebook.”
Segundo Rocha, a Unicamp tem, atualmente, mais de 400 pessoas pesquisando IA. “Certamente, somos o maior grupo em uma instituição brasileira.”


Nova era
Alex Castellano, partner business manager da Nvidia, destacou que, na Unicamp, estão sendo feitas pesquisas que vão marcar “os próximos acontecimentos do mundo”. Durante a apresentação, contou a curiosa história do desenvolvimento da empresa. “A Nvidia só está desse tamanho hoje porque começou fomentando a área de pesquisa, nada nasceu de uma hora para outra. Em 2012 houve o primeiro contato de um algoritmo modelo de IA com uma GPU. Em 2016, a gente construiu um supercomputador com oito GPUs espetadas, mas ninguém queria comprar, na verdade, ninguém sabia do que se tratava”, relata.
A Nvidia, com sede em São Francisco, nos EUA, finalmente encontrou um comprador. “Um dia, tocou o telefone de uma empresa interessada, era em uma cidade próxima, o diretor decidiu levar o equipamento de carro, ele mesmo foi dirigindo. Lá, lamentou ao descobrir que a empresa era sem fins lucrativos. Para encurtar a história, era a OpenAI. Naquela época, foi preciso oito meses para lançar o primeiro ChatGPT. Hoje, com o poder computacional que temos, eles levariam oito minutos.”
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