
A Unicamp, o Instituto Butantan e o Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen) lançaram, nesta sexta-feira (11), a Rede Brasileira de Reprodução Assistida e Germoplasma Murino (Rebragem). A iniciativa busca ampliar a colaboração entre instituições brasileiras na preservação de linhagens de roedores de laboratório, no desenvolvimento e no compartilhamento de conhecimentos e tecnologias de criopreservação e reprodução assistida. A cerimônia ocorreu no Auditório 5 da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp e foi organizada pelo Centro Multidisciplinar para Investigação Biológica na Área da Ciência em Animais de Laboratório (Cemib) da universidade. O reitor da Unicamp, Paulo Cesar Montagner, esteve presente para dar início à atividade.
A criação dessa rede responde a uma demanda crescente da pesquisa biomédica por modelos animais geneticamente modificados. A manutenção de colônias vivas dessas linhagens exige espaço físico, acompanhamento sanitário e genético permanente e envolve custos elevados. A criopreservação do material genético permite manter essas linhagens como forma de backup, reduzindo a necessidade de manutenção contínua de animais vivos e contribuindo para a preservação das características genéticas dos modelos experimentais.
A Rebragem também pretende estruturar um movimento de alcance nacional, com a instalação de um repositório de germoplasma de roedores de laboratório e a criação de programas de formação e capacitação de recursos humanos.
Germoplasma é o material genético de um organismo – como sementes, pólen, tecidos ou DNA – que transmite características hereditárias de uma geração para outra. Atualmente, o Cemib mantém mais de 100 linhagens criopreservadas e trabalha na distribuição de cópias de segurança desses modelos entre as instituições participantes da rede.

Marco
Para Daniele Masselli Rodrigues Demolin, coordenadora do Cemib, o lançamento representa um marco para a ciência brasileira por aproximar o país de iniciativas internacionais voltadas à biossegurança, à reprodutibilidade científica e à colaboração na pesquisa biomédica. “É realmente um momento histórico”, afirmou ela. A coordenadora ainda destacou que a rede também contribui para uma utilização mais racional dos animais em pesquisa, menos frequente e mais refinada.
A iniciativa está alinhada aos chamados três “Rs”, princípios estabelecidos para orientar o uso responsável de animais em pesquisas científicas: redução, refinamento e substituição (replacement, em inglês). Com a preservação das linhagens por meio da criopreservação, explica Demolin, torna-se possível diminuir o número de animais mantidos nos biotérios, reduzir custos operacionais e enfrentar dificuldades logísticas relacionadas ao transporte e à importação de animais.
“A rede tem esse papel fundamental”, apontou. “É importante que hoje tenhamos essas linhagens criopreservadas em forma de backup entre essas instituições como uma maneira de preservar, reduzir os custos operacionais dos biotérios e reduzir o número de animais utilizados na pesquisa”, disse a coordenadora.
A participação da Unicamp na iniciativa se apoia na experiência acumulada pelo Cemib. O centro tem 47 anos de existência, enquanto sua estrutura voltada à criopreservação e à reprodução assistida está estabelecida desde 1989. Essa trajetória contribuiu para que a Universidade assumisse papel pioneiro na implantação da rede.

Estratégico
Para Rui Curi, vice-diretor do Instituto Butantan, a Rebragem representa um avanço estratégico para as ciências biomédicas por contribuir para a reprodução dos resultados obtidos em pesquisas experimentais. “A rede de germoplasma dá uma garantia de que nós podemos reproduzir os resultados dos nossos estudos toda vez que quisermos retornar às condições em que os experimentos foram realizados.”
De acordo com Curi, a manutenção do germoplasma de camundongos em condições de criopreservação, por exemplo, permite conservar os modelos genéticos utilizados nas pesquisas e recuperá-los posteriormente, quando houver necessidade de repetir experimentos ou verificar resultados. A estratégia também pode reduzir os custos de manutenção das colônias. A criação contínua de animais vivos demanda infraestrutura e recursos e pode favorecer o surgimento de alterações genéticas ao longo das gerações. Com a preservação em congelamento, é possível manter o material genético de referência por períodos prolongados.
Menos animais
Curi também chamou a atenção para o potencial da rede para reduzir o número de animais utilizados. Em vez de manter grandes colônias permanentemente, as instituições poderão recuperar os modelos a partir do material criopreservado quando houver demanda para uma pesquisa específica. “Você não precisa manter o animal se reproduzindo ao longo do tempo e descartando uma grande quantidade de animais porque não está sendo usado para fazer experimento”, explicou.

Representando a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) na cerimônia, Sandra Dias, integrante do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM) e assessora científica da área de Ciências Biológicas da Fundação, ressaltou o caráter colaborativo da iniciativa e seu potencial para otimizar recursos destinados à pesquisa. “É a realização de um sonho para as pessoas que fizeram a instalação dessa rede. Iniciativas de colaboração entre instituições são importantes para enfrentar os desafios da pesquisa científica no Brasil e tornar o uso dos recursos mais eficiente”, opinou ela.
A pesquisadora foi mais uma participante do evento a ressaltar que a preservação de germoplasma está relacionada ao uso racional e econômico de animais em pesquisa. “A criação de bancos eficientes permite reduzir a necessidade de manutenção de grandes colônias e, consequentemente, otimizar a utilização dos animais. Embora exista um movimento internacional em direção à substituição dos modelos animais por métodos alternativos, esses modelos ainda serão importantes por muitos anos para o desenvolvimento de pesquisas nas áreas de biologia e medicina. Contudo, modelos animais são importantes e precisam ser feitos com toda a seriedade possível”, afirmou.
Também participaram do lançamento da Rebragem André Carissimi, da Sociedade Brasileira de Ciência em Animais de Laboratório e Isolda Costa, diretoria de Pesquisa, Desenvolvimento e Ensino no Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen).
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