Antes de se transformar em uma das maiores manifestações públicas do mundo, a Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo nasceu em 1997 para desafiar uma ideia de invisibilidade imposta pela sociedade. “Diziam que essa comunidade era pequena, que eram pessoas tristes, que levavam uma vida escondida”, recorda a antropóloga Regina Facchini, pesquisadora do Núcleo de Estudos de Gênero Pagu da Unicamp. Ela coordena um projeto de pesquisa que reunirá documentos, fotografias, entrevistas e registros audiovisuais produzidos ao longo das três décadas de Parada do Orgulho LGBT+, a fim de propor que seja reconhecida como patrimônio cultural brasileiro.
Desenvolvido pelo Pagu em parceria com a Associação da Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo (APOLGBT-SP), o trabalho dará origem a um fundo de memória dedicado à trajetória do evento, preservando um acervo que ficará disponível para pesquisadores e para a sociedade no Arquivo Edgard Leuenroth (AEL), da Unicamp.
A primeira Parada em São Paulo reuniu milhares de pessoas na Avenida Paulista sob o lema “Somos muitos, estamos em todos os lugares e em todas as profissões”. “Essa história construída para romper a invisibilidade inspirou outras manifestações pelo país. O Brasil reúne atualmente uma quantidade estimada de 315 paradas do orgulho LGBTQIA+, muitas inspiradas na experiência paulistana”, conta Facchini.

A pesquisadora destaca que a Parada promove encontros nacionais de organizadores e compartilha experiências para fortalecer iniciativas em diferentes regiões do país. “A Parada não é apenas aquele evento que acontece uma vez por ano. Ela é uma associação, com atividades o ano inteiro. Articula movimentos de todo o país e promove a formação de organizadores, com uma trajetória que mobiliza milhares de pessoas e produz impactos que vão da cultura e da educação ao turismo, à economia e à saúde”, explica.
Acervo da diversidade
A pesquisa, que seguirá até abril de 2027, combina levantamento documental, entrevistas, observação de campo, oficinas de produção de memória e registros audiovisuais. Também está prevista a produção de um documentário sobre os 30 anos da Parada e de publicações que reconstituem sua trajetória.
Além dos documentos já existentes, a pesquisa produzirá novos registros por meio de entrevistas com organizadores, ativistas, artistas e frequentadores da Parada, além de gestores públicos, compondo um acervo que busca refletir a diversidade de experiências construídas ao longo dessas três décadas.
Uma parte importante do trabalho será reunir documentos hoje dispersos em arquivos pessoais, redes sociais e acervos particulares. “A memória da Parada existe, mas está espalhada. Há documentos produzidos pela associação, fotografias, vídeos, materiais de campanhas, relatos de participantes e muitos registros que correm o risco de se perder. Os 30 anos representam também um momento de cuidar dessa história”, afirma Facchini.
O projeto reúne pesquisadores de diferentes áreas das ciências sociais, antropologia, patrimônio cultural e memória social, além de estudantes envolvidos na produção e na organização do acervo. Entre os integrantes do grupo, está o professor emérito da Unicamp Antonio Augusto Arantes Neto, antropólogo e pesquisador da área de patrimônio cultural. Segundo ele, preservar esse conjunto documental também é uma responsabilidade da universidade. “Muitas vezes são documentos privados, destruídos pelas próprias famílias quando as pessoas morrem ou que as pessoas não podiam guardar porque poderiam incriminá-las. A universidade tem obrigação de acolher essa documentação”, afirma.

Para Arantes Neto, a iniciativa reconhece uma manifestação que passou a integrar a história cultural brasileira. Preservar essas fontes, argumenta, significa garantir que futuras pesquisas possam compreender a história das lutas por direitos e das transformações sociais no país. Além disso, em sua avaliação, a proposta dialoga com a ampliação do conceito de patrimônio cultural estabelecida a partir da Constituição de 1988, que passou a reconhecer também as formas de expressão e os modos de viver dos diferentes grupos que compõem a sociedade brasileira. “Ao propor a Parada como patrimônio cultural, reivindica-se um lugar nesse panteão da cultura brasileira”, ressalta.
O antropólogo e pesquisador considera, ainda, que a força da Parada está justamente na capacidade de reunir reivindicação política e expressão cultural. “É uma cultura alegre, performática”, afirma. “Ela tem um potencial de comunicação fortíssimo.”
Muito além de uma festa
Para Facchini, preservar a história da Parada significa reconhecer sua importância como manifestação cultural e democrática. A docente lembra que, na época da primeira edição do evento, direitos hoje consolidados, como o reconhecimento das uniões entre pessoas do mesmo sexo, ainda eram reivindicações do movimento LGBTQIA+.
Segundo Facchini, o caráter festivo nunca significou ausência de reivindicação política, pelo contrário. Desde sua criação, a Parada reúne manifestações culturais, campanhas de prevenção em saúde, ações educativas, debates sobre direitos e atividades de formação promovidas pela associação organizadora. “Ela faz um trabalho educativo tanto para a comunidade quanto para quem está fora dela”, considera Facchini.
Ao longo de três décadas, a manifestação incorporou dimensões culturais, educativas e comunitárias. Além do impacto econômico e turístico para a cidade de São Paulo, tornou-se espaço para campanhas de saúde, ações educativas, debates sobre cidadania e articulação entre organizações de todo o país. “É uma das formas mais bem-sucedidas de manifestação pública que existem no Brasil. Preservar essa memória é também preservar uma parte importante da história da democracia brasileira”, conclui a pesquisadora.
Ao reunir documentos, imagens, relatos e memórias de quem construiu a Parada ao longo de três décadas, a pesquisa pretende preservar não apenas a história de uma manifestação pública, mas também a trajetória de um movimento que ajudou a ampliar direitos, ocupar os espaços públicos e transformar a democracia brasileira.
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