Qual o papel da divulgação científica na era do algoritmo? Nos tempos atuais, em que a desinformação se espalha como vírus pelas vias digitais, a universidade deve desempenhar papel de protagonismo na interface com a sociedade, como referência em temas de interesse público. Esta ideia foi evidenciada na segunda edição da Feira InterCOCEN, realizada pela Unicamp nos dias 19 e 20 de setembro, no Centro de Eventos da Secretaria Municipal de Educação de Campinas.
“Quando crianças, jovens e adultos que não têm uma vivência cotidiana da universidade podem conversar diretamente com pesquisadores, fazer perguntas e experimentar, a ciência passa a despertar mais interesse. É esse tipo de aproximação que queremos fortalecer com a InterCOCEN”, declarou a coordenadora da Coordenadoria de Centros e Núcleos Interdisciplinares de Pesquisa da Unicamp (Cocen), Raluca Savu.



Ao longo dos dois dias de programação, o evento recebeu centenas de visitantes, entre público espontâneo e excursões de escolas de 35 cidades da região, de acordo com dados coletados pela equipe do Núcleo de Estudos de População (Nepo).
O público conheceu projetos dos centros e núcleos interdisciplinares da instituição. Em pauta, temas como mudanças climáticas, nanotecnologia, nutrição e biodiversidade, apresentados por meio de oficinas lúdicas, exposições, demonstrações interativas, performances artísticas e conversas com especialistas.
“Além de plantar sementes para futuros pesquisadores, nosso objetivo, em última instância, é fomentar cada vez mais a cultura científica e fortalecer o apoio da sociedade à universidade”, complementou Savu.



O apoio social à universidade ganha uma dimensão especialmente desafiadora no contexto midiático atual, em que discursos negacionistas alcançam cada vez mais pessoas, sobretudo por meio das redes sociais. O tema foi abordado pelo biólogo e divulgador científico Átila Iamarino, que participou da feira como convidado. No domingo, ele apresentou uma palestra sobre como se informar em tempos de desinformação e foi um dos destaques da programação.
“A ideia de convidar o Átila, que tem um dos maiores canais digitais de divulgação científica do país, para falar sobre desinformação, foi justamente nesse contexto de abrir novas frentes de conversa, sobretudo com o público mais jovem”, complementou a coordenadora da Cocen.
Ravu explicou ainda que a Feira InterCOCEN e o evento Unicamp de Portas Abertas (UPA), que teve sua 21ª edição realizada este ano, têm propostas distintas e complementares.
“A UPA apresenta a Unicamp de forma ampla, permitindo que os visitantes conheçam seus cursos, unidades, laboratórios e diferentes dimensões da vida universitária. Já a nossa feira parte de uma perspectiva mais específica de mostrar como pesquisas de áreas diferentes dialogam entre si, através da interdisciplinaridade, e impactam nosso cotidiano ao resolver problemas concretos.”



Um dos projetos que ilustram esse caráter interdisciplinar é o Peles-em-Chip, que envolve três dos centros e núcleos de pesquisa da Cocen: o Centro de Engenharia Biomédica (CEB), o Centro de Componentes Semicondutores e Nanotecnologias (CCSNano) e o Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (NEAB), em parceria com o Instituto de Biologia (IB).
O objetivo é desenvolver modelos tridimensionais de pele com diferentes pigmentações, tornando os estudos sobre melanoma mais representativos da população brasileira. O projeto foi contemplado recentemente com o Prêmio Dermatologia + Inclusiva, da L’Oréal.
Para Bruna de Melo, pesquisadora do CEB e uma das coordenadoras do Peles-em-Chip, o evento foi uma oportunidade importante para apresentar à comunidade não apenas os objetivos e resultados da pesquisa, mas também como é a vivência cotidiana em um laboratório, servindo ainda como uma forma de divulgar a carreira científica.
“O público foi muito diverso, com famílias, crianças, idosos e estudantes do ensino fundamental e médio. Ficamos felizes com o interesse: as pessoas fizeram muitos questionamentos, participaram das nossas gincanas e tiveram a oportunidade de ver perto as bioimpressoras em funcionamento e os dispositivos organ-em-chip, tecnologias que utilizamos para construir nossa plataforma”, relata a pesquisadora.
‘Esse tipo de Feira é o que mantém a universidade’
Antes da palestra, Átila percorreu os estandes da feira e se definiu como um “curioso crônico”. Ao conhecer os projetos, destacou a forma como diferentes áreas do conhecimento se conectam.
“Apesar de serem áreas distintas, em cada espaço é possível levantar questões que dialogam entre si, porque, de alguma forma, os assuntos se sobrepõem”, comentou.



Para o divulgador, aproximar universidade e sociedade ajuda a sustentar socialmente a própria universidade, em sentido amplo. Ao lembrar o papel da Unicamp na região de Campinas, disse que essa relação é especialmente importante em um momento em que o apoio à universidade estaria em xeque. “Esse tipo de feira é o que mantém a universidade acontecendo, e não o contrário”, afirmou.
Ao notar a faixa etária do público, Átila disse que pesquisas dos últimos 15 anos mostram níveis elevados de interesse por ciência e tecnologia entre crianças e jovens. O desafio, acrescentou, é preservar essa curiosidade ao longo da formação, valorizando experiências lúdicas, a participação das famílias e o diálogo entre gerações.
“O papel do lúdico, o papel de trazer as famílias, o papel de conversar entre gerações é justamente manter esse interesse.”
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