Fortalecer o Sistema Único de Saúde (SUS) significa também fortalecer a democracia. Essa é a ideia que orienta a residência da professora e pesquisadora Carmem Leitão, da Universidade Federal do Ceará (UFC), no Instituto de Estudos Avançados da Unicamp (IdEA). Ao longo da residência, realizada entre agosto e outubro, a pesquisadora participará de palestras, rodas de conversa, reuniões com pesquisadores e gestores públicos e atividades junto aos serviços de saúde, tendo como eixo o tema “Democracia, políticas sociais e fortalecimento do SUS”. A programação integra o Programa “Cesar Lattes” do Cientista Residente e foi concebida para promover o diálogo entre universidade, gestores públicos, profissionais da saúde e sociedade, fortalecendo redes de cooperação em torno dos desafios contemporâneos do SUS.
SUS e democracia caminham juntos
Na avaliação da pesquisadora, não é possível compreender os desafios do SUS sem considerar o contexto democrático em que o sistema foi concebido. Em outras palavras, discutir o SUS hoje envolve discutir a própria democracia brasileira. Segundo Leitão, o sistema representa uma das maiores conquistas da Constituição de 1988, por ter transformado a saúde em um direito universal e em responsabilidade do Estado. No entanto, sua consolidação depende não apenas de capacidade técnica e de financiamento, mas também do fortalecimento das instituições democráticas, da participação social e da defesa das políticas públicas diante das disputas políticas e orçamentárias.
A pesquisadora observa que o país vive um período de reconstrução democrática marcado por disputas em torno das políticas sociais e pelo crescimento de projetos que questionam o papel do Estado e do conhecimento científico. Nesse cenário, fortalecer o SUS significa ampliar a capacidade das instituições públicas de garantir direitos e enfrentar desigualdades que permanecem profundamente enraizadas na sociedade brasileira.
Essa leitura também reflete a trajetória acadêmica de Leitão, construída na interface entre Saúde Coletiva e Ciência Política. Enquanto a primeira permite compreender necessidades de saúde, desigualdades e modelos de cuidado, a segunda ajuda a explicar como decisões são tomadas, recursos são distribuídos e políticas públicas são implementadas. Para Leitão, compreender o SUS exige articular essas duas dimensões, reconhecendo que sua gestão é atravessada por disputas políticas, relações federativas e diferentes capacidades institucionais.
Muito além da assistência à saúde
A pesquisadora também chama atenção para uma percepção ainda limitada da população sobre o SUS. Embora consultas, exames e internações sejam a face mais conhecida do sistema, Leitão lembra que existe uma ampla estrutura de planejamento, vigilância, financiamento, produção de informações, formação de profissionais e coordenação entre serviços e governos que permanece pouco visível. Segundo ela, ampliar a comunicação pública e fortalecer os espaços de participação social são passos importantes para que a sociedade reconheça o SUS como patrimônio público e como expressão de um projeto democrático.
Em sua residência, Leitão também abordará a regulamentação da profissão de sanitarista. Para a professora, o reconhecimento jurídico e institucional desses profissionais representa um importante avanço para fortalecer o SUS. Sanitaristas atuam em áreas estratégicas como planejamento, vigilância, gestão, avaliação, regulação, organização das redes de atenção e formação de profissionais. Mais do que um registro formal, a regulamentação pode fortalecer carreiras, qualificar processos formativos e ampliar a presença desses especialistas nos municípios e regiões de saúde.
A universidade como parceira das políticas públicas
Para Leitão, a universidade pública desempenha um papel estratégico na construção e no aperfeiçoamento das políticas públicas de saúde. Além de produzir conhecimento, ela deve manter uma relação permanente com gestores, trabalhadores do SUS, movimentos sociais e comunidades, construindo respostas conjuntamente e contribuindo para o enfrentamento de problemas concretos.
Essa concepção orienta a própria residência no IdEA. Ao longo da programação, estão previstas atividades com pesquisadores, médicos residentes, secretários municipais de saúde, profissionais da rede pública e estudantes, além de reuniões com grupos de pesquisa e visitas a experiências de extensão universitária. A proposta é transformar a residência em uma produção compartilhada de conhecimento, criando uma aproximação entre universidade e serviços públicos de saúde.
Entre os resultados esperados, estão o fortalecimento da cooperação entre Unicamp e Universidade Federal do Ceará (UFC), o desenvolvimento de pesquisas e publicações conjuntas, intercâmbios entre docentes e estudantes, maior aproximação com o SUS Campinas e documentação de experiências capazes de evidenciar a contribuição da universidade pública para os serviços e os territórios. Mais do que um conjunto de atividades, a residência busca consolidar uma rede permanente de formação, pesquisa, extensão e incidência pública em torno dos desafios da Saúde Coletiva.
Ao olhar para a próxima década, Leitão identifica como desafio central assegurar as bases políticas, institucionais e financeiras necessárias para sustentar um sistema de saúde público e universal. Reduzir desigualdades regionais, fortalecer a atenção primária, ampliar a capacidade de gestão e garantir a continuidade do cuidado são, segundo ela, condições essenciais para aproximar o direito constitucional à saúde da experiência cotidiana da população. Para a pesquisadora, o grande desafio é aproximar a universalidade garantida pela Constituição da experiência cotidiana da população. Fortalecer o SUS, afirma, significa reduzir desigualdades e fazer do direito à saúde uma realidade efetiva em todos os territórios do país.
Atividades programadas (sujeitas à alteração)
18/08 | terça | 16h | FCA Limeira
Palestra de abertura “Democracia, políticas sociais e fortalecimento do SUS”
19/08 | quarta | 09h | Casa do Lago
Roda de conversa “O acesso à atenção primária à saúde” – Troca de experiências com médicos de Angola
21/08 | sexta | 14h | FCM
Palestra “Implementação de políticas públicas de saúde: atores, práticas e iniquidades” [Curso “Mais Médicos Campinas”]
28/09 | segunda | 14h | FCM
Palestra “Do social ao político: o desafio da atenção a grupos vulnerabilizados” [Atividade com médicos residentes da Unicamp]
29/09 | terça | 14h | IdEA
Café com IdEA | Participação especial de Carmem Leitão
Foto de capa:

