
Livro expõe influência das ideias de Lombroso na América Latina
Obra explora diferentes campos de pesquisa para entender os desdobramentos do lombrosianismo nas ciências sociais
Livro expõe influência das ideias de Lombroso na América Latina
Obra explora diferentes campos de pesquisa para entender os desdobramentos do lombrosianismo nas ciências sociais

A galáxia Lombroso: a extraordinária popularidade de Cesare Lombroso e do lombrosianismo na América Latina, de Livio Sansone, apresenta um estudo detalhado sobre como as ideias de Cesare Lombroso, especialmente em relação à raça, influenciaram, direta e indiretamente, a consolidação das ciências sociais na América Latina, sobretudo no Brasil.
A obra busca analisar em profundidade a chamada “galáxia Lombroso” – uma rede internacional que, em um primeiro momento, girava em torno do psiquiatra e antropólogo italiano, mas que posteriormente gerou subcentros comandados por seus próprios alunos. Para isso, recorre à mobilização de diferentes áreas de pesquisa – história do racismo e do pensamento racial, criminologia, psiquiatria, medicina, antropologia, entre outras – e a análises sobre as interpretações do lombrosianismo ao redor do mundo, além de apresentar seus desdobramentos após a morte de Lombroso. O objetivo é mapear detalhadamente essa galáxia e demonstrar sua real dimensão.
Ao Jornal da Unicamp, Sansone compartilhou as motivações que o levaram à escrita, os processos de estudo, as dificuldades encontradas e sua visão sobre a influência dessas ideias na atualidade.
Jornal da Unicamp – Como surgiu a ideia de escrever o livro? Houve algum episódio específico ou lacuna na literatura especializada que motivou essa pesquisa?
Livio Sansone – Sempre me intrigaram os autores execrados, muitas vezes muito citados e pouco lidos. Na história do pensamento racial, que já trata de um tema com tons de exagero, absurdo e anticientificismo, dar mais atenção a esses autores me parece de suma importância – sobretudo no caso de Cesare Lombroso, o autor italiano mais citado internacionalmente em toda a história das ciências sociais. Percebi a relevância de suas ideias – os lombrosianismos, por exemplo – em uma palestra que ministrei, em 2002, para um curso de mestrado em direitos humanos no Rio de Janeiro: os alunos, em sua maioria advogados e juristas progressistas, ainda o chamavam de “mestre”.
JU – Na introdução do livro, o senhor comenta que seria necessário ser um “especialista nos vários campos de pesquisa abordados”. Como foi o processo de estudo prévio à escrita, considerando essa complexidade interdisciplinar?
Livio Sansone – Construí minha carreira de antropólogo pesquisando as relações raciais e seus sistemas de classificação por meio de trabalho de campo, sobretudo etnografia com grupos subalternos na Inglaterra, na Holanda, no Suriname e, desde 1992, no Brasil. Para chegar à raiz do pensamento racial, como faço neste livro, tive que me reinventar como etnógrafo nos arquivos, aprendendo a explorar seus segredos – suas pérolas, mas também suas ausências – imitando os mestres historiadores, sem, no entanto, deixar de lado o gosto pelos detalhes, pelo “fuxico” que os arquivos também contêm. As leituras envolveram várias línguas e textos escritos a partir de meados do século XIX. De certa forma, foi também um retorno à Itália e à sua grande tradição de estudos sobre o século XIX.
JU – O livro aborda a “galáxia Lombroso” como uma rede internacional de ideias e influências. Como o senhor analisa o impacto dessa rede no contexto atual das ciências sociais?
Livio Sansone –A galáxia Lombroso foi particularmente influente nas ciências sociais em toda a América Latina até os anos 1920. Aquela postura que chamo de “lombrosianismo” persistiu até a Segunda Guerra Mundial, principalmente nas áreas marginais das ciências sociais, como psiquiatria, endocrinologia, ciências policiais e antropologia forense. A partir do final dos anos 1930, com a criação tardia de universidades no Brasil e a crescente relevância dos intercâmbios com a França e, sobretudo, com os EUA, em um contexto em que a América Latina já ocupava uma posição subalterna, as influências da Escola Positiva italiana foram relegadas ao passado, embora ainda exerçam certa influência no senso comum.
JU – Como foi o processo de pesquisa nos diferentes países da América Latina? Quais foram os principais desafios?
Livio Sansone – Minha pesquisa se concentrou no Brasil, na Argentina e em Cuba. Se tivesse tido mais tempo, certamente teria continuado investigando outros países onde a galáxia teve grande impacto – em primeiro lugar o México e, depois, a Colômbia, o Chile, a Bolívia e o Peru. A grande vantagem foi não precisar de vistos (em Cuba, o visto é concedido no aeroporto). O desafio maior foi a precariedade dos arquivos, mesmo de autores “lombrosianos” como Fernando Ortiz, José Ingenieros e, ainda mais, Nina Rodrigues, além do alcance ainda limitado da digitalização e da disponibilização on-line de jornais importantes, como o La Nacion, de Buenos Aires, e O Estado de São Paulo.
JU – Ao longo da pesquisa, qual foi o aspecto mais surpreendente ou inesperado sobre a repercussão das ideias de Cesare Lombroso na América Latina?
Livio Sansone – A grande sintonia entre a tradição fisionômica italiana – a tentativa de interpretar o comportamento a partir da observação do corpo e das expressões – e a forma de interpretar e organizar as relações sociais e raciais na América Latina, que funciona muito mais pela aparência do que por alguma essência racial. De resto, tanto a Itália como os países da nossa região são sociedades, digamos, barrocas. Este seria, talvez, o verdadeiro elo entre os países “latinos”.
JU – De quais maneiras a obra pode contribuir para o entendimento das questões raciais no Brasil hoje?
Livio Sansone – Minha pesquisa corrobora, entre outras coisas, que a relevância do lombrosianismo não se deve à sua suposta exatidão científica, mas ao fato de se encaixar bem nas prioridades das elites intelectuais da época, com foco na interpretação do comportamento de determinados grupos tidos como problemáticos a partir de sua estética. A pesquisa também mostra como a autoimagem do Brasil, e sua questão social e racial, foi e continua sendo construída e avaliada a partir de modelos externos, assim como de reinterpretação de teorias “que vêm de fora” e que são sabida e convenientemente antropofagizadas – antes da Itália e, mais tarde, da França e, sobretudo, dos EUA. Foi e continua sendo um grande jogo de espelhos.


Título: A galáxia Lombroso: a extraordinária popularidade de Cesare Lombroso e do lombrosianismo na América Latina
Organização: Livio Sansone
Edição: 1ª
Ano: 2024
Páginas: 240
Dimensões: 16 cm x 23 cm

