Conteúdo principal Menu principal Rodapé
Inovação Notícias Pesquisa

Tecnologia pode ampliar acesso a transplante capilar

Técnica 100% nacional deve reduzir tempo de operação e pode beneficiar pacientes que não são aptos ao tratamento convencional

Logo do Prêmio Inventores Unicamp composto por duas silhuetas de perfil de cabeças humanas em cores degradê (verde-limão à esquerda e azul-petróleo à direita) unidas por uma lâmpada estilizada no centro em tons de verde e azul, com texto em cor cinza-azulado abaixo lendo "PRÊMIO INVENTORES UNICAMP" em três linhas.

Pesquisadores da Unicamp desenvolveram um método capaz de replicar folículos capilares em laboratório a partir de uma pequena amostra do próprio paciente, entre 50 e 120 unidades, para produzir um volume maior de folículos viáveis para transplante. A tecnologia, ainda em fase pré-clínica, pode abrir o procedimento a um grupo hoje considerado inelegível para o transplante convencional: pacientes sem área doadora suficiente, além de pessoas que perderam cabelo em decorrência de quimioterapia ou queimaduras.

O método foi criado por uma equipe do Instituto de Biologia (IB) e da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp, reunindo expertise em nanotecnologia, cultura celular e medicina regenerativa. O ponto de partida foi uma demanda identificada por cirurgiões capilares parceiros, que frequentemente precisam recusar pacientes por insuficiência de área doadora – geralmente na nuca e nas laterais da cabeça, de onde os folículos são retirados para serem implantados.

No laboratório, os folículos coletados são “desmontados” por meio de reagentes, liberando tipos celulares distintos, como queratinócitos, células-tronco e células mesenquimais. Essas células são cultivadas em frascos com meio de cultura adequado até se multiplicarem. Em seguida, são transferidas para placas especiais que induzem a formação de estruturas tridimensionais chamadas organoides, que replicam a arquitetura do folículo original e iniciam o crescimento de fios.

Pessoa usando jaleco branco com nome "Mathes" e luvas azuis manipula um instrumento em uma bandeja preta dentro de um laboratório equipado com bancadas brancas, iluminação de teto linear, recipientes coloridos (vermelho, azul e turquesa), equipamentos brancos à direita e janelas com vidraças ao fundo.
No laboratório, os folículos coletados são “desmontados” por meio de reagentes, liberando tipos celulares distintos

“Tiramos a matéria-prima da própria pessoa, diminuindo, assim, a possibilidade da rejeição. Se pegarmos parte dos folículos daquela pessoa e expandirmos no laboratório, teremos muito mais folículos para conseguir fazer o transplante. Dessa forma, as pessoas que não são elegíveis porque não têm área doadora acabam tendo uma oportunidade”, explica o doutorando do IB André Lopes Ferreira, que participou do desenvolvimento da nova técnica.

A pesquisa segue um protocolo de desenvolvimento em etapas e encontra-se em fase de caracterização e estudos in vitro, com previsão de 18 meses para encerrar a fase pré-clínica completa, que inclui também experimentos em animais. Somente após essa etapa o método será submetido à avaliação em seres humanos, seguindo os protocolos regulatórios estabelecidos internacionalmente para soluções terapêuticas.

Tecnologia amplia público apto ao transplante

Para pacientes com alopecia avançada, ou seja, aqueles que não têm folículos suficientes para o transplante convencional, a tecnologia representa uma segunda chance de acesso ao tratamento. No modelo tradicional, um cirurgião retira folículos da área doadora e os implanta manualmente, um a um, em um procedimento que pode durar de oito a dez horas. Com o novo método, o cirurgião recebe os folículos já expandidos e selecionados pelo laboratório, o que pode reduzir o tempo cirúrgico para cerca de duas horas. Assim, alivia-se o estresse físico do paciente e aumenta-se a precisão do procedimento, já que a fadiga do cirurgião durante uma cirurgia longa é um fator reconhecido de queda na taxa de sucesso.

A proposta é igualmente promissora para pacientes oncológicos. Antes do início da quimioterapia, seria possível coletar e armazenar folículos em nitrogênio líquido ou em freezers a -80°C. Com o protocolo de criopreservação em desenvolvimento, esses folículos poderiam ser descongelados e multiplicados no futuro para recompor o cabelo perdido durante o tratamento, uma perspectiva especialmente relevante para mulheres, que frequentemente não recuperam os fios com a mesma densidade após a quimioterapia.

“Para quem enfrenta um tratamento difícil como o de câncer, saber que poderá recuperar o cabelo lá na frente pode trazer um alívio enorme para enfrentar a doença”, afirma Wagner Fávaro, professor do IB e responsável pelo desenvolvimento do know-how.

A recuperação pós-operatória também deve ser afetada positivamente. Como os folículos expandidos passam por uma seleção de qualidade antes do implante, espera-se que os mais resistentes sejam priorizados, reduzindo o processo inflamatório e acelerando o período de recuperação. Após a fase pré-clínica, o protocolo de acompanhamento clínico dos pacientes deve durar 24 meses, segundo a estimativa dos pesquisadores, com avaliações mensais que incluem exames, mapeamento do couro cabeludo e monitoramento hormonal. O grupo destaca que os resultados da tecnologia dependem não apenas do implante em si, mas de todo o ecossistema de cuidado contínuo ao redor do procedimento.

Do ponto de vista científico, o principal desafio ainda não resolvido globalmente é garantir que os folículos produzidos em laboratório mantenham as características originais do paciente, como textura, curvatura e cor, sem que o processo de multiplicação altere essas propriedades. A equipe da Unicamp acredita que, por partir das células do próprio folículo primário, a tendência é que as características sejam preservadas, mas o protocolo definitivo ainda está sendo estabelecido.

Pessoa em jaleco branco e luvas azuis opera equipamento de pipetagem automática sobre bancada de granito cinza, depositando líquido amarelo em placa de Petri com meio de cultura vermelho, com frascos contendo líquidos coloridos (vermelho e azul), materiais de laboratório e equipamentos diversos visíveis ao fundo desfocado.
Para pacientes com alopecia avançada, a tecnologia representa uma segunda chance de acesso ao tratamento

Fávaro vai além e vislumbra um horizonte ainda mais abrangente. “Como conheceremos a fundo a característica de cada folículo, poderemos selecioná-los. Se o paciente quiser um cabelo diferente, poderemos prever isso. Se essa possibilidade se concretizar, o número de transplantes pode aumentar significativamente”, afirma.

Spin-off acadêmica

Para viabilizar a transferência da tecnologia ao mercado, foi constituída uma joint-venture entre a Aeter Biotech e a empresa do cirurgião capilar Thiago Bianco, a chamada Aeter Bianco. A Aeter Biotech é uma spin-off acadêmica da Unicamp, um modelo de empresa em que o núcleo do negócio é uma tecnologia ou um conhecimento gerado dentro da Universidade e cujo propósito central é levar esse saber ao mercado e, por consequência, à sociedade. Diferentemente de uma empresa convencional, que pode eventualmente licenciar uma patente ou conhecimento gerado no ambiente universitário, a spin-off acadêmica nasce com o propósito de ampliar o alcance dos resultados de pesquisa para além do espaço acadêmico.

A Agência de Inovação Inova Unicamp acompanhou o projeto da empresa, atuando na proteção da propriedade intelectual, na transferência do know-how e no registro da spin-off como empresa-filha da Universidade. “A Agência de Inovação tem um papel primordial dentro de toda e qualquer tecnologia desenvolvida”, afirma Fávaro. A Aeter Bianco, ao lado da Aeter Biotech, integra um ecossistema de mais de 60 spin-offs acadêmicas da Unicamp, mapeadas pela Inova Unicamp.

Os próximos passos envolvem a conclusão da fase pré-clínica, a submissão do projeto para ensaios clínicos em humanos e, a médio prazo, a transferência da tecnologia para clínicas e cirurgiões habilitados. A Aeter Bianconão pretende operar como clínica estética ou indústria, mas como fornecedora de tecnologia de alto potencial de inovação para o setor médico. A visão dos fundadores é ainda mais ampla, pois querem que o Brasil “passe a exportar esse tipo de solução. Começando pelo mercado de transplante capilar, que movimenta bilhões de dólares globalmente e ainda carece de alternativas eficazes para os casos mais complexos”, conclui Fávaro.

Prêmio Inventores 2026

Em sua 19ª edição, o Prêmio Inventores da Unicamp, organizado pela Inova Unicamp, reconhece e valoriza os inventores que se destacaram na transferência de tecnologias da Universidade e na criação de empresas spin-offs acadêmicas.

Inventores premiados:

Wagner José Fávaro, João Carlos Cardoso Alonso e André Lopes Ferreira foram premiados na categoria Propriedade Intelectual Licenciada em 2026.

Confira a lista completa de todos os premiados no site do Prêmio Inventores da Unicamp.

Programação de homenagens de 2026

Em comemoração ao Prêmio Inventores 2026, a Inova Unicamp organizou uma série de homenagens. Entre elas, estão reportagens destacando casos premiados deste ano, disponíveis para leitura nos sites da Inova Unicamp e do Prêmio Inventores.

Dando continuidade às celebrações, no dia 4 de agosto, a Inova promove um evento presencial para compartilhar desafios, aprendizados e oportunidades na utilização da inteligência artificial nos processos de inovação e criação de empresas spin-offs na Universidade. A participação é aberta ao público. Faça sua inscrição gratuita aqui.

O Prêmio Inventores 2026 tem o apoio institucional do Lumina, o Fundo Patrimonial da Unicamp, e o patrocínio de ClarkeModet e FM2S.

Matéria publicada originalmente no site da Inova Unicamp.

Foto de capa:

Pessoa usando jaleco branco com identificação e logo da Unicamp, luva azul na mão direita levantada segurando uma placa de petri transparente, em ambiente de laboratório com equipamentos ao fundo, parede branca, painel de controle e etiqueta visível no lado direito.
O professor do IB Wagner Fávaro: demanda identificada por cirurgiões capilares
Ir para o topo