A busca por equidade no futsal feminino
A busca por equidade no futsal feminino
Estudo identifica desafios de jogadoras e de times de elite na modalidade

Entre os dias 21 de novembro e 7 de dezembro de 2025, atletas de 16 países estarão reunidas nas Filipinas em um evento inédito: a primeira edição da Copa do Mundo Feminina de Futsal. Sob o comando do técnico Wilson Saboia, as brasileiras chegam ao campeonato com grande potencial de trazer a vitória ao país. Em agosto, a seleção conquistou o tricampeonato do Torneio Internacional de Futsal Feminino, sediado na cidade de Xanxerê (SC). Antes disso, a equipe já havia sido campeã invicta nas cinco edições do Torneio Mundial organizado pela Federação Internacional de Futebol (Fifa), entre 2010 e 2015. A realização do campeonato foi interrompida com a justificativa de que a Federação concentraria seus esforços na organização da Copa do Mundo da modalidade — projeto concretizado apenas agora, em 2025.
As oportunidades de representar o país em campeonatos internacionais oficiais são bem diferentes para jogadores da modalidade masculina. Para eles, a Copa do Mundo da Fifa ocorre desde 1989 e, se comparado ao futebol de campo, a discrepância é ainda maior. Enquanto o primeiro mundial masculino foi o histórico campeonato de 1930, no Uruguai, a competição oficial de mulheres surgiu só em 1991. Mas esta é apenas a ponta de um iceberg de desafios enfrentados por jogadoras de futsal na busca por oportunidades de se desenvolver e se profissionalizar no esporte, que vão desde a infraestrutura deficitária aos menores investimentos e patrocínios, que possibilita a dedicação integral de jogadoras e treinadoras(es).
Na busca por identificar como esses desafios se refletem em diferentes contextos da prática esportiva, uma pesquisa da Faculdade de Educação Física (FEF) da Unicamp, em parceria com instituições portuguesas e inglesas, analisou a realidade de jogadoras e treinadores de equipes de futsal de alto rendimento de Portugal. Por meio de entrevistas, Júlia Barreira, professora da FEF, questiona se o desenvolvimento do esporte tem implicado a promoção da equidade ou um reforço das desigualdades de gênero. Os resultados foram publicados em um artigo no European Journal for Sport and Society.
Jogo duro
A escolha de Portugal para a condução da pesquisa se deve a fatores que chamam a atenção de Barreira, como o crescimento do esporte no país na última década — 85,5% de aumento no número de jogadoras, segundo a Federação Portuguesa de Futebol —, projetos desenvolvidos em escolas de incentivo à participação de garotas na modalidade, e políticas recentes implementadas no país para igualar as condições entre homens e mulheres. No entanto, a pesquisadora aponta que o foco na igualdade de condições, ao invés da promoção da equidade, de forma a implementar adaptações que se mostrarem necessárias e que atendam a demandas específicas das equipes, a tendência é que haja um reforço da cultura machista em quadra. “Homens e mulheres estão em processos diferentes de desenvolvimento e as políticas esportivas precisam ser específicas para o contexto em que elas se encontram”, defende Barreira.


Um exemplo disso foi a reprodução do formato dos campeonatos masculinos para as mulheres. A professora explica que a dinâmica adotada previa jogos entre times do Norte com equipes do Sul do país, exigindo longos deslocamentos. “Isso não é possível para times em que as jogadoras não se dedicam integralmente ao esporte”, afirma. De acordo com ela, a melhor opção seria realizar campeonatos regionais, adaptados à realidade da maior parte das jogadoras e dos times: muitas treinam apenas de duas a três vezes por semana, no período noturno, após suas jornadas de trabalho, em quadras e ginásios com estruturas inferiores se comparadas aos clubes masculinos. Isso se reflete em um desempenho aquém de seu potencial. “Porém, esse desempenho nunca vai melhorar se a modalidade não receber um maior investimento”, alerta. “Para que a estrutura competitiva siga o modelo adotado pelos times masculinos, é necessário oferecer suporte para que as atletas possam se dedicar integralmente ao esporte, assim como as comissões técnicas”.
Os treinadores dos times enfrentam alguns dos mesmos desafios, como a dupla jornada e o baixo investimento. Outra questão que dificulta sua atuação é a composição dos times. Como o incentivo ao futsal na infância é baixo entre as garotas, grande parte das jogadoras dá início à prática sistemática entre 13 e 14 anos e compartilham espaço com veteranas acima dos 30 anos. Essa diferença profunda nos perfis impede que seja feito um trabalho direcionado para a formação esportiva integral, fazendo com que se preocupem sempre com o próximo jogo. “Não queremos um treinador que fique na beira da quadra cantando o jogo, dizendo o que as jogadoras devem fazer. Queremos atletas inteligentes dentro e fora de quadra”. Ao fim e ao cabo, mesmo reconhecendo os desafios e assimetrias, as jogadoras evitam contestar as condições e preferem deixar a bola rolar. “Elas correm o risco de perder o pouco que foi conquistado. Isso não apenas no futsal, mas no esporte de mulheres em geral”.
COM A BOLA TODA


Na comparação com o cenário português, Barreira avalia que o futsal de mulheres brasileiro está em vantagem em relação à estrutura e organização. Segundo a docente, muitos clubes contam com financiamento e apoio do poder público, o que é importante para sua sustentabilidade. Ela destaca os exemplos do Esporte Clube Taboão, de Taboão da Serra (SP), eleito o melhor clube de futsal de mulheres do mundo em 2024 pelo ranking Futsalplanet, e o Leoas da Serra, de Lages (SC). Nos dois casos, há o incentivo ao esporte desde cedo, em treinos voltados a crianças e adolescentes.
A pesquisadora comenta que a realização da primeira copa do mundo da modalidade deve estimular a produção científica sobre o esporte, o que contribui com o desenvolvimento de treinadores e jogadoras. Ela também acredita no crescimento do futsal de mulheres no país acompanhando o do futebol de campo. Isso porque muitos clubes aproveitam a capilaridade que o futsal consegue ter para descobrir e desenvolver novos talentos. “A maior parte das escolas públicas ou privadas têm pelo menos uma quadra. Um campo de futebol já é bem mais difícil”, explica Barreira. “Pesquisar o futsal é dialogar mais com a comunidade”.
