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Obra recriada 50 anos depois ganha novo significado em exposição na Gaia

Instalação apresentada na Bienal de Veneza em 1976 é reconstruída com folhas e galhos do campus de Barão Geraldo

Uma instalação com caixas de papelão repletas de folhas e galhos chamou atenção na Bienal de Veneza de 1976. O artista Sergio Augusto Porto, um dos representades do Brasil na prestigiada mostra de arte mundial, transformou a flora de parques do Rio de Janeiro em uma reflexão sobre consumo e meio ambiente. Cinco décadas depois, a obra foi recriada pelo próprio artista com material retirado do campus da Unicamp em Barão Geraldo para a exposição “Linha de Fuga”, que será inaugurada no dia 6 de agosto na Galeria de Arte do Instituto de Artes (Gaia).

A reconstrução da obra nasceu de uma pesquisa de doutorado realizada por Gabrieli Simões, no Programa de Pós-graduação em História do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), sob a orientação do professor Gabriel Zacarias, diretor do Museu de Artes Visuais (MAV), que investiga as relações entre arte e ecologia nos anos 1970.

Caixa de papelão contendo folhas secas com coloração em tons de vermelho, roxo, marrom e verde, dispostas de forma irregular no interior da embalagem, com fundo azul visível ao topo da imagem e superfície verde visível na base.
As folhas da instalação atual foram recolhidas na Unicamp

Premiada na categoria Objeto do Panorama da Arte Brasileira, do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP), em 1975, a instalação original permaneceu desde então na reserva técnica do museu paulistano. A partir de uma mediação entre o MAV e a curadoria do MAM-SP, a equipe da Unicamp visitou o acervo ao lado do artista para coletar informações sobre sua montagem.

Como a instalação havia passado por um delicado processo de conservação e apresentava grande fragilidade, ficou decidido que, ao invés de seu empréstimo, seria produzida uma nova versão para a mostra na Gaia. “As folhas da instalação original passaram por um tratamento especializado para eliminar fungos, preservando o material sem a necessidade de desmontar as caixas, uma solução encontrada pela equipe de conservação do MAM-SP”, conta Zacarias. Na recriação da “natureza encaixotada”, a nova versão conta agora com caixas de reuso da Editora da Unicamp. Depois da mostra, a obra passará a integrar o acervo do MAV.

Hoje, aos 80 anos, Porto acompanhou a reconstrução da instalação e estará presente na abertura da exposição. A relação entre arte, natureza e espaço sempre esteve no centro de sua arte. Nascido no Rio de Janeiro, em 1946, e formado em Arquitetura pela Universidade de Brasília (UnB), o artista destacou-se por criar instalações e intervenções que convidam o público a experimentar a paisagem de forma sensorial, rompendo com os limites tradicionais dos museus e galerias.

Oito pessoas em pé alinhadas em uma sala branca com piso cinzento, sendo a segunda pessoa da esquerda com a mão direita no ombro da terceira pessoa, a quinta pessoa segurando um objeto azul na mão direita, à esquerda uma escada vermelha com um painel de madeira apoiado, vestindo roupas em tons de azul, preto, cinzento, rosa, roxo e verde, com óculos alguns deles, em um ambiente com paredes brancas e equipamentos azuis ao fundo.
Integrantes do MAM-SP e MAV durante encontro com Sergio Augusto Porto em São Paulo

“Em seu trabalho, Porto propõe uma reflexão sobre a exploração ambiental, a industrialização acelerada e a tentativa de domesticar a paisagem, questões que hoje ganham novos significados diante da crise climática”, explica a curadora. Foi nesse percurso que ela encontrou o artista. “Cheguei a essa obra durante minha pesquisa e percebi a força e a atualidade das questões que levantava”, conta. Depois de uma série de entrevistas e visitas ao ateliê de Porto, iniciadas em 2024, surgiu a proposta de realizar a mostra e reconstruir a instalação na Unicamp.

A nova montagem preserva o conceito original, mas estabelece um diálogo direto com o lugar onde agora será exibida. As folhas e os galhos coletados no campus servem para aproximar a obra da vegetação vista pelo visitante do lado de fora da galeria. “A ideia foi criar essa conexão com a paisagem local. Quem entra na exposição encontra, dentro da galeria, elementos da mesma natureza do lado de fora”, destaca a curadora. A reconstrução guarda ainda outro elo com a obra de 50 anos atrás. “Para refazer uma das estruturas de madeira, Porto utilizou as mesmas toras de pinho que havia preservado desde a montagem original”, completa.

Pessoa de cabelos longos castanhos, usando óculos de armação tartaruga, camisa listrada e relógio, sorrindo em frente a uma parede com pinturas abstratas em tons de azul e laranja enfileiradas em uma galeria de arte.
A historiadora Gabrieli Simões: reconstrução da obra nasceu de uma pesquisa de doutorado

Além da reconstrução da instalação, a mostra apresenta fotografias, desenhos, pinturas, experiências com fotocópia, objetos e intervenções que percorrem diferentes momentos da trajetória de Porto. Entre os destaques, está “Paisagem-Relevo” (1971), que também será incorporada ao acervo do MAV. Nessa obra, um grande bloco de madeira é inserido na paisagem da Barra da Tijuca, antecipando reflexões sobre as transformações do espaço urbano e a relação entre intervenção humana e natureza.

Embora menos conhecido do grande público que outros artistas de sua geração, Porto foi um dos pioneiros na incorporação das questões ecológicas à arte contemporânea brasileira. “O artista trabalha frequentemente com elementos que rompem a paisagem, como espelhos e intervenções que interrompem o horizonte. São obras que criam novas possibilidades de olhar para a natureza”, aponta a curadora.

Para Simões, a mostra representa também um marco pessoal. Trata-se da primeira curadoria individual da historiadora, que conheceu a Universidade durante uma edição do Unicamp de Portas Abertas (UPA) quando ainda estava no ensino médio. Após a graduação, o mestrado e, agora, o doutorado, Simões contabiliza 16 anos na Universidade. “Eu me apaixonei pela Unicamp quando a visitei. Estar aqui agora como pesquisadora e realizar uma exposição que nasceu da minha tese é muito gratificante.”

Serviço:

Exposição Sergio Augusto Porto: Linha de Fuga
Curadoria: Gabrieli Simões

Abertura dia 6 de agosto, às 12h. Encontro com artista, curadora e o público às 13h

Visitação até 4 de setembro, de segunda-feira a sexta-feira, das 9h às 17h, exceto feriados

Galeria do Instituto de Artes (Gaia) – Térreo da Biblioteca Central – Rua Sérgio Buarque de Holanda, s/nº – Cidade Universitária, Campinas

Foto de capa:

Série de sete quadros com molduras de madeira em tons marrom e dourado pendurados em linha horizontal em parede branca, contendo desenhos em tinta preta sobre papel bege que retratam plantas e vegetação em diferentes estágios de crescimento e transformação, com as imagens se tornando progressivamente mais abstratas e densas da esquerda para a direita.
Visitação na Gaia pode ser feita até 4 de setembro, de segunda a sexta-feira
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