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Cultura e Sociedade Manchete

Na Unicamp, Conceição Evaristo diz que Honoris Causa é reconhecimento às mulheres negras

Escritora ministrou aula aberta no Auditório da Comissão Permanente para os Vestibulares (Comvest) e visitou as dependências do AEL

aula de conceição evaristo na Comvest
Início da aula aberta ministrada por Conceição Evaristo no auditório da Comvest

“Peço apenas que não seja somente a primeira, mas que abra perspectivas. Esse reconhecimento também deve alcançar intelectuais negras que tiveram papel fundamental na construção do pensamento brasileiro, como Lélia Gonzalez, Beatriz Nascimento e Carolina Maria de Jesus. Suas contribuições não receberam a mesma visibilidade em suas épocas.” Aos 79 anos, a mineira Conceição Evaristo, uma das principais vozes da literatura afro-brasileira contemporânea, agradeceu a concessão do título de Doutora Honoris Causa pela Unicamp, o primeiro dado a uma mulher negra na história da instituição. Para ela, a honraria aprovada por unanimidade nesta semana pelos integrantes do Conselho Universitário (Consu), com direito a aplausos de pé de todos no local, ganha ainda mais força e significado se for plural e compartilhada.

“Esse reconhecimento ultrapassa a minha trajetória individual e deve ser entendido como uma homenagem à contribuição histórica das mulheres negras para a produção intelectual e cultural do país. O mais importante não é ocupar esse lugar de forma isolada, mas abrir caminhos para que outras mulheres também sejam reconhecidas”, afirmou a homenageada.

público que lotou o auditório da Comvest
Público lotou o auditório da Comvest para acompanhar a aula

Conceição Evaristo visitou a Unicamp nesta quinta-feira (6) para uma série de atividades. No começo da noite, a escritora, pesquisadora e poeta ministrou uma aula aberta no Auditório da Comissão Permanente para os Vestibulares (Comvest), que atraiu centenas de pessoas. A atividade, realizada com apoio do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) e do Projeto Afro Memória, fez parte das celebrações dos 40 anos do Vestibular da Unicamp.

26 caixas

Mais cedo, ela foi conhecer o Arquivo Edgar Leuenroth (AEL), onde foram discutidas possibilidades de cooperação técnica entre a Universidade e a Casa Escrevivência, instituição responsável pela preservação do acervo da autora no Rio de Janeiro. O objetivo foi tratar sobre a organização, a restauração e a digitalização do material. Até o momento, a equipe que trabalha ao lado de Conceição Evaristo já soma 26 caixas de documentos, e o conjunto tende a aumentar ainda mais com livros, placas, medalhas, quadros e outros itens.

A vinda da escritora – que também integra a lista das leituras obrigatórias do Vestibular da Unicamp – é uma iniciativa que amplia o diálogo com intelectuais negros e dá continuidade à parceria com o Afro-Cebrap, núcleo de pesquisa, formação e difusão sobre a temática racial do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento. A professora da USP Márcia Lima, coordenadora do Núcleo Afro do Cebrap, reforçou que a visita ao AEL marca o início de uma importante parceria. O AEL, pro sua vez, oferecerá apoio técnico na catalogação, digitalização e conservação dos documentos, enquanto o projeto Afro-Memória ampliará a preservação e a divulgação dos acervos da escritora e de outros intelectuais negros.

chegada de evaritso

Histórico

Para Aldair Rodrigues, professor do IFCH e um dos responsáveis pela presença de Conceição Evaristo em Campinas, essas ações representam um momento histórico para a Universidade em seu aniversário de 60 anos, já que consolidam uma política institucional voltada à valorização da memória, da produção intelectual e do protagonismo da população negra. “É necessário ampliar o espaço para referências produzidas pela população negra e para acervos organizados e preservados por seus próprios protagonistas, tornando a Universidade mais representativa da sociedade brasileira”, apontou o professor.

O sociólogo Paulo César Ramos, pós-doutorando do IFCH, pesquisador do Afro-Cebrap e um dos coordenadores do projeto Afro Memória, além de também ser um dos responsáveis pela visita de Conceição Evaristo ao campus, destacou o caráter simbólico da presença da escritora e do título recém-concedido a ela. “Representa um reconhecimento à sua trajetória e um passo importante na valorização da memória e da produção intelectual de mulheres negras no Brasil”, disse.


A força e a responsabilidade de ser a dona de sua própria história

Foram mais de seis horas de viagem de ônibus entre o Rio de Janeiro e Campinas: vitalidade

Mesmo após uma viagem de mais de seis horas de ônibus entre o Rio de Janeiro e Campinas, a escritora Conceição Evaristo esbanjou vitalidade e carinho para atender a todos que a esperavam na Unicamp. E, apesar de uma agenda cheia, fez questão de deixar sua reflexão sobre temas que considera importantes, como as políticas afirmativas da Universidade e o poder de ter o controle sobre a sua memória.

Ela afirmou considerar um privilégio poder participar ativamente da organização de seu próprio acervo. “Essa possibilidade permite decidir quais documentos e registros considero relevantes para representar minha trajetória, além de registrar o próprio processo de construção dessa memória”, afirmou.

A escritora ressaltou ainda o caráter simbólico desse protagonismo, especialmente por se tratar de uma mulher negra conduzindo a preservação de seu legado. Para ela, a memória das populações negras, das classes trabalhadoras e de outros grupos historicamente marginalizados foi, durante muito tempo, narrada sob perspectivas externas, frequentemente associadas às elites intelectuais e às classes médias.

Conceição Evaristo conheceu o Arquivo Edgar Leuenroth (AEL): preservação

“O movimento Black Soul e a criação do Instituto de Pesquisa das Culturas Negras (IPCN), por exemplo, foram experiências de resistência cultural durante a ditadura militar. Foram formas de organização e resistência pouco contempladas nas narrativas tradicionais sobre a história do país”, apontou.

E Conceição Evaristo vai além: para ela, a sociedade vive hoje um momento mais favorável ao reconhecimento da produção intelectual de mulheres negras. “Ainda assim, essas mulheres continuam sendo frequentemente identificadas apenas como militantes, em vez de serem reconhecidas como pensadoras que formulam políticas públicas e refletem sobre os rumos do país”, criticou.

Marcas profundas

Para a escritora, as ações afirmativas adotadas pela Unicamp são um passo importante na busca por justiça histórica. “As cotas não devem ser encaradas como favor, mas como instrumentos de reparação diante de uma dívida histórica com a população negra, seus descendentes e os povos originários”, disse. “As ações afirmativas são uma tentativa de reparar uma injustiça histórica que ainda deixa marcas profundas na formação da sociedade brasileira”, concluiu a primeira mulher negra com o título de Doutora Honoris Causa na Unicamp.

Relevância

O diretor da Comissão Permanente para os Vestibulares da Unicamp (Comvest), José Alves, destacou que a presença da escritora Conceição Evaristo na Universidade representa um marco histórico para a instituição. “Essa é a primeira vez, em mais de 40 anos de história do Vestibular da Unicamp, que uma autora integrante da lista de obras obrigatórias participa de uma atividade na Universidade”, disse.

Além do caráter inédito, o diretor ainda ressaltou a relevância da escritora no cenário nacional, tanto por sua contribuição à literatura brasileira quanto por sua atuação no debate sobre as relações raciais, as políticas afirmativas e o combate ao racismo. De acordo com Freitas Neto, esses temas passaram a ocupar um espaço cada vez mais central na Unicamp, processo que teve como um de seus principais impulsionadores as mudanças promovidas no Vestibular.

O diretor lembrou ainda que a Universidade foi pioneira ao incluir obras de escritoras negras na lista de leituras obrigatórias, como Carolina Maria de Jesus, reforçando a importância de ampliar não apenas o acesso da população negra ao ensino superior por meio das políticas de ação afirmativa, mas também de valorizar suas referências intelectuais e culturais.

Alves apontou ainda que a presença dessas autoras no vestibular se justifica pela qualidade literária de suas obras e pela capacidade de suas produções de trazer à tona questões fundamentais para a compreensão da sociedade brasileira, especialmente aquelas relacionadas à cultura negra e ao enfrentamento das desigualdades raciais.

Foto de Capa

aula de conceição evaristo
Aula aberta atraiu grande público
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