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A decisão que mudou a história da saúde da Unicamp

Primeira de uma série de matérias marca as comemorações dos 60 anos da Universidade; celebração acontece na segunda-feira, dia 5

O complexo de saúde da Unicamp é, hoje, uma referência nacional. Formada por quase dez instituições, a rede engloba a Faculdade de Ciências Médicas (FCM), o Hospital de Clínicas (HC), o Hospital da Mulher dr. José Aristodemo Pinotti/Caism, além das faculdades de Enfermagem e Odontologia de Piracicaba. A estrutura ainda se estende a unidades como o Hospital Estadual de Sumaré, o Hospital Regional de Piracicaba e os Ambulatórios Médicos Especializados (AMEs), distribuídos por oito municípios da região.

No entanto, a engrenagem que atende milhares de pacientes gratuitamente todos os dias só ganhou tração graças à atuação decisiva do cardiologista Antônio Benedicto Prado Fortuna.

Pessoa idosa sentada em sofá bege, usando camisa de botões azul com listras brancas e calça preta, com uma mão apoiada sobre a perna, em ambiente interior com móveis de madeira ao fundo, tapete vermelho com padrões geométricos, cadeiras estofadas, mesa branca coberta com tecido, smartphone e papéis sobre superfície lateral, e decorações diversas nas prateleiras ao fundo.
O cardiologista Antônio Benedicto Prado Fortuna: Faculdade de Medicina foi definida por decreto no final dos anos 1950

Morando com a filha num amplo apartamento no Cambuí, Fortuna completou 98 anos no dia 30 de setembro, mas se lembra com detalhes de como se transformou numa figura central no processo de implantação da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp – o primeiro organismo de um complexo de saúde que hoje é essencial para o atendimento à população no interior de São Paulo.

A criação da Faculdade de Medicina havia sido definida por decreto no final dos anos 1950, mas a efetivação ocorreu apenas no início da década seguinte, quando a instituição foi integrada à então Universidade de Campinas. Fortuna recorda Cantídio Moura Campos e Mário Degni, reitores diretamente envolvidos na instalação da Universidade e da Faculdade de Medicina. Cantídio foi o primeiro reitor da Universidade, assumindo o posto em janeiro de 1963. Em outubro daquele mesmo ano, foi substituído por Degni.

“O oftalmologista Antônio Augusto de Almeida foi designado diretor da faculdade e saiu desesperado procurando um local para instalar a escola”, recorda Fortuna. “Houve a campanha (para a instalação da Faculdade), mas ninguém planejou onde iríamos funcionar. O único espaço encontrado foi a Maternidade de Campinas, que ainda estava em construção.”

A aula inaugural do 1º ano da Faculdade de Medicina de Campinas aconteceu no dia 20 de maio de 1963, numa sala improvisada no edifício inacabado da Maternidade. A Faculdade ocupou os três primeiros andares do prédio.

Segundo Fortuna, apesar dos problemas de estrutura e dos muitos improvisos, as coisas andavam bem, e seguiram sem sobressaltos até o final do segundo ano. “É que os dois primeiros anos (da faculdade) são a chamada área básica, em que não se precisa de pacientes. É só histologia, anatomia; precisa de alguns cadáveres apenas, pacientes não”, explica.

“Só que, terminado o segundo ano, começava a fase clínica. Aí sim, a faculdade iria precisar de um hospital. E outra vez o desespero. Aonde (vai funcionar)?”, pergunta ele, fazendo suspense.

O médico Antônio Fortuna e as lembranças dos bastidores da gênese da Universidade

“O único hospital que, aparentemente, tinha condições de nos receber era a Santa Casa de Misericórdia. O reitor (já Mário Degni) foi procurá-los e pediu a compreensão da direção do hospital. A conversa avançou pouco. A direção informou que iria consultar o Corpo Clínico. Isso foi feito,  O Corpo Clínico foi consultado, mas os chefes dos serviços não aceitaram”, relembra.

E faltava pouco mais de um mês para o reinício do curso.

O reitor foi, então, aconselhado a procurar o diretor clínico da Santa Casa. “Por coincidência, o diretor clínico era eu”, relatou. “Fortuna, por favor me ajuda. Veja lá com seus colegas, porque eu não tenho onde botar os alunos agora neste terceiro ano”, apelou o reitor.

“Falei, Ok. E reuni o Corpo Clínico. Encontrei alguma resistência, mas era evidente que era para o bem de Campinas. Era para o bem da população e os chefes de serviço, enfim, foram convencidos e concordaram: Tá bom, entregamos o serviço a essa faculdade de medicina, disseram eles.”

Depois disso, o treinamento clínico e cirúrgico dos alunos foi realizado nas enfermarias e instalações da Santa Casa de Campinas, onde, por meio de um convênio com a Irmandade de Misericórdia, passaram a funcionar os departamentos e disciplinas da Faculdade. A Faculdade de Ciências Médicas permaneceu na Santa Casa até fevereiro de 1986, quando foi transferida para instalações próprias, no campus de Barão Geraldo.

Fortuna protagonizou a implantação da disciplina de Cirurgia Cardíaca em 1963 e também coordenou a cadeira até 1989

UTI de Campinas

Essa participação de Fortuna na implantação da FCM foi essencial, mas não foi a única. Ele também disponibilizou a estrutura do Instituto de Cardiologia – que contava com equipamentos modernos e com a primeira UTI de Campinas – para que os alunos tivessem material de ensino prático e contato com pacientes reais. “A medicina em Campinas, principalmente na Santa Casa, era muito pobre, sem recursos”, explicou.

Além disso, Fortuna protagonizou a implantação da disciplina de Cirurgia Cardíaca da FCM em 1963. Ele coordenou a cadeira até 1989 e, neste período, atingiu outros marcos.

Foi responsável, por exemplo, pela primeira cirurgia cardíaca do HC. Levou sua própria equipe e seus equipamentos e, em outubro de 1986, realizou com sucesso a primeira cirurgia de troca de válvula com circulação extracorpórea da história do hospital. Fortuna diz estar feliz pela contribuição que deu à área de medicina da Unicamp. “Agora, depois de tantos anos, já com meus 98 anos, tenho uma sensação de alegria muito grande (ao falar sobre a Unicamp). É como se, de certa forma, eu retornasse à Casa que deixei há tantos anos e que vi nascer, que vi e sonhei com ela antes mesmo de seu nascimento”, concluiu.

Assista ao vídeo produzido com o dr. Antônio Fortuna:

Aniversário terá programação especial

No dia 5 de outubro, a Unicamp completa 60 anos de fundação e a Reitoria preparou uma série eventos, que inclui sessão solene e uma programação artística e cultural.

A sessão solene comemorativa aos 60 anos da Unicamp está marcada para o Auditório V da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp – FCM. A cerimônia começa às 10h. o Auditório está localizado R. Albert Sabin, s/ nº. Cidade Universitária “Zeferino Vaz”.

A celebração festiva comemorativa, por sua vez, prevê programação artística especialmente preparada para a ocasião: o grupo ClassRock – Rock no violino, traz a releitura instrumental de grandes clássicos do rock, com o violino assumindo o protagonismo e dialogando com guitarra, baixo, teclado e bateria. A programação será no Teatro de Arena (Rua Elis Regina, s/n Cidade Universitária Zeferino Vaz).

Inscreva-se para participar da sessão solene.

Inscreva-se para participar da celebração festiva.

Foto de capa:

Pessoa idosa sentada em poltrona, usando camisa de manga comprida com listras azuis e brancas e calça preta, segurando e lendo uma revista ou publicação impressa com ambas as mãos, em ambiente interno com móveis e objetos desfocados ao fundo.
A aula inaugural do 1º ano da Faculdade de Medicina de Campinas aconteceu no dia 20 de maio de 1963

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