A partir dos resultados da pesquisa “Datificação da atividade de comunicação e trabalho de arranjos de comunicadores: embates com as empresas de plataformas”, financiada pelo Edital Linguagem, Comunicação e Artes (LinCAr) da Fapesp, três materiais de divulgação foram elaborados para ajudar na conscientização de jovens e responsáveis sobre o funcionamento dessas redes.
A investigação dos termos de uso e privacidade das redes sociais da Meta (Instagram, Facebook e Whatsapp) mostra que a linguagem utilizada pela empresa é propositalmente fragmentada e vaga. Mas uma análise textual permitiu identificar indícios do processo de datificação. “É um processo que consiste na captura, armazenamento, compartilhamento e tratamento de nossos dados, uma vez que as empresas assumem abertamente o uso dessas informações para adequar seus modelos de negócio e, assim, expandir o acúmulo de seu capital”, explica Greciely Costa.
Costa é pesquisadora do Laboratório de Estudos Urbanos (Labeurb) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e membro do grupo de pesquisa. O projeto está sediado no Centro de Pesquisa em Comunicação e Trabalho (CPCT), da Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA/USP) e é coordenado por Roselí Fígaro, da Universidade de São Paulo (USP). O grupo tem analisado Termos de Uso e Política de Privacidade da empresa Meta e seus produtos, ilustrando quais dados são coletados e como a empresa se posiciona quanto a isso.

Segundo Costa, há uma naturalização da coleta de dados por dois motivos principais. O primeiro é a inviabilidade, no dia a dia, de os usuários lerem por completo as políticas de uso e privacidade. A extensão dos textos apresentados não é compatível com a alta demanda de uso das plataformas, que têm sido utilizadas para mediar inúmeras relações sociais e de trabalho. Em segundo, o fato de que a própria criação das contas de usuários nas redes obriga à adesão prévia aos termos impostos, deixando pouco ou quase nenhum espaço para a autonomia do usuário.
Fígaro explica que os dados são matéria-prima para diversos negócios. “Não há hoje setor econômico que não dependa de dados. Nesse sentido, a cadeia produtiva digital de dados, liderada por poucas empresas estadunidenses, coordena as demais cadeias produtivas. Da Mercedes Benz, ao agronegócio, à Rede Globo, todas são dependentes dos sistemas computacionais de Amazon, Alphabet, Microsoft, Meta, Atlassian, Oracle ou de algumas outras para capturar, processar e analisar dados. Desse modo, as plataformas digitais de dados controlam e monopolizam uma riqueza imensa, todos os dias renovada pela interação humano-computador. É nesse sentido que os Termos de uso entram. Eles são um contrato que nós assinamos sem ler e que dá a essas empresas todos os direitos sobre o que nós produzimos”, completa a pesquisadora.
Por exemplo, o Instagram, “ao afirmar que ‘coleta’ o que é ‘fornecido’ pelo usuário, a plataforma se exime da responsabilidade pela apropriação desses dados, transferindo-a ao sujeito, como se o usuário ‘concedesse’ a informação voluntariamente. Ao dizer isso, a empresa omite que extrai informações por meio de um mecanismo de captura do qual o usuário não pode escapar”, detalha Costa.

Cartilha educativa
A cartilha “Meta: se apropriar de seus dados” explicita como as redes sociais da Meta capturam e utilizam dados dos usuários. A publicação, coordenada por Costa, é resultado de uma disciplina oferecida por ela no curso de Especialização em Jornalismo Científico do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) da Unicamp. As autoras, Cristina Uchôa e Jennifer Zsürger, desenvolveram a cartilha para auxiliar responsáveis que convivem com crianças e adolescentes, público especialmente sensível à coleta de dados pelas plataformas.
“A lei que rege essa propriedade é a dos EUA. Estamos submetidos aos interesses e às legislações daquele país. Autorizamos que entrem em nossos dados e se apropriem deles. Por isso, a Cartilha é da maior importância, como parte de um processo de educação midiática também chamada de literacia digital”, reforça Fígaro.
Além de familiares, “a cartilha foi pensada para ser distribuída em escolas e em iniciativas pedagógicas planejadas e articuladas com a comunidade educadora. Teve uma tiragem impressa, mas circula principalmente em formato digital, visando um alcance amplo que, também, atinja públicos diversos”, explica Costa.
Na publicação, as autoras detalham a extensão da coleta de dados pela plataforma e qual o posicionamento da Meta nos termos de uso. Procurada para um posicionamento, a empresa não respondeu até o momento da publicação desta matéria.

O intuito é demonstrar de forma didática quais dados são utilizados e como isso é convertido em capital, alimentando o acúmulo financeiro das corporações tecnológicas. Ao final, a cartilha apresenta alternativas possíveis para escapar dessa coleta e quais cuidados devem ser tomados, especialmente em casos de crianças e adolescentes.
Outros materiais
Além da cartilha, o grupo criou uma série de vídeos curtos, chamada “E aí, vai aceitar tudo? Madu Fit responde”. Nela, as descobertas de uma blogueira fictícia revelam como as redes sociais operam nos bastidores e como suas lógicas afetam nosso cotidiano, trabalho e forma de se comunicar. O modelo foi pensando para atingir adolescentes, adaptando a linguagem e o formato dos vídeos para esse público.
Ainda no escopo da pesquisa, foi criado o jogo “Perfilando”, desenvolvido com foco na educação básica. A ideia é que o jogo seja utilizado por educadores para ensinar a lógica de como os dados são capturados e organizados pelo TikTok e por outras redes sociais. Ele se inspira no ato de “perfilar”, realizado pelas redes sociais, que ao coletarem e cruzarem os dados dos usuários são capazes de desenhar um perfil de comportamentos, gostos e, principalmente, consumo. O jogo está disponível para download e busca ensinar aos jovens medidas possíveis para se protegerem do perfilamento nas redes.
Foto de capa:

