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Atualidades Cultura e Sociedade

Pesquisa transforma memória da Parada do Orgulho LGBT+ em patrimônio documental

Projeto do Núcleo de Estudos de Gênero Pagu reunirá 30 anos de documentos, fotografias, entrevistas e registros audiovisuais

Antes de se transformar em uma das maiores manifestações públicas do mundo, a Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo nasceu em 1997 para desafiar uma ideia de invisibilidade imposta pela sociedade. “Diziam que essa comunidade era pequena, que eram pessoas tristes, que levavam uma vida escondida”, recorda a antropóloga Regina Facchini, pesquisadora do Núcleo de Estudos de Gênero Pagu da Unicamp. Ela coordena um projeto de pesquisa que reunirá documentos, fotografias, entrevistas e registros audiovisuais produzidos ao longo das três décadas de Parada do Orgulho LGBT+, a fim de propor que seja reconhecida como patrimônio cultural brasileiro.

Desenvolvido pelo Pagu em parceria com a Associação da Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo (APOLGBT-SP), o trabalho dará origem a um fundo de memória dedicado à trajetória do evento, preservando um acervo que ficará disponível para pesquisadores e para a sociedade no Arquivo Edgard Leuenroth (AEL), da Unicamp.

A primeira Parada em São Paulo reuniu milhares de pessoas na Avenida Paulista sob o lema “Somos muitos, estamos em todos os lugares e em todas as profissões”. “Essa história construída para romper a invisibilidade inspirou outras manifestações pelo país. O Brasil reúne atualmente uma quantidade estimada de 315 paradas do orgulho LGBTQIA+, muitas inspiradas na experiência paulistana”, conta Facchini.

Pessoa usando óculos e casaco bege, segurando uma revista com a palavra "2006" visível na capa, posicionada de perfil à direita da imagem, em frente a um mural de arte urbana colorida em parede de tijolos com elementos gráficos em tons de amarelo, vermelho, azul, verde e preto, incluindo formas abstratas e ilustrações estilizadas.
A antropóloga Regina Facchini: proposta de reconhecimento como patrimônio cultural brasileiro

A pesquisadora destaca que a Parada promove encontros nacionais de organizadores e compartilha experiências para fortalecer iniciativas em diferentes regiões do país. “A Parada não é apenas aquele evento que acontece uma vez por ano. Ela é uma associação, com atividades o ano inteiro. Articula movimentos de todo o país e promove a formação de organizadores, com uma trajetória que mobiliza milhares de pessoas e produz impactos que vão da cultura e da educação ao turismo, à economia e à saúde”, explica.

Acervo da diversidade

A pesquisa, que seguirá até abril de 2027, combina levantamento documental, entrevistas, observação de campo, oficinas de produção de memória e registros audiovisuais. Também está prevista a produção de um documentário sobre os 30 anos da Parada e de publicações que reconstituem sua trajetória.

Além dos documentos já existentes, a pesquisa produzirá novos registros por meio de entrevistas com organizadores, ativistas, artistas e frequentadores da Parada, além de gestores públicos, compondo um acervo que busca refletir a diversidade de experiências construídas ao longo dessas três décadas.

Uma parte importante do trabalho será reunir documentos hoje dispersos em arquivos pessoais, redes sociais e acervos particulares. “A memória da Parada existe, mas está espalhada. Há documentos produzidos pela associação, fotografias, vídeos, materiais de campanhas, relatos de participantes e muitos registros que correm o risco de se perder. Os 30 anos representam também um momento de cuidar dessa história”, afirma Facchini.

O projeto reúne pesquisadores de diferentes áreas das ciências sociais, antropologia, patrimônio cultural e memória social, além de estudantes envolvidos na produção e na organização do acervo. Entre os integrantes do grupo, está o professor emérito da Unicamp Antonio Augusto Arantes Neto, antropólogo e pesquisador da área de patrimônio cultural. Segundo ele, preservar esse conjunto documental também é uma responsabilidade da universidade. “Muitas vezes são documentos privados, destruídos pelas próprias famílias quando as pessoas morrem ou que as pessoas não podiam guardar porque poderiam incriminá-las. A universidade tem obrigação de acolher essa documentação”, afirma.

Pessoa adulta com cabelos grisalhos penteados para trás, barba grisalha, usando camisa polo preta com botões visíveis, em pose frontal de retrato profissional contra fundo cinza neutro.
O professor emérito da Unicamp Antonio Augusto Arantes Neto: história das lutas por direitos

Para Arantes Neto, a iniciativa reconhece uma manifestação que passou a integrar a história cultural brasileira. Preservar essas fontes, argumenta, significa garantir que futuras pesquisas possam compreender a história das lutas por direitos e das transformações sociais no país. Além disso, em sua avaliação, a proposta dialoga com a ampliação do conceito de patrimônio cultural estabelecida a partir da Constituição de 1988, que passou a reconhecer também as formas de expressão e os modos de viver dos diferentes grupos que compõem a sociedade brasileira. “Ao propor a Parada como patrimônio cultural, reivindica-se um lugar nesse panteão da cultura brasileira”, ressalta.

O antropólogo e pesquisador considera, ainda, que a força da Parada está justamente na capacidade de reunir reivindicação política e expressão cultural. “É uma cultura alegre, performática”, afirma. “Ela tem um potencial de comunicação fortíssimo.”

Muito além de uma festa

Para Facchini, preservar a história da Parada significa reconhecer sua importância como manifestação cultural e democrática. A docente lembra que, na época da primeira edição do evento, direitos hoje consolidados, como o reconhecimento das uniões entre pessoas do mesmo sexo, ainda eram reivindicações do movimento LGBTQIA+.

Segundo Facchini, o caráter festivo nunca significou ausência de reivindicação política, pelo contrário. Desde sua criação, a Parada reúne manifestações culturais, campanhas de prevenção em saúde, ações educativas, debates sobre direitos e atividades de formação promovidas pela associação organizadora. “Ela faz um trabalho educativo tanto para a comunidade quanto para quem está fora dela”, considera Facchini.

Ao longo de três décadas, a manifestação incorporou dimensões culturais, educativas e comunitárias. Além do impacto econômico e turístico para a cidade de São Paulo, tornou-se espaço para campanhas de saúde, ações educativas, debates sobre cidadania e articulação entre organizações de todo o país. “É uma das formas mais bem-sucedidas de manifestação pública que existem no Brasil. Preservar essa memória é também preservar uma parte importante da história da democracia brasileira”, conclui a pesquisadora.

Ao reunir documentos, imagens, relatos e memórias de quem construiu a Parada ao longo de três décadas, a pesquisa pretende preservar não apenas a história de uma manifestação pública, mas também a trajetória de um movimento que ajudou a ampliar direitos, ocupar os espaços públicos e transformar a democracia brasileira.

Foto de capa:

Multidão de pessoas em rua urbana segurando bandeiras e tecidos nas cores do arco-íris, com edifícios altos ao fundo, árvores frondosas nas laterais, céu azul, grande bandeira de arco-íris em primeiro plano sendo sustentada por várias pessoas, guarda-sóis vermelhos espalhados entre os participantes, carreata com estruturas coloridas ao fundo, e fachadas de prédios comerciais com painéis publicitários nas laterais.
O projeto de pesquisa reunirá documentos, fotografias, entrevistas e registros audiovisuais produzidos ao longo das três décadas de Parada do Orgulho LGBT+
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