Pela primeira vez, a Unicamp concederá um título de Doutora Honoris Causa a uma mulher negra. Colocada para votação no Conselho Universitário (Consu) nesta terça-feira (4), a proposta do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) em reconhecimento à escritora, poetisa e professora mineira Conceição Evaristo recebeu aprovação unânime e aplausos de pé após o anúncio do resultado. O bioquímico uruguaio Rafael Radi, com importante contribuição na ciência latino-americana, também teve seu nome aprovado após solicitação dos representantes do Instituto de Biologia (IB). As solenidades de outorga dos títulos ainda serão marcadas.
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Durante a apresentação da proposta do nome de Conceição Evaristo, ficaram evidentes as manifestações de apoio de representantes de diferentes unidades da Universidade. Os participantes destacaram a relevância da autora para a literatura brasileira, sua contribuição para o debate sobre as relações raciais e o significado institucional da homenagem. “É um momento, realmente, muito valioso para todos nós”, afirmou o reitor, Paulo Cesar Montagner.

O coordenador-geral da Unicamp, Fernando Coelho, afirmou que a iniciativa do IEL representa um reconhecimento não apenas da importância de Conceição Evaristo para a literatura nacional, mas também de sua contribuição para a reflexão sobre as relações raciais no Brasil. “A homenagem ganha um significado especial ao reconhecer uma intelectual negra em um contexto marcado pelo apagamento histórico da produção intelectual da população negra”, disse ele. Como exemplo, citou o embranquecimento da imagem do escritor Machado de Assis ao longo da história.
Coelho observou ainda que as mulheres negras enfrentam desafios específicos, sendo frequentemente invisibilizadas, e defendeu que universidades têm a responsabilidade de reconhecer publicamente trajetórias que contribuíram para a construção da identidade e da cultura nacionais.
O professor Petrilson Alan Pinheiro da Silva, diretor do IEL, ressaltou que a aprovação da proposta representa o reconhecimento institucional de uma mulher negra cuja obra transformou a literatura brasileira contemporânea. A indicação foi construída coletivamente e contou com o trabalho de uma comissão responsável pela elaboração do parecer que fundamentou a homenagem. Além da condução positiva pelos órgãos colegiados, o IEL também aprovou uma moção de apoio à concessão do título, medida que Silva classificou como inédita e que evidencia o amplo consenso em torno da homenageada.
“Conceição Evaristo tornou-se referência para gerações de leitores, especialmente para aqueles que historicamente não se viam representados na literatura brasileira. A escritora recupera e atualiza a tradição oral afro-brasileira ao reivindicar o direito de pessoas negras narrarem suas próprias histórias, ampliando o debate sobre o direito à literatura não apenas como acesso às obras, mas também como direito à produção literária”, afirmou o professor.
Silva lembrou o reconhecimento nacional e internacional da autora, citando versos do poema Da calma e do silêncio, que inspiraram o título da 36ª Bienal de São Paulo, realizada em 2025. “Nem todo viandante anda estradas, há mundos submersos, que só o silêncio da poesia penetra”, finalizou.

Histórico
A diretora da Faculdade de Educação (FE), professora Débora Cristina Jeffrey, classificou a aprovação da proposta como um momento histórico para a Universidade. Ela afirmou que a homenagem ultrapassa o reconhecimento individual da escritora e representa a valorização da produção intelectual de autores e autoras negros, cuja contribuição tem ampliado o debate sobre identidade, memória e ancestralidade. “A obra de Conceição Evaristo reafirma a importância das raízes afro-brasileiras e da memória ancestral”, apontou. Como exemplo, mencionou um trecho do livro Olhos d’Água, publicado em 2014, em que a escritora estabelece relações entre a figura materna, a simbologia de Oxum (divindade das religiões de matriz africana, conhecida como a orixá das águas doces, do amor e da riqueza) e a construção da identidade negra.
Ainda de acordo com a diretora da FE, a concessão do título de Doutora Honoris Causa reafirma o compromisso da Unicamp com o reconhecimento de personalidades cuja atuação contribui para a transformação da sociedade brasileira e representa o resultado de um esforço coletivo de diferentes instâncias da Universidade.
Justiça
Representando os servidores técnico-administrativos, o conselheiro Reginaldo Alves, do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) e ex-aluno do IEL, acrescentou que a homenagem representa um reconhecimento, ainda que tardio, da contribuição de Conceição Evaristo para a literatura brasileira e para a valorização da literatura negra no país. “A escritora redefine os contornos da literatura brasileira contemporânea e tensiona os limites históricos da representação no campo cultural. Sua obra alia excelência estética à intervenção no debate público ao dar centralidade a experiências historicamente silenciadas”, definiu. Para o conselheiro, a concessão do título não representa apenas uma homenagem individual, mas um gesto institucional de valorização da diversidade, da memória social e da justiça simbólica na cultura nacional.
Homenagem a Rafael Radi

O bioquímico uruguaio Rafael Radi também foi homenageado pelo Consu da Unicamp com a aprovação da concessão do título de Doutor Honoris Causa, em reconhecimento à sua destacada trajetória científica e à contribuição para a integração da pesquisa latino-americana. Conforme destacou o diretor do IB, Hernandes de Carvalho, o uruguaio construiu uma carreira de projeção internacional, com mais de 360 artigos científicos e capítulos de livros publicados.
Além da produção científica, foi ressaltada sua atuação na articulação e no fortalecimento de redes de pesquisa na América Latina. Segundo o parecer apresentado ao Consu, Radi desempenhou papel relevante nas atividades de pesquisa, proporcionando a cooperação científica entre instituições. “Para o Instituto de Biologia, a combinação entre excelência científica, inovação e compromisso com a integração da pesquisa latino-americana justifica a concessão do título”, apontou Carvalho.
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