Pronta para a quarta onda
Em seis décadas de existência, Universidade experimentou três fases de desenvolvimento e está às portas de mais uma

Às vésperas de celebrar seu 60º aniversário, na próxima segunda-feira (5/10), a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) projeta o início de uma nova fase de expansão e consolidação institucional. A Universidade, que se estabeleceu como um dos principais polos de ensino e pesquisa da América Latina, planeja agora ampliar a oferta de vagas e cursos, fortalecer parcerias estratégicas com o Sul Global e reafirmar sua liderança acadêmica no continente. Esse novo ciclo representa o quarto grande processo de transformação em uma trajetória de seis décadas.
Na origem de sua fundação, em meio ao cenário político conturbado da ditadura militar, a Unicamp atraiu grandes nomes do pensamento e da ciência nacional, ganhando o apelido de “escola das escolas” – resultado de uma pós-graduação de alta qualidade e a capacidade de formar os docentes que iriam estruturar o ensino superior no país.

Nas décadas seguintes, essa base sólida impulsionou uma segunda fase, marcada pelo avanço científico, pela inovação e pelo desenvolvimento tecnológico — vertentes que se tornaram marcas registradas do perfil acadêmico da instituição. Sua influência foi tão forte que acabou transformando a região de Campinas num polo tecnológico reconhecido no país.
Mais recentemente, a Universidade vivenciou uma terceira onda de transformações ao priorizar políticas de inclusão e acesso, num movimento que resultou em corpos docente e discente consideravelmente mais diversos e plurais.
Agora, com os olhos no futuro, a Unicamp busca aliar a excelência acadêmica acumulada nestes 60 anos a um processo de forte expansão, ao fortalecimento das práticas de sustentabilidade e a colaborações prioritárias – e perenes – com parceiros do Sul Global.
“Tenho a clareza de que a Unicamp está pronta para dar mais esse salto em sua trajetória já vencedora”, disse o reitor da Unicamp, professor Paulo Cesar Montagner, referindo-se às metas de de curto e médio prazo da Universidade.

“Eu acho que a Universidade está não apenas preparada para este novo momento como também colocando todos os mecanismos necessários para que isso possa acontecer”, disse o coordenador-geral Fernando Coelho.
“A partir do momento em que começamos a discutir outras formas de financiamento da nossa área de saúde, os recursos podem e vão ser direcionados para pensar numa Universidade de Campinas completamente diferente, que possa atender a outras demandas no que se refere à formação profissional, outros cursos de graduação. Isso exige aumento de infraestrutura física e todo um planejamento de crescimento que a Universidade tem não apenas para o campus de Campinas, mas também pensando em Limeira e Piracicaba”, acrescentou Coelho (veja texto abaixo).
A “escola das escolas”
O primeiro presidente da ditadura militar que governou o Brasil por 21 anos, marechal Humberto de Alencar Castelo Branco, esteve presente na cerimônia do lançamento oficial da pedra fundamental do campus de Barão Geraldo, em 5 de outubro de 1966, que marcou a fundação da Unicamp.
A pedra fundamental foi lançada numa gleba de 30 alqueires, doada por João Adhemar de Almeida Prado, localizada a 12 quilômetros do centro de Campinas. Receberam autorização para instalação e funcionamento os Institutos de Biologia, Matemática, Física e Química e as Faculdades de Engenharia, Tecnologia de Alimentos, Ciências e Enfermagem, além dos Colégios Técnicos.


Presidente da comissão que elaborou a proposta de criação da Universidade, o professor Zeferino Vaz foi nomeado reitor. Permaneceu no cargo por longo período – de 1966 a 1978 – e teve de contornar grandes dificuldades.
A ditadura perseguiu e prendeu opositores; desfechou ataques diretos a universidades – USP e a UnB (Universidade de Brasília), entre outras, mas Zeferino viu na crise uma oportunidade de fortalecer a Universidade recém-criada. Acolheu alguns dos mais importantes professores e cientistas do país, muitos deles perseguidos pelos militares, e com isso fez história.
Zeferino Vaz trouxe para a Unicamp nomes consagrados dentro e fora do país, como os físicos César Lattes, Sérgio Porto e Rogério Cezar de Cerqueira Leite, que desempenharam papéis fundamentais na criação, organização e consolidação do Instituto de Física Gleb Wataghin (IFGW), transformando-o em um dos maiores e mais respeitados centros de pesquisa científica da América Latina.
Contratou também Antônio Cândido (um dos maiores críticos literários e ensaístas do Brasil), o sociólogo Octávio Ianni (com vasta obra sobre a questão racial no Brasil), o filósofo e tradutor Fausto Castilho, ou o médico sanitarista Sérgio Arouca (figura essencial para a concepção e criação do SUS).
Economistas como Luiz Gonzaga Belluzzo, João Manuel Cardoso de Mello e Maria da Conceição Tavares ajudaram a criar o Instituto de Economia da Unicamp, que se transformou no celeiro do pensamento econômico heterodoxo e desenvolvimentista no Brasil.

Como consequência da boa reputação que construiu, já no período da redemocratização a Unicamp passou a fornecer com grande frequência quadros para o primeiro escalão dos governos federal e paulista, influenciando na criação e implementação de políticas públicas.
Assim, com uma pós-graduação forte e professores de alta qualidade, Vaz construiu a imagem que marcaria a história da Unicamp: “a escola das escolas”, que ensina os que vão ensinar.
Tecnologia e inovação
Responsável por cerca de 7% da pesquisa realizada no Brasil, a Unicamp forma aproximadamente 5.500 profissionais por ano, entre doutores, mestres e bacharéis e licenciados. Figura hoje entre as principais universidades do país e da América Latina, segundo rankings internacionais como THE e QS.
Das salas de aula da Unicamp saíram 1.758 empresas-filhas, que já geraram 54.524 empregos diretos e, em 2025, obtiveram faturamento de R$ 28 bilhões – quase seis vezes mais que o orçamento anual da Universidade repassado pelo governo do estado.

Por meio de sua agência de inovação Inova Unicamp, a Universidade contabiliza hoje 1.374 patentes em vigência, sendo 90 concedidas só no ano passado.
A estrutura de pesquisa da Unicamp é composta por 24 unidades de ensino, pesquisa e extensão, 23 centros e núcleos interdisciplinares de pesquisa, 38 grandes centros temáticos e 4 grandes centrais de equipamentos multiusuários vinculados a programas de agências de fomento como a Fapesp, CNPq e Embrapii.
Conta ainda com dezenas de laboratórios de última geração, que oferecem infraestrutura de excelência para o desenvolvimento de pesquisas em todas as áreas do conhecimento.
A Universidade reúne 712 grupos de pesquisa cadastrados no CNPq, atuando em 2.500 linhas de pesquisa e conectados a uma rede de 399 instituições parceiras no Brasil e no exterior, consolidando um ambiente altamente colaborativo e de forte inserção global.
Montagner lembra que, ao longo dos anos, a Unicamp manteve o propósito de buscar o conhecimento de ponta e garante que continuará fazendo isso nas próximas décadas. “A Universidade já pensa num futuro de inteligência artificial, no papel das tecnologias quânticas e em muitas dessas coisas que já estão próximas da Universidade como pesquisa, mas que ainda parecem muito distantes da população”, avalia o reitor.
Inclusão e diversidade
O terceiro salto de transformação registrado na Unicamp se deu já neste século, com a intensificação das políticas de democratização no acesso. Foram adotados sistemas de cotas raciais (para pretos, pardos, indígenas), para pessoas com deficiência, para indivíduos transgênero e para alunos provenientes de escolas públicas.
Em menos de uma década, o sistema de cotas e formas alternativas de ingresso mudaram a demografia do campus: a Unicamp passou de uma Universidade onde menos de um quinto dos calouros eram negros, e dois terços vinham de escolas privadas, para um modelo onde praticamente metade dos novos alunos são da rede pública e mais de um terço se definem como pretos, pardos ou indígenas.

Até 2018 (antes da implementação do sistema de cotas) os autodeclarados pretos e pardos representavam cerca de 15% a 18% dos alunos ingressantes. No período 2025–2026, o número chegou a 35,7% dos aprovados, duplicando o nível registrado antes da adoção das ações afirmativas.
Dos aprovados em primeira chamada no vestibular 2026, 49,5% vieram do ensino médio público (1.781 estudantes).
No orçamento de 2025, a Unicamp destinou mais de R$ 140 milhões para o custeio de bolsas, benefícios, auxílios-transporte, infraestrutura de moradia e subsídio de alimentação aos alunos de graduação e pós-graduação.
A democratização no acesso não interferiu no desempenho da Universidade. De acordo com os World University Rankings, elaborados pela consultoria britânica Quacquarelli Symonds (QS), divulgado nesta quarta-feira (30\9) a Unicamp manteve a 3ª posição entre as universidades da América Latina e Caribe.
O QS World University Rankings: Latin America & The Caribbean é um ranking que avalia o desempenho das universidades da região a partir de oito indicadores associados à reputação acadêmica, reputação junto a empregadores, produção e impacto científico, condições de ensino, qualificação do corpo docente, internacionalização da pesquisa e presença institucional na web. Na edição de 2027, o ranking reuniu instituições de 27 países e territórios da América Latina e do Caribe.
Coelho diz que as políticas afirmativas em desenvolvimento na Universidade nos últimos anos trouxeram “riqueza” para o ambiente universitário.
“As políticas trouxeram para dentro da Universidade aquilo que eu vou chamar de representatividade nacional. O fato de o Brasil ser um país diverso, que convive com diferentes cores e nacionalidades, é um fator, no meu entender, de grande riqueza”, acrescentou.
Expansão
A quarta onda de desenvolvimento está em processo e deverá se dar em três grandes frentes, de acordo com a expectativa da Reitoria.
Uma delas virá do aumento no número de vagas e cursos. Esse processo já começou. Em 2027, entram em operação os cursos de Relações Internacionais e Ciência de Dados e de Inteligência Artificial, em Limeira, mas o processo deverá ganhar mais impulso com as alterações previstas na forma de financiamento do setor de saúde da Universidade, que hoje custa por volta R$ 1 bilhão por ano. A reitoria negocia a possibilidade de o governo estadual cobrir esse custo – que hoje sai do orçamento anual da Universidade.
Se for aprovada pelo governo paulista, essa mudança no financiamento – que já foi referendada pelo Conselho Universitário – permitirá ampliar o número de cursos e vagas oferecidas nos vestibulares, contratar mais professores e servidores e readequar a infraestrutura de prédios e laboratórios.
O projeto original de expansão prevê que, até 2036, com o aumento no número de cursos, haverá o ingresso de 11.500 alunos adicionais de graduação e pós e a contratação de mais de 2.000 novos servidores – sendo 614 docentes e de 1.390 funcionários.
HIDS
A segunda frente desta quarta onda está relacionada ao HIDS (Hub Internacional e Desenvolvimento Sustentável), um distrito de inovação que está sendo implantado em uma área de 11,3 km2 no campus de Barão Geraldo e que pretende organizar-se como um espaço de aplicação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU (Organização das Nações Unidas).
O HIDS Unicamp vai abrigar empresas de tecnologia, mas deverá funcionar também como um laboratório vivo. Terá a dinâmica de uma cidade, com residências, serviços, circulação de carros e transporte coletivo.

A terceira frente, por sua vez, está relacionada à internacionalização da Universidade, com a intensificação no relacionamento com instituições do chamado Sul Global.
Montagner diz que a Unicamp não quer abrir mão das interações já consolidadas com os países europeus, da América do Norte ou Japão, mas avalia que está em curso um deslocamento da pesquisa científica e do desenvolvimento científico e tecnológico para o Sul, com forte presença dos chineses e indianos. “Valorizamos, e vamos continuar valorizando, as parcerias já tradicionais com os países do Norte, mas queremos ampliar as interações Sul-Sul”, antecipou. Para isso, pretende intensificar interações com instituições africanas e da América Latina e Caribe.
Em junho de 2025, por exemplo, Montagner recebeu o secretário-geral da União das Universidades da América Latina e Caribe (Udualc), Roberto Escalante, e manifestou que a Universidade pretende expandir as interações com as instituições de ensino superior da região.
O reitor lembrou que a Unicamp e a Udualc têm um histórico de colaboração que remonta aos anos 1980, mas que ainda pode crescer. Nos dias 21 e 22 de setembro deste ano, a Udualc realizou na Unicamp sua 10ª assembleia regional Brasil-Cone Sul.
Instituída em 1949, a Udualc é a maior e mais antiga rede de instituições de ensino superior da região. A rede foi dividida em seis sub-regiões: Andina, América Central, Caribe, Cone Sul, México e Brasil. No total, conta com 236 instituições afiliadas, de 24 países.
O objetivo é fazer a articulação de esforços entre essas instituições de ensino, além de promover intercâmbio de conhecimentos, experiências e recursos.
Nos últimos anos, a Unicamp também tem feito aproximações com universidades localizadas na África, como a Universidade de Maputo (Moçambique), e instituições de Angola, Zâmbia e Cabo Verde, entre outras.
Há, ainda, aproximações com os BRICS, comunidade formada pelo Brasil, África do Sul, Índia, China, Rússia e outros grandes países emergentes. Além disso, várias universidades chinesas buscaram acordos com a Unicamp nos últimos anos.
No segundo semestre de 2026, a Universidade registrou um número recorde de matrículas de estudantes internacionais. Foram 201 candidatos, alta de 63% em relação aos 123 registrados em agosto de 2025.
De acordo com a Diretoria Executiva de Relações Internacionais (Deri), os novos alunos vêm de 26 países das Américas, Europa, Ásia e África. Peru e Colômbia lideram o ranking, com mais de 30 matriculados cada um.


Fernando Coelho lembra que a Unicamp não quer perder as interações que mantém hoje com instituições da Europa, Japão ou América do Norte, mas vê certo deslocamento do processo de internacionalização.
“Quando a gente falava em internacionalização, a primeira coisa em que se pensava era o eixo Norte – Europa, Estados Unidos, Canadá etc. Mas, com isso, estamos perdendo muitas chances de promover excelentes interações envolvendo troca de estudantes, de docentes e de projetos em colaboração, pensando na América Latina, no Caribe, na África, na Ásia”, lembra Coelho. “Portanto, acho que hoje a Universidade estabeleceu mais um eixo de crescimento, que é exatamente fazer também a internacionalização no Sul Global”, conclui.
Confira a linha do tempo da Unicamp:
Assista ao vídeo produzido pela SEC:
Foto de capa:


