Ex-reitores destacam papel da universidade pública no desenvolvimento do país
Autonomia e liberdade são apontados como fundamentais para a produção de conhecimentos que gerem avanços e beneficiem a sociedade

Ao longo de 60 anos, a Unicamp teve sua trajetória marcada pela produção de conhecimento, formação de profissionais e protagonismo em iniciativas que beneficiam diretamente a sociedade nas mais diversas áreas. Para isso, algo foi fundamental desde o seu primeiro dia: a defesa de uma universidade pública de qualidade. Testemunhas dessa jornada de preservação e fortalecimento, sete dos ex-reitores falaram sobre essa estratégia de tornar o ambiente acadêmico cada vez mais inclusivo, diverso e com os olhos abertos ao mundo. Ou seja, que faz a Unicamp ter a cara do Brasil.
Desde sua fundação, em 5 de outubro de 1966, a Universidade foi estruturada a partir da valorização da pesquisa e da reunião de um corpo acadêmico qualificado. Para o professor Antonio José de Almeida Meirelles, o Tom Zé, reitor entre 2021 e 2024, a estratégia adotada pelo fundador e primeiro reitor, Zeferino Vaz, ajudou a estabelecer uma cultura de excelência que permitiu à Universidade antecipar demandas científicas e tecnológicas.

A criação pioneira do curso de Ciência da Computação e a rápida implantação da pós-graduação em Engenharia de Alimentos são citadas por Meirelles como exemplos de como a instituição buscou formar pessoas e produzir conhecimento considerando as necessidades futuras do país.
Essa capacidade de contribuir para questões nacionais se estendeu. O engenheiro de alimentos destaca a participação da Universidade em debates sobre políticas econômicas, saúde pública, a criação da fibra óptica, biocombustíveis e energias renováveis. “Nosso papel é mostrar, de fato, que ciência e tecnologia fazem a diferença na vida das pessoas. A Unicamp sempre esteve muito vinculada a temas como desenvolvimento, inclusão e justiça”, afirma Meirelles. professor titular da Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA).
Antonio Meirelles, hoje diretor administrativo da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), também relaciona essa capacidade científica e tecnológica à autonomia do país. A pandemia de Covid-19, segundo ele, evidenciou os riscos da dependência externa em setores estratégicos e reforçou a necessidade de desenvolver capacidade própria. “Isso tem que ser pensado como uma política de Estado, para ganharmos autonomia nos mais variados setores. E, para isso, é preciso investir em pesquisa, com apoio governamental e também empresarial”, comenta. “É preciso fazer com que o conhecimento produzido na academia alcance a sociedade”, opina.
Conhecimento

José Martins Filho, que esteve à frente da Unicamp entre 1994 e 1998, também destaca a relação entre universidade pública e necessidades sociais. Como médico pediatra, desenvolveu, com apoio da Universidade, trabalhos sobre nutrição infantil e aleitamento materno em diferentes regiões do país. A experiência, segundo ele, demonstra como ensino e pesquisa podem estar associados a problemas concretos da população. Ao projetar o futuro da Unicamp, Martins Filho defende a manutenção do apoio público e da capacidade de pesquisadores estabelecerem parcerias e captarem recursos.
“A universidade pública tem uma função que ultrapassa a formação profissional. É também um espaço de produção de conhecimento e de reflexão sobre os desafios nacionais e internacionais. Ela não é só um gerador de diplomas, mas também um lugar de pensamento e de reflexão sobre o que a sociedade precisa para continuar progredindo”, aponta o professor. “A diversidade de ideias e a educação científica são elementos importantes para o desenvolvimento econômico e social”, acrescenta Martins Filho, professor emérito que atuou na Faculdade de Ciências Médicas (FCM).
Autonomia
Para Fernando Costa, médico que ocupou a Reitoria de 2009 a 2013, a qualidade da universidade pública está diretamente relacionada à formação de seu corpo docente, autonomia e liberdade de pesquisa e ensino. “Desde a fundação, Zeferino Vaz procurou reunir profissionais qualificados do Brasil e do exterior. Essa estratégia ajudou a estabelecer um padrão acadêmico que permanece como uma das características da Unicamp”, destaca.

Na avaliação do professor emérito, as universidades públicas desempenham papel central na produção científica e na formação de profissionais no Brasil. Ele reforça a ideia de que grande parte da pesquisa científica de alcance internacional produzida no país está concentrada nessas instituições. “Boa parte da formação de engenheiros, médicos, físicos, químicos, biólogos e de professores, por exemplo, repousa hoje nas universidades públicas”, diz. “Nesse cenário, é essencial preservar a qualidade e o dinamismo dessas instituições e manter o seu modelo de financiamento e autonomia. Não podemos deixar a universidade pública perder qualidade e dinamismo”, ressalta Costa.
Ele lembra ainda que a consolidação da Unicamp ocorreu apesar de todas as dificuldades enfrentadas desde sua origem. A Universidade nasceu em um período de forte turbulência política no Brasil, mas, para o professor e médico, a instituição conseguiu preservar sua autonomia e objetivos acadêmicos. Para ele, a independência institucional e a liberdade de pesquisa e de ensino são fundamentais para que uma universidade cumpra seu papel no desenvolvimento do país. “É preciso manter a autonomia, a liberdade de pesquisar e de ensinar”, conclui o Costa que atua como professor sênior da FCM.
Comunidade

A importância da comunidade acadêmica e do caráter público da instituição também é destacada pelo reitor do período 2002-2005 e professor emérito, Carlos Henrique de Brito Cruz. Para ele, a trajetória da Unicamp foi construída pela participação de professores, estudantes e funcionários, além da presença de pesquisadores com experiência internacional e da aproximação com empresas e a sociedade. “É preciso valorizar as ideias dos professores, alunos e servidores. Sempre surgem bons caminhos a seguir”, ensina.
Brito Cruz considera a defesa da universidade pública e gratuita um valor permanente. “A Unicamp sempre esteve comprometida com a excelência do ensino, pesquisa e extensão”, afirma. Durante sua gestão, entre outras iniciativas, ele destaca a ampliação das vagas de graduação e a criação da Agência de Inovação da Unicamp (Inova). “Decisões desse tipo foram construídas a partir do diálogo entre diferentes setores da Universidade. Dessas disputas é que nascem ideias que põem a universidade para a frente”, celebra o atual vice-presidente sênior de Redes de Pesquisa na Elsevier, com base em Oxford, no Reino Unido.
Para o professor titular do Instituto de Física Gleb Wataghin (IFGW), a inserção internacional também é parte desse processo, ao permitir que a Universidade compartilhe experiências e acompanhe diferentes caminhos para a pesquisa e o ensino superior.
Desenvolvimento
Para o professor da Faculdade de Engenharia Agrícola (Feagri) José Tadeu Jorge, reitor por dois mandatos – 2005-2009 e 2013-2017 –, a própria origem da Unicamp demonstra a importância de uma universidade pública conectada às necessidades da sociedade. Ele lembra que o projeto concebido sob a liderança do fundador Zeferino Vaz já procurava, desde os seus primeiros passos, estabelecer um diálogo com diferentes setores. O objetivo era o desenvolvimento regional, que se expandiu para o globo ao longo de seis décadas.

A integração entre graduação, pós-graduação e pesquisa também foi, de acordo com Tadeu Jorge, fundamental. O modelo permitiu aproximar os estudantes da produção científica e fortalecer a pesquisa. “Foi criada essa sinergia entre graduação e pós-graduação que otimiza, potencializa e catalisa a produção científica”, explica ele.
Tadeu Jorge também cita iniciativas práticas de aproximação com a sociedade, como a universidade aberta à terceira iIdade (UniversIDADE) e a Unicamp de Portas Abertas (UPA), proposta que ganha mais amplitude a cada ano – foram 64 mil participantes em sua 21ª edição, realizada no último dia 22 de agosto.
Em relação ao futuro, o ex-reitor considera necessário atualizar o diálogo da Universidade com um tecido social e um cotidiano cada vez mais complexos. “A inteligência artificial, por exemplo, exige não apenas pesquisa e desenvolvimento tecnológico, mas também reflexão sobre seus impactos sociais. Nesse cenário, permanece a missão de produzir conhecimento e transformá-lo em benefícios para a população”, sugere o professor.
Valorização
O físico Marcelo Knobel, reitor entre 2017 e 2021, reforça a ideia de que a trajetória da Unicamp está diretamente relacionada à valorização das pessoas, autonomia universitária e liberdade acadêmica. Ele lembra que Zeferino Vaz buscou reunir pesquisadores e intelectuais de destaque para formar a instituição; as melhores cabeças que seria possível recrutar pelo Brasil e Exterior. Com esse objetivo, o fundador já semeava a diversidade de pensamento como condição fundamental.
Como seus colegas ex-reitores, Knobel defende que pesquisa, ensino e extensão devam permanecer articulados à divulgação científica e ao contato direto com a sociedade. “Sem boa ciência, sem boas universidades, nenhum país tem futuro”, define o professor, autor do livro Reflexões sobre educação superior: a universidade e seu compromisso com a sociedade, iniciativa de aproximar o mundo acadêmico de um público mais amplo, colocando a ciência no cotidiano das pessoas.

Vale citar que o ex-reitor esteve ligado à Unicamp por toda a sua vida. Seu pai, Maurício Knobel, professor emérito da Universidade e um dos maiores nomes da psiquiatria na América Latina, deixou a Argentina após o golpe militar de 1976 e veio com a família para Campinas. Entre tantas atividades, ajudou a reestruturar o Departamento de Psiquiatria e Psicologia Médica da Faculdade de Ciências Médicas (FCM). A mãe dele, Clara Freud de Knobel, psicóloga, atuou no Hospital da Mulher Prof. Dr. José Aristodemo Pinotti (Caism-Unicamp). A irmã, Roxana Knobel, graduou-se e pós graduou-se em Medicina pela FCM.
Knobel também construiu sua trajetória acadêmica e administrativa no campus. “Fiz aqui toda a minha vida, a minha carreira. Tudo que eu conquistei foi graças à Unicamp e às pessoas que nela trabalham”, agradece. Atualmente, assumiu o cargo de diretor executivo da Academia Mundial de Ciências da Unesco.
Transformação
Para linguísta Carlos Vogt, reitor entre 1990 e 1994, a história da Unicamp demonstra a importância de uma universidade pública que articula pesquisa, ensino, desenvolvimento tecnológico e reflexão sobre o mundo que a cerca. Nada de muros; é preciso dialogar com a vida no entorno. “Duas concepções estavam presentes desde a origem da instituição: o compromisso com o desenvolvimento científico, tecnológico e econômico do país e a integração entre ensino e pesquisa”, define o professor do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL).

O professor, também coordenador do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) da Unicamp, faz questão de lembrar da contribuição do colega Fausto Castilho para a criação do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) e a posterior integração entre as áreas de ciências, tecnologia e humanidades, que proporcionou a concretização do ideal de pluralidade de pensamentos. Essa característica, segundo Vogt, ajudou a Universidade a participar de debates nacionais em áreas como tecnologia e desenvolvimento econômico.
Durante sua gestão na Reitoria, ele aponta aquelas voltadas à formação de docentes e qualificação de servidores, algo importante para ampliar a presença da Universidade no cenário nacional e internacional.
Olhando para o futuro, Vogt considera fundamental adaptar a estrutura universitária às novas formas de produção do conhecimento. “Áreas como biotecnologia e inteligência artificial exigem cada vez mais a integração entre diferentes campos. Nesse cenário, a interdisciplinaridade deverá continuar no centro da agenda universitária”, defende.
Respostas para os desafios do Brasil
Cada um com seus momentos marcantes, conquistas e histórias, os ex-reitores – e todos os colegas, servidores e alunos que atuaram ao lado deles através das décadas – são atores dessa transformação da Universidade. Todos afirmam que a experiência acumulada pela Unicamp ao longo de seis décadas reforça a importância de uma instituição pública capaz de produzir conhecimento, formar pessoas, desenvolver tecnologia, promover a diversidade e participar da construção de respostas para os desafios do Brasil e do mundo. Capacidade, determinação e cérebros não faltam por aqui.
O professor aposentado da Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação (FEEC) Hermano Tavares, reitor entre 1998 a 2002, não pode atender a equipe de reportagem.
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