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‘A Dança das Partículas’ transforma conceitos da física em movimento e arte

Espetáculo resultado de projeto de extensão chama atenção em congresso internacional e será apresentado na Casa do Lago em setembro

Em setembro, a comunidade da Unicamp terá a oportunidade de conferir o espetáculo na Casa do Lago
Em setembro, a comunidade da Unicamp terá a oportunidade de conferir o espetáculo na Casa do Lago

Partículas que ninguém consegue enxergar ganham corpo, movimento e até chapéus de diferentes formas. No palco, neutrinos oscilam, quarks trocam de “sabor e cor”, e as partículas que formam a matéria deixam, por alguns minutos, o território das equações no espetáculo A Dança das Partículas, concebido no projeto de extensão Ciência e Arte, coordenado pela professora Ana Amélia Bergamini Machado, do Instituto de Física Gleb Wataghin (IFGW).

A estreia ocorreu no início de agosto, no International Institute of Physics (IIP) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), durante uma escola internacional da Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear (CERN). Depois, o grupo se apresentou para estudantes do ensino médio no Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN) e, por fim, na 43ª International Conference on High Energy Physics (ICHEP), em Natal. Pela primeira vez, a conferência, considerada uma das mais importantes do mundo na área de física de altas energias, foi realizada no Brasil, reunindo cerca de mil pesquisadores de diferentes países.

A apresentação chamou a atenção e recebeu aplausos calorosos de alunos e pesquisadores. Em setembro (de 20 a 25), a comunidade da Unicamp terá a oportunidade de conferir o espetáculo na Casa do Lago, durante a semana de colaboração do Deep Underground Neutrino Experiment (Projeto Dune), um dos grandes experimentos internacionais de física de partículas, do qual pesquisadores da Unicamp participam. Depois, a dança também será levada para outras universidades ainda neste semestre.

Pessoa usando óculos de armação preta e camiseta branca com estampa azul de pássaros e texto "RIO", com as mãos em gestos de expressão enquanto olha para o lado, em frente a fundo branco.
A coordenadora do projeto de extensão, Ana Amélia Bergamini Machado: comunicar como a natureza funciona

A criação coletiva, que reúne estudantes do IFGW, do Instituto de Computação (IC) e do Instituto de Artes (IA), levou oito meses para ser finalizada. Seis estudantes trabalharam na criação da coreografia, dos figurinos e dos elementos visuais a partir da proposta de encontrar outra linguagem para falar de fenômenos que, embora estejam na base da matéria, não podem ser vistos a olho nu.

“A ideia dessa disciplina é encontrar uma forma de comunicar como a natureza funciona”, explica Machado. “Essas formas que apresentamos são para as pessoas conseguirem ver o que não pode ser visto, para traduzir algo que é invisível”, acrescenta.

Para os estudantes, dançar diante de um público formado por especialistas em física de partículas teve um significado especial. “Nunca tinha tido uma experiência tão artística no meio científico”, conta Amanda Lisita, estudante de Física Biomédica do IFGW e uma das integrantes do grupo.

A recepção em Natal acabou surpreendendo os estudantes. No intervalo da conferência, pesquisadores se aproximaram para comentar a apresentação e dizer que haviam compreendido os conceitos representados na coreografia. “Quando chegamos lá, eu imaginava que ia ter umas dez pessoas e que elas iam achar legal. Mas a sala estava cheia”, lembra Lisita. “Depois, todo mundo vinha falar com a gente, dizendo que tinha achado o máximo e que tinha entendido.”

Tradução de conceitos

Para transformar física em dança, foi preciso compreender conceitos. Nenhum dos estudantes, explica a professora, era especialista em física de partículas. Machado entrou no processo apresentando os fundamentos científicos. A coreógrafa Rayane Nunes, aluna do IA e amiga de Isabella Galter, aluna do IFGW e integrante do grupo, trabalhou a tradução desses conceitos para o movimento enquanto os próprios estudantes foram criando as soluções para as cenas.

A primeira parte do espetáculo é dedicada aos léptons, grupo que inclui o elétron, o muon, o tau e seus respectivos neutrinos (partículas leves). “Os movimentos são mais leves e acompanhados por figurinos que procuram transmitir essa característica”, destaca a professora.

Os neutrinos, partículas particularmente intrigantes para a física por sua capacidade de mudar de tipo, fenômeno conhecido como oscilação de neutrinos, também fazem parte do universo de pesquisa do Projeto Dune. “A importância do experimento motivou o grupo a levar para a dança algumas propriedades dessas partículas também no momento da coreografia”, conta Machado.

Na dança, a oscilação aparece por meio de formas geométricas e movimentos que remetem à transformação de um tipo de neutrino em outro. O figurino também participa da narrativa: um poncho com um lado branco e outro preto serve de referência à possibilidade de o neutrino ser sua própria antipartícula.

Depois entram os quarks, que formam prótons e nêutrons. “São seis tipos – up, down, charm, strange, top e bottom – e cada um ganhou uma representação própria”, explica a professora. Os estudantes criaram chapéus para identificar os diferentes “sabores” dos quarks. Ao longo da dança, eles trocam os chapéus, transformando o conceito físico em uma ação visível.

As cores também entram em cena. Os quarks possuem uma propriedade chamada “cor”, que não tem relação com cores visíveis, mas é fundamental para a descrição das interações entre essas partículas. Na dança, leques vermelhos, verdes e azuis representam essas três possibilidades.

“O espetáculo percorre esse universo até chegar à formação do átomo. A narrativa parte do Big Bang, passa pelas partículas fundamentais e termina na representação do átomo, com quarks formando o próton e o elétron em movimento ao redor”, completa a professora.

A apresentação na ICHEP teve ainda um capítulo inesperado. O grupo havia viajado completo, mas Kawan Pereira, do IC, precisou deixar Natal antes da apresentação na conferência. Restavam cinco integrantes e, em vez de cancelar, os estudantes decidiram adaptar a coreografia. Testaram movimentos, trocaram posições e reconstruíram partes da dança. O resultado surpreendeu o próprio grupo, que recebeu com alegria a reação calorosa do público. A experiência acabou reforçando uma das características que Machado mais valoriza em seus alunos: a autonomia. “Eles foram super independentes, muito maduros e criativos.”

Formas de comunicação

A Dança das Partículas nasceu dentro de uma proposta mais ampla. O projeto Ciência e Arte busca aproximar a ciência e as diferentes linguagens artísticas como forma de comunicação, especialmente para estudantes do ensino médio. Antes da dança, os estudantes envolvidos no projeto já tinham desenvolvido outras experiências. “A intenção é reunir esse material e produzir uma publicação que possa ser utilizada por professores interessados em levar ciência e arte para as escolas”, ressalta Pereira.

A publicitária Michele Umezu, responsável pela comunicação do Laboratório de Léptons da Unicamp, também participou da construção da identidade visual do projeto. O material reúne desenhos de Amanda Lisita e referências a outros trabalhos desenvolvidos pelo grupo, como circo, cianotipia e experiências com padrões produzidos a partir de ondas sonoras, além de um aplicativo desenvolvido por Marlon Ribas, do IC e integrante do grupo, para abordar conceitos de física de partículas.

Para os estudantes, a experiência também abriu a possibilidade de continuar explorando a dança como forma de divulgação científica. Novos alunos devem se juntar ao projeto, que vai dobrar de tamanho. “Ainda não conhecemos os novos integrantes, mas será legal que entrem mais pessoas no grupo”, afirma Letícia Marini Luize, estudante do IFGW. “Tem algumas partículas que ficaram de fora e que poderíamos conectar ainda mais com mais pessoas.”

Isabella Galter ressalta que, na continuidade do projeto, a “ideia é ficar na dança e estender o tempo da coreografia”, que hoje é de 15 minutos. Os outros integrantes concordam.

Depois de transformar partículas invisíveis em movimento, A Dança das Partículas começa a se transformar também. E o que nasceu como uma experiência de uma disciplina de extensão vai ao encontro de novos palcos e novas experiências.

Foto de capa:

Sete pessoas posicionadas em fila sobre um palco com cortina cinza ao fundo, usando diversos acessórios na cabeça incluindo chapéus pretos, brancos e coloridos, segurando leques brancos com degradês em azul e vermelho, com reflexos visíveis no piso escuro.
A estreia ocorreu no início de agosto, no International Institute of Physics da UFRN, durante uma escola internacional da CERN

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