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Unicamp aprova concessão de título de Doutora Honoris Causa à escritora Conceição Evaristo

Pela primeira vez, honraria é dada a uma mulher negra; bioquímico uruguaio Rafael Radi também recebeu o reconhecimento acadêmico

Pela primeira vez, a Unicamp concederá um título de Doutora Honoris Causa a uma mulher negra. Colocada para votação no Conselho Universitário (Consu) nesta terça-feira (4), a proposta do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) em reconhecimento à escritora, poetisa e professora mineira Conceição Evaristo recebeu aprovação unânime e aplausos de pé após o anúncio do resultado. O bioquímico uruguaio Rafael Radi, com importante contribuição na ciência latino-americana, também teve seu nome aprovado após solicitação dos representantes do Instituto de Biologia (IB). As solenidades de outorga dos títulos ainda serão marcadas.

*Leia mais: Uma das principais vozes da literatura afro-brasileira, Conceição Evaristo ministra aula na Universidade*

Durante a apresentação da proposta do nome de Conceição Evaristo, ficaram evidentes as manifestações de apoio de representantes de diferentes unidades da Universidade. Os participantes destacaram a relevância da autora para a literatura brasileira, sua contribuição para o debate sobre as relações raciais e o significado institucional da homenagem. “É um momento, realmente, muito valioso para todos nós”, afirmou o reitor, Paulo Cesar Montagner.

Pessoa com cabelo grisalho ondulado, vestindo blusa branca com detalhes em padrão vazado e cardigan bege claro, com mão direita levada ao rosto próximo à boca, usando anel dourado e bracelete dourado, posicionada em frente a parede branca com elementos decorativos em turquesa na parte superior e texto parcialmente visível em turquesa contendo ".com".
Conceição Evaristo durante participação na Feira Literária Internacional de Paraty em julho último (Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil)

O coordenador-geral da Unicamp, Fernando Coelho, afirmou que a iniciativa do IEL representa um reconhecimento não apenas da importância de Conceição Evaristo para a literatura nacional, mas também de sua contribuição para a reflexão sobre as relações raciais no Brasil. “A homenagem ganha um significado especial ao reconhecer uma intelectual negra em um contexto marcado pelo apagamento histórico da produção intelectual da população negra”, disse ele. Como exemplo, citou o embranquecimento da imagem do escritor Machado de Assis ao longo da história.

Coelho observou ainda que as mulheres negras enfrentam desafios específicos, sendo frequentemente invisibilizadas, e defendeu que universidades têm a responsabilidade de reconhecer publicamente trajetórias que contribuíram para a construção da identidade e da cultura nacionais.

O professor Petrilson Alan Pinheiro da Silva, diretor do IEL, ressaltou que a aprovação da proposta representa o reconhecimento institucional de uma mulher negra cuja obra transformou a literatura brasileira contemporânea. A indicação foi construída coletivamente e contou com o trabalho de uma comissão responsável pela elaboração do parecer que fundamentou a homenagem. Além da condução positiva pelos órgãos colegiados, o IEL também aprovou uma moção de apoio à concessão do título, medida que Silva classificou como inédita e que evidencia o amplo consenso em torno da homenageada.

“Conceição Evaristo tornou-se referência para gerações de leitores, especialmente para aqueles que historicamente não se viam representados na literatura brasileira. A escritora recupera e atualiza a tradição oral afro-brasileira ao reivindicar o direito de pessoas negras narrarem suas próprias histórias, ampliando o debate sobre o direito à literatura não apenas como acesso às obras, mas também como direito à produção literária”, afirmou o professor.

Silva lembrou o reconhecimento nacional e internacional da autora, citando versos do poema Da calma e do silêncio, que inspiraram o título da 36ª Bienal de São Paulo, realizada em 2025. “Nem todo viandante anda estradas, há mundos submersos, que só o silêncio da poesia penetra”, finalizou.

Sala de reuniões com duas telas de vídeo na parede exibindo pessoas em videoconferência, aproximadamente 15 pessoas sentadas ao redor de uma mesa de madeira com laptops e garrafas de água, algumas usando óculos, vestindo roupas em tons de azul, preto, marrom e branco, com bandeiras coloridas ao fundo direito e iluminação de teto fluorescente.
Sessão Ordinária do Conselho Universitário durante a votação dos títulos de Honoris Causa

Histórico

A diretora da Faculdade de Educação (FE), professora Débora Cristina Jeffrey, classificou a aprovação da proposta como um momento histórico para a Universidade. Ela afirmou que a homenagem ultrapassa o reconhecimento individual da escritora e representa a valorização da produção intelectual de autores e autoras negros, cuja contribuição tem ampliado o debate sobre identidade, memória e ancestralidade. “A obra de Conceição Evaristo reafirma a importância das raízes afro-brasileiras e da memória ancestral”, apontou. Como exemplo, mencionou um trecho do livro Olhos d’Água, publicado em 2014, em que a escritora estabelece relações entre a figura materna, a simbologia de Oxum (divindade das religiões de matriz africana, conhecida como a orixá das águas doces, do amor e da riqueza) e a construção da identidade negra.

Ainda de acordo com a diretora da FE, a concessão do título de Doutora Honoris Causa reafirma o compromisso da Unicamp com o reconhecimento de personalidades cuja atuação contribui para a transformação da sociedade brasileira e representa o resultado de um esforço coletivo de diferentes instâncias da Universidade.

Justiça

Representando os servidores técnico-administrativos, o conselheiro Reginaldo Alves, do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) e ex-aluno do IEL, acrescentou que a homenagem representa um reconhecimento, ainda que tardio, da contribuição de Conceição Evaristo para a literatura brasileira e para a valorização da literatura negra no país. “A escritora redefine os contornos da literatura brasileira contemporânea e tensiona os limites históricos da representação no campo cultural. Sua obra alia excelência estética à intervenção no debate público ao dar centralidade a experiências historicamente silenciadas”, definiu. Para o conselheiro, a concessão do título não representa apenas uma homenagem individual, mas um gesto institucional de valorização da diversidade, da memória social e da justiça simbólica na cultura nacional.

Homenagem a Rafael Radi
Pessoa com calvície parcial e barba grisalha, vestindo blazer cinza e camisa social azul com listras brancas, posicionada de frente para a câmera em frente a um edifício com fachada em tons de verde, azul e bege com elementos arquitetônicos geométricos, com vegetação visível ao fundo direito e céu nublado ao fundo.
O bioquímico Rafael Radi: fortalecimento das redes de pesquisa na América Latina

O bioquímico uruguaio Rafael Radi também foi homenageado pelo Consu da Unicamp com a aprovação da concessão do título de Doutor Honoris Causa, em reconhecimento à sua destacada trajetória científica e à contribuição para a integração da pesquisa latino-americana. Conforme destacou o diretor do IB, Hernandes de Carvalho, o uruguaio construiu uma carreira de projeção internacional, com mais de 360 artigos científicos e capítulos de livros publicados.

Além da produção científica, foi ressaltada sua atuação na articulação e no fortalecimento de redes de pesquisa na América Latina. Segundo o parecer apresentado ao Consu, Radi desempenhou papel relevante nas atividades de pesquisa, proporcionando a cooperação científica entre instituições. “Para o Instituto de Biologia, a combinação entre excelência científica, inovação e compromisso com a integração da pesquisa latino-americana justifica a concessão do título”, apontou Carvalho.

Foto de capa:

Duas pessoas posicionadas lado a lado em composição de colagem sobre fundo desfocado em tons de verde e azul; pessoa à esquerda veste blusa branca com detalhes em relevo e casaco bege claro, possui cabelo branco ondulado e mão esquerda próxima ao rosto; pessoa à direita veste camisa azul clara e blazer cinza, possui cabelo grisalho e barba, ambas olhando em direção à câmera com expressão neutra, com edifícios turquesa e estruturas urbanas desfocadas ao fundo.

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