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Logotipo e cabeçalho contendo o nome "José Lopes de Faria" em letras azuis, acompanhado de um brasão circular com ilustração em tom verde de uma pessoa segurando uma planta ou flor, com fundo claro e barras horizontais azul-escuro no topo e verde-azulado à direita.

Médico da Unicamp criou o primeiro livro didático de Anatomia Patológica do país

Obra buscava suprir a ausência de fontes de estudo para estudantes da Faculdade de Medicina e tornou-se referência por mais de 30 anos

Documento impresso em papel amarelado datado de 24 de novembro de 1971, com manchete "UNICAMP lança primeira obra científica" seguida de texto em duas colunas em português, apresentando uma fotografia em preto e branco de uma pessoa usando jaleco branco em ambiente interno com móvel ao fundo, posicionada no terço inferior da página.
Edição do jornal Diário do Povo de novembro de 1971 que menciona a publicação da obra; campanha em favor do livro didático no Brasil

Segundo Billis, que também seguiu carreira nessa especialidade, o livro foi inteiramente produzido por Faria entre 1965 e 1971. A obra, com 211 páginas, traz imagens e materiais colecionados e fotografados a partir dos atendimentos que o professor realizava na Santa Casa de Misericórdia, em Campinas.

A Unicamp foi fundada pelo professor Zeferino Vaz somente em 1966, mas antes disso a Faculdade de Medicina — hoje Faculdade de Ciências Médicas (FCM) — já funcionava na Santa Casa. Incorporado à nova universidade, o curso de medicina só migrou para o campus de Barão Geraldo após a construção do Hospital de Clínicas (HC), em 1985.

Na década de 1960, o Departamento de Anatomia Patológica da Unicamp, fundado pelo professor Lopes de Faria, contava com um fotógrafo responsável por documentar as lâminas e materiais coletados, um trabalho que contribuiu para a qualidade da obra escrita por ele.

Ilustração em tons de verde mostrando uma pessoa em perfil segurando um microscópio, dentro de um círculo, com fundo claro e faixa azul-verde na parte superior.

Pilha de seis livros com encadernação em couro e tecido nas cores verde, marrom e azul, com títulos em espanhol incluindo "Patologia Geral" e "Patologia Especial", dispostos sobre uma superfície branca com fundo cinzento neutro, apresentando lombadas com etiquetas brancas e páginas amareladas visíveis nas laterais.

A obra aborda a Anatomia patológica geral, apresentando os diferentes tipos de lesões e a natureza degenerativa delas ( inflamatória, circulatória, necrótica ou neoplásica, entre outras), independentemente de onde ocorrem no corpo humano.

Também apresenta a parte teórica e, dentro de cada um dos capítulos, descreve as degenerações e como elas são classificadas, como cada doença se desenvolve (patogênese) e como é feito seu diagnóstico, com ilustrações baseadas em lâminas de casos, biópsias ou autópsias.

“Era algo inédito. O livro passou a ser de grande utilidade para os nossos alunos, mas também passou a ser utilizado por professores de outras universidades”, conta Billis.

Seis anos depois, em 1977, a obra de Faria ganhou uma segunda edição, revista e ampliada, chamada  “Anatomia Patológica Geral”, pela editora Guanabara Koogan.

No prefácio, Faria declara estar “alegre” por saber que a primeira edição, esgotada, havia sido acessada por colegas de vários estados do Brasil. O professor também reforçava que o livro se destinava aos estudantes do curso de graduação e àqueles que tivessem interesse em aprender sobre anatomia patológica.

“É necessário que o aprendizado seja feito com lógica, a fim de se esquecer o menos possível o que se aprendeu, bem como para modificar pontos de vista e ser, no futuro, o próprio professor”, escreveu o docente no prefácio.

Mais tarde, em 1988, pela mesma editora, foi publicada a terceira edição, “Patologia geral: fundamentos das doenças, com aplicações clínicas”, dedicada, desta vez, não só aos graduandos, mas também a residentes e patologistas em formação. A obra teve colaboração de ex-alunos que haviam se tornado professores da Unicamp.

Segundo Billis, a obra de Faria foi usada no ensino de Anatomia Patológica por cerca de 30 anos, até o começo dos anos 2000. Atualmente, o livro referência na área é o manual “Bogliolo – Patologia”, criado em 1972 por Luigi Bogliolo, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), falecido em 1981. Diferente da obra de Lopes de Faria, o livro do docente da UFMG continua sendo editado por especialistas da área e, em 2022, chegou à 10ª edição. O livro de Faria ainda está disponível para retirada na Biblioteca da FCM.

Ilustração em tons de verde mostrando uma pessoa em perfil segurando um microscópio próximo ao rosto, vestindo jaleco branco, dentro de um círculo, com fundo claro e faixa azul-verde na parte superior.

Faria nasceu em 1917, no interior de Minas Gerais, sendo o primeiro de oito irmãos. Formou-se em Medicina pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) em 1941. Sua carreira docente começou no Departamento de Anatomia Patológica da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).

Três fotografias em preto e branco: a primeira mostra três pessoas sentadas em uma mesa com microfone, sendo a pessoa à esquerda gesticulando com as mãos, a do centro usando óculos e a da direita próxima a um arranjo de flores; as duas fotografias inferiores mostram grupos de pessoas em pé em ambiente interno com janelas com venezianas, alguns vestindo jaleco branco, interagindo em pequenos grupos em bancada experimental.
O médico, conhecido pelos colegas por ser exigente e muito sério, durante defesa de tese no Departamento de Anatomia Patológica; imagens abaixo, o professor em aulas práticas

Antonio Frederico Novais de Magalhães, médico gastrologista, professor aposentado e ex-diretor da FCM, relembra a dedicação de Lopes para estruturar e fortalecer o Departamento de Anatomia Patológica.

“Desde o início, ele conseguiu um espaço físico, que era um predinho, e espaços para fazer as análises de lâminas. E, para ensinar os alunos, ele conseguiu microscópios para que todos estudassem no seu próprio equipamento. Os alunos dele, depois, tornavam-se profissionais muito competentes”, afirma.

“Apesar de ser uma pessoa mais reservada, de não fazer muitas brincadeiras, ele era extremamente respeitado e muito admirado pelos alunos”, acrescenta Magalhães.

O médico pediatra José Martins Filho, ex-reitor e ex-diretor da FCM, conta que ingressou na Universidade quando Faria já tinha carreira consolidada e lembra-se do respeito que os colegas tinham por ele.

Ilustração em tons de verde mostrando uma pessoa em perfil segurando um microscópio próximo ao rosto, vestindo jaleco branco, dentro de um círculo, com fundo claro e faixa azul-verde na parte superior.

O laboratório do professor, conforme rememora Billis, era o único, entre todos os outros da Santa Casa, que funcionava aos sábados, um dia reservado exclusivamente à pesquisa. Tudo que aprendeu sobre anatomia patológica, diz o ex-aluno, foi com Faria.

“Ele estava sempre do nosso lado, ajudando na redação do trabalho, na correção das lâminas. E isso era sempre feito aos sábados”, conta Billis.

Naquela época, início dos anos 1960, quando a Unicamp ainda se consolidava, a pesquisa científica não era institucionalizada como hoje, e muito do que era realizado dependia do esforço e do envolvimento dos docentes com os seus alunos.

No artigo, consta que a Comissão havia distribuído um questionário a todos os professores da FCM a fim de coletar informações sobre o que cada departamento estava produzindo.

O historiador Ivan Luiz Martins Franco do Amaral, que trabalhou no Centro de Memória da FCM, conta que, quando o professor Lopes morreu, em 2009, houve autorização para o arquivamento do material da sala dele, que estava sem uso desde a sua aposentadoria, em 1987.

Durante o trabalho de listagem e documentação dos materiais, foram encontradas peças anatômicas dentro de recipientes de vidro e álcool — como um pé de um paciente com doença de Chagas, um feto e até um cérebro — acompanhados de anotações a mão.[2]

Em uma entrevista com Faria publicada por ocasião dos 40 anos da FCM, em 2003, ele declarou que sempre procurou dar o máximo de si. “Fui, por isso, talvez, um homenageado crônico pelos alunos, tanto que os professores passavam por trotes, mas eu sempre fui poupado. Se há algum conselho que eu deva dar para quem deseja ter uma carreira bem-sucedida na FCM, digo: ‘Trabalhe, para chegar a um bom resultado’.”

Faria aposentou-se por limite de idade em 1987. No ano seguinte, recebeu o título de professor emérito da Unicamp, uma honraria entregue pelo então reitor Paulo Renato Souza. Apesar da aposentadoria, permaneceu ativo até o seu falecimento, em 2009, revisando as edições de suas obras e contribuindo para a ciência.


Foto de capa:

Pessoa idosa usando óculos e jaleco branco, posicionada de perfil para a direita, com a mão direita estendida em gesto de apresentação ou demonstração, em ambiente com painéis translúcidos azulados e brancos ao fundo que sugerem um espaço de trabalho ou laboratório.
O professor de Anatomia Patológica e médico José Lopes de Faria: alunos da primeira turma de medicina tinham dificuldade para  prestar atenção e anotar detalhes

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