Para Marcos Nobre, professor do Departamento de Filosofia da Unicamp e diretor do Centro para Imaginação Crítica do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), há uma nova forma de partido no país – o Partido Digital Bolsonarista (PDB). Segundo Nobre e outros pesquisadores que vêm se dedicando a estudar o fenômeno, o PDB opera de forma opaca – por fora dos mecanismos de controle aos quais os partidos tradicionais são submetidos –, mobilizando recursos públicos e privados em busca de poder político e de apoio às suas pautas.
O filósofo e a professora colaboradora do Departamento de Ciência Política Ana Cláudia Chaves Teixeira lançam o e-book O Partido Digital Bolsonarista. Na obra, escrita por seis autores, são analisados a organização e o financiamento do PDB. Com um caráter exploratório, a pesquisa busca dar visibilidade a um fenômeno que, embora possa parecer caótico, tem uma organização ímpar e desestabiliza o funcionamento do governo representativo. Em entrevista ao Jornal da Unicamp, Nobre aborda as características do partido digital e as consequências dessa forma de organização, cuja liderança é disputada até mesmo entre membros da família Bolsonaro.

Jornal da Unicamp (JU) – Por que encarar como um partido, e não como um movimento?
Marcos Nobre – Isso é importante, porque um movimento, em geral, tem uma pauta única. Às vezes, ele pode ter várias pautas, mas não tem uma coesão em torno de uma linha de ação que envolva vários temas. Então, por exemplo, um partido tem a característica de conseguir lidar, processar e encaminhar contradições. Como imaginar um movimento nesse sentido, em que você tem uma pessoa conservadora, mas que é contra armas, e uma pessoa conservadora que é a favor de todo mundo estar armado? Como se resolve isso no mesmo movimento? Você não consegue. Só um partido é capaz de fazer isso. O partido é capaz de elaborar um programa sobre diferentes pautas, convergindo para uma mesma linha de ação. Um movimento não consegue fazer isso porque, por definição, ou é um movimento de uma pauta única ou um movimento que tem algumas pautas, mas algumas pautas que são já necessariamente convergentes, que não envolvem ter que lidar com fragmentação, com interesses contraditórios etc.
JU – Esse partido é orientado a disputar poder, mas não só isso, certo?
Marcos Nobre – Partidos, por definição, querem o poder e, portanto, no caso de regimes democráticos, ganhar a eleição. Agora, esse Partido Digital Bolsonarista tem uma característica de ser um partido de massas, o que envolve a participação de muitas pessoas. Mas a luta de um partido não é só para conquistar o poder no sentido político institucional, é também para conquistar o poder na sociedade e, então, ter hegemonia cultural, hegemonia social, hegemonia econômica. É preciso reunir todas essas características para ser um partido no sentido que estamos dando ao termo. Ou seja, um partido de massas que tem um programa, que tem uma agenda, que tem mecanismos de participação e que produz hegemonia.
No caso do Partido Digital Bolsonarista, é preciso ter clareza de que existe um fenômeno chamado bolsonarismo, difícil de conceituar, mas que compreende entre 15% e 30% do eleitorado brasileiro, o que é muito. O bolsonarismo é um fenômeno amplo, social, cultural, político e econômico. Dentro desse grande fenômeno, existe o que chamamos de ecossistema digital bolsonarista. O bolsonarismo é maior do que isso, porque faz manifestação de rua, exprime-se cultural e esteticamente nas ruas, produz conteúdo. Mas é dentro do ecossistema digital bolsonarista que o PDB se organiza. E não quer só o poder político institucional. Ele pretende hegemonizar o ecossistema digital bolsonarista e o bolsonarismo e, a partir daí, ganhar eleições e ganhar hegemonia na sociedade.
JU – E o bolsonarismo e o partido digital vão se construindo concomitantemente?
Marcos Nobre – Sim, não é por acaso que é [partido digital] bolsonarista e não do Bolsonaro. O [Jair] Bolsonaro foi um dos primeiros, se não o primeiro, a ver o potencial das redes, tendo digitalizado sua carreira política muito cedo. Então existe uma ligação interna entre o mundo digital e o bolsonarismo enquanto tal. Agora, como você diz, as duas coisas vão se constituindo ao mesmo tempo. É uma construção que temos que acompanhar, porque ela muda.
JU – De forma geral, a internet mudou a forma de se fazer política. Vocês apontam que não conseguiram fazer uma gênese desse partido, mas indicam que é a primeira vez aqui no país que se tem algo tão organizado como o PDB.
Marcos Nobre – Na verdade, teve um momento em que a esquerda, ali na primeira metade dos anos 2010, tentou fazer isso. Tivemos, por exemplo, um partido como o Podemos [partido espanhol de esquerda], que foi criado para ser um partido digital, e movimentos como Occupy Wall Street [movimento surgido em 2011 nos Estados Unidos, em protesto à desigualdade e ao sistema financeiro], que não conseguiram fazer um partido digital, mas que conseguiram influenciar o rumo do Partido Democrata. Acho que o último momento dessa tentativa foi quando Jeremy Corbyn [político britânico que foi líder do Partido Trabalhista e fundou o Seu Partido em 2025] quase se tornou primeiro-ministro em 2017, no Reino Unido. Acho que foi o fim desse ciclo.
Quando esse movimento pela esquerda foi bloqueado pelas instituições, quer dizer, quando as instituições não acolheram esse movimento, a extrema direita entendeu que esse era o caminho. Isso começou nos Estados Unidos muito forte. Steve Bannon teve muita clareza sobre isso. Ele fez um movimento a partir de 2013 e 2014 que desaguou na campanha de Donald Trump. Existe muito material no que diz respeito ao caso dos Estados Unidos. Então sabemos exatamente o dia que o Steve Bannon se encontrou com o Trump em 2010, o Trump disse que queria ser candidato a presidente e Bannon falou: “Olha, é muito cedo, porque em 2012 o Obama vai ser reeleito”. Então, veja, é possível traçar a gênese. No caso brasileiro, que a gente saiba, não existem estudos desse tipo. Isso é uma pena. Estamos pegando a história constituída, vamos dizer assim, e, ao mesmo tempo, a história constituída depende muito de conseguirmos continuar fazendo séries [de análise], porque a série que temos é muito curta. Sabemos muito bem da limitação do nosso estudo porque, primeiro, é o primeiro que conhecemos no mundo que chama um partido digital dessa maneira e que o estuda dessa maneira. Então, tem muito trabalho metodológico para ser desenvolvido etc. Ter uma série permitiria acompanhar os movimentos internos e ter mais fineza, mais sutileza na hora de examinar os mecanismos de funcionamento. Gostaríamos muito de continuar, mas não sabemos se vamos conseguir financiamento.

JU – Sobre a estrutura desse partido, como funciona o financiamento?
Marcos Nobre – Como estamos falando de um partido que não é oficial, que não é institucionalizado, ele introduz o elemento da competição eleitoral desleal, porque se utiliza de recursos públicos – os recursos dos partidos oficiais – e ao mesmo tempo tem recursos digitais. Você pode dizer “isso não tem problema”, mas tem problema sim. Durante a campanha eleitoral, conseguimos ver o dinheiro, por exemplo, que vai para impulsionamento nas redes, porque isso tem que ser declarado para o TSE [Tribunal Superior Eleitoral]. A questão é que, no partido digital, a mobilização e o engajamento são permanentes. Não ocorrem só durante o período de campanha. É por isso que é um partido de massa, porque mobiliza as pessoas o tempo todo, e isso envolve monetizar, envolve influencers.
Como a campanha, a mobilização e o engajamento são permanentes, existe um financiamento permanente. Quando se vende um curso, isso é financiamento eleitoral ou é da empresa da pessoa? Quando monetiza, isso é financiamento eleitoral ou é da empresa? Alguém que tem um cargo, que tem um mandato como deputado, que recebe verba para ser deputado, e usa essa verba no digital, isso é financiamento público. Mas, ao mesmo tempo, a pessoa está monetizando. Então existe uma opacidade. É difícil de saber o quanto de financiamento indireto têm essas candidaturas que estão no partido digital. Como se lida com um partido que não é oficial, que não é institucionalizado e que não quer se institucionalizar?
JU – Por que ele não se institucionaliza?
Marcos Nobre – Primeiro, porque ele é antissistema. Então, se ele se institucionalizar, deixa de ter essa característica. E, segundo, porque a vantagem [de não se institucionalizar] é muito grande. Ele ganha dos dois lados: do lado institucional e do lado digital. É difícil pensar em como lidar com essa situação, porque é muito nova.
O lado progressista comemorou porque [Jair] Bolsonaro não conseguiu criar o partido dele, um partido oficial, mas ele nunca quis fazer um partido oficial adicional. É um erro comemorar a coisa errada. Ele já tem o partido dele, não precisa de um partido oficial. Ele tem 15 partidos à disposição dele para hackear. Ele tem um parceiro e hospedeiro preferencial, que é o PL, mas tem candidatos em tudo quanto é partido do chamado centrão e da direita.
JU – Como funciona essa relação parasitária, como o senhor diz, que o partido tem principalmente com o PL?
Marcos Nobre – Em 2022, vamos lembrar, Jair Bolsonaro foi eleito pelo PSL e, quando se tornou presidente, ele se desfiliou do PSL e passou mais de dois anos sem ser filiado a nenhum partido. Aí ele se filiou ao PL. Por quê? Porque a vantagem de ter esse partido digital é que eles podem hackear qualquer partido. Ao mesmo tempo, se concentrar os recursos em um partido, vai ter mais fundo eleitoral e mais fundo partidário, porque vai eleger mais gente. Então, de um lado, você tem um parceiro preferencial, de outro, deixa todas as outras portas abertas. Se o Valdemar da Costa Neto começar a arrumar problema para ele no PL, ele tem para onde ir, porque já tem pessoas em todos os partidos. Ao mesmo tempo, para o Valdemar da Costa Neto, é um baita negócio, porque ele tem um monte de fundo eleitoral de fundo partidário.
Mas você pode falar “bom, mas então o PL é o Partido Digital Bolsonarista”. Não, não é, porque tem gente no PL que não é do PDB, como demonstramos no estudo. Então, é uma mistura entre o centrão fisiológico tradicional e o Partido Digital Bolsonarista, e os dois convivem, com vantagem para os dois lados. E talvez desvantagem para a democracia brasileira, que não está conseguindo accountability, não está conseguindo a transparência desse partido.
JU – E vocês falam que essa forma de atuar pode levar a uma “metamorfose do governo representativo”, levando a uma “democracia do digital”. O que seria isso?
Marcos Nobre – A gente faz a comparação com os partidos de massas do século 19. Evidentemente, é uma provocação, porque na segunda metade do século 19 não existia a democracia no sentido que temos e porque esses partidos de massas eram de esquerda e anticapitalista. É muito difícil explicar a natureza dessa criatura nova, esse partido que nasce digital e não se institucionaliza. Para tentar explicar o que estamos estudando, recorremos a analogias com os partidos tradicionais. A analogia com o partido de massas do século 19 é para dizer: olha, gente, isso aqui é um partido que tem base, que tem engajamento, que tem mobilização, tal qual o partido de massas no século 19, mas que é de extrema direita. Olhando dessa maneira, do mesmo jeito que os partidos de massa no século 19 eram anticapitalistas, ou seja, anti-sistema, agora nós temos um partido de extrema direita que é antissistema, mas não anticapitalista. São o antissistema buscando instaurar um novo tipo de capitalismo, um capitalismo autoritário. Esse é o objetivo agora.
E se essa for uma tendência para o futuro? E se, no fundo, como o antissistema passou da esquerda para a direita, e a esquerda se tornou sistema, se tornou establishment, então será que essa forma de organização política aponta para o futuro? Ou seja, será que mais e mais partidos digitais vão nascer, e a democracia vai se digitalizar? Essa é a hipótese que colocamos. Mas, primeiro, precisamos demonstrar que o Partido Digital Bolsonarista existe, que ele funciona de uma determinada maneira e que talvez ele seja uma tendência, mesmo sendo da extrema direita, e pode se espalhar para outras formas de pensar a política. Não é que os partidos tradicionais vão desaparecer, mas, como aconteceu com as mídias tradicionais e digital, existe uma espécie de fusão, que não sabemos bem onde vai dar, se tudo vai virar digital, ou se vai continuar mantendo esse mix de tradicional e de digital por muito tempo, que é o mais provável. Mas precisamos olhar a tendência, isso se a democracia sobreviver.


JU – Falando de outra analogia com os partidos tradicionais, vocês apontam que a manifestação do Sete de Setembro seria a convenção partidária do Partido Digital Bolsonarista…
Marcos Nobre – Voltando lá para o começo, o partido digital pretende hegemonizar o ecossistema digital bolsonarista e pretende hegemonizar o bolsonarismo. A prova dessa hegemonia é justamente o Sete de Setembro, que é um momento em que o partido digital mostra que ele é líder do bolsonarismo, organizando um evento de rua, mostrando que ele é capaz de organizar um evento de rua com mobilização e engajamento, com aluguel de ônibus, de carro de som.
O Sete de Setembro é uma performance e um display, ou seja, torna visível a hierarquia partidária. É nesse momento que você vê quem fala primeiro, quem fala em segundo, quem fala em terceiro, quem sobe no caminhão de som, quem não sobe, quem fica embaixo do caminhão, que foi o caso, por exemplo, do Pablo Marçal em 2024. Não deixaram que ele subisse no caminhão, e ele fez uma um protesto à parte ali, porque era o outsider. É interessante, porque o PDB é outsider, mas há outsiders que querem entrar no partido, como o Pablo Marçal e como o Nikolas Ferreira no começo. No começo, ele não pertencia ao PDB, era um outsider que conseguiu seu lugar lá dentro. Então temos ali o display de toda a hierarquia do partido, tem o estabelecimento de programa de agenda de pauta, tem disciplinamento. Faz parte do PDB o direito que qualquer pessoa tem de desafiar a liderança, porque essa é a característica do digital que eles incorporaram. Se a pessoa tenta desafiar a liderança e perde, ela recebe uma punição. Essa punição pode ser ter que se retratar. Então, ajoelhar no milho, como fez o Cleitinho [Cleiton Azevedo, senador pelo Republicanos], pedir desculpas, ou pode ser exclusão, o cancelamento, como aconteceu com a Joice Hasselmann e várias outras pessoas. Todos os esquemas que são típicos do mundo digital fazem parte também disso, e a convenção partidária, o Sete de Setembro, é a performance pública física, na rua, do partido digital. Claro que a analogia com convenção é só para tentar explicar como é que funciona.
JU – Sobre as mudanças de posição de acordo com a base, por que se muda de opinião tão fácil?
Marcos Nobre – Essa é uma característica que vem já da democracia da segunda metade do século 20, que é a democracia do público, a democracia da TV. Nela, não estão claramente dadas as distinções dentro do eleitorado. Antes você tinha o quê? Classe. Então, se você é operário, você vota no Partido Comunista, se você é alguém do comércio, você vota no partido de centro. E se você é elite, você vota no partido de elite de direita. Existiam divisões dentro da sociedade que eram divisões claras. Com a TV e esse mundo do pós-guerra, não tem mais essa clareza, então cabe ao líder propor a divisão. Isso foi incorporado de maneira radical pelo digital. O digital tem essa característica, quer dizer, o líder, ou não só o líder, qualquer influencer, faz uma proposta para a audiência de como o mundo deve se organizar. Só que ele tem que saber avançar se aquela proposta é bem-recebida e recuar se ela é mal-recebida. Com isso, o discurso vai se ajustando e não há medo de errar. Claro que você não pode errar fragorosamente, você não pode cometer um erro de, por exemplo, elogiar o Lula, porque daí você está fora. Mas dentro de certos limites, você faz propostas e vai construindo o programa, a agenda, os temas.
Isso tem um efeito secundário, um efeito colateral importante na legitimidade do líder, porque quando ele muda de posição, não é uma derrota. Há um entendimento de que ele ouviu as bases, e as bases sentem que têm voz, que o que elas dizem conta, e o líder é considerado humilde, uma pessoa capaz de reconhecer seu erro. Esse jogo é estranho para pessoas do campo progressista que não têm contato com a bolha bolsonarista, que é um bolhão. Por isso, acham estranho quando dizemos que existe participação. Aí você pode falar: “Ah, mas não é uma participação real”. Mas o que é participação real? É claro que os objetivos dessas lideranças não são objetivos democráticos, porque são pessoas autoritárias. Mas, ao mesmo tempo, as pessoas que estão na base do partido digital Bolsonarista, têm um tipo de participação que nunca tiveram antes, com custo zero, porque não foi preciso bater na porta de um partido, assinar uma ficha de filiação, contribuir. Não. Ela tem que só entrar num grupo de whatsapp, seguir no Instagram. Ao mesmo tempo, ela tem uma voz maior do que jamais teve em qualquer outro lugar, porque os partidos tradicionais não dão essa possibilidade. Quer dizer, há uma exceção provavelmente que é o PT, que é o único partido de massa tradicional no país. É um grande partido com enraizamento muito forte, mas é um partido analógico, não é um partido digital.

JU – E que aliás luta muito para ter repercussão nas redes.
Marcos Nobre – Essa é a diferença entre um partido tradicional que usa ferramentas digitais, que tem um dispositivo digital, e um partido que nasce digital e que, na sua essência, é digital. Faz muita diferença.
JU – E esse olhar sobre a base bolsonarista, sobre o que repercute bem ou não entre ela, ocorre com a análise sobre a repercussão do conteúdo nas redes onde o partido opera?
Marcos Nobre – Sim, mas temos que prestar atenção no seguinte: não é o número de seguidores que define uma posição na hierarquia. É a confluência do que chamamos de cadeias de lealdade. Quando todas essas cadeias de lealdade se dirigem para um determinado ponto, esse ponto que é um nó de rede, vamos chamar assim, é um ponto na hierarquia. E o ponto que está acima de todos os outros é o lugar da liderança da cúpula deste partido digital.
JU – Falando em liderança, como o senhor avalia as disputas entre a própria família Bolsonaro?
Marcos Nobre – Ficou estabelecida no debate brasileiro, e isso é muito importante, a ideia de que existe bolsonarismo sem Bolsonaro. Ou seja, existe uma organização que independe do seu líder. Ele pode estar preso, não importa. Continua existindo o que chamamos de bolsonarismo e de Partido Digital Bolsonarista. Então, é importante entender que esse partido não é do [Jair] Bolsonaro, embora ele seja algo como o presidente de honra desse partido. As disputas internas dentro do partido levam em conta, claro, o fato de a família Bolsonaro ser fundadora desse partido. Mas qualquer membro do partido pode desafiar alguém da família. Não é porque você é da família que você automaticamente vai manter sua posição na hierarquia do partido. Tanto é que [existe a disputa] Nikolas Ferreira versus Eduardo Bolsonaro, Ana Campagnolo versus Eduardo Bolsonaro. São disputas violentas na rede. Por exemplo, no caso da Ana Campagnolo, ela estava defendendo a candidatura de Carol De Toni ao Senado em Santa Catarina contra a intervenção – vamos dizer assim, porque na lógica partidária tradicional seria uma intervenção do diretório nacional – para colocar o Carlos Bolsonaro como candidato. E Eduardo Bolsonaro foi para cima da Ana Campagnolo. Ela ficou firme, o bolsonarismo em Santa Catarina ficou firme, e que aconteceu? Um acordo entre a Carol De Toni e o Carlos Bolsonaro para excluir o Esperidião Amin da chapa.
Esses processos são todos muito complexos, e existem vários exemplos, mas em geral têm a ver com o Eduardo Bolsonaro, porque ele compra todas as brigas. Isso é um sinal, para mim, de que a posição dele na hierarquia está muito ameaçada. O chamado autoexílio nos Estados Unidos é uma amostra de que ele estava perdendo autoridade dentro do PDB, está tentando recuperá-la de alguma maneira e não está conseguindo. Ele dependia inteiramente do pai para estar onde está e hoje depende do irmão, que é o candidato à presidência.
JU – Falando no Flávio Bolsonaro, o senhor já mencionou em outras entrevistas que o partido digital é um dos motivos para ele não ter tido uma queda tão significativa após as revelações sobre o financiamento de Vorcaro ao filme sobre Jair Bolsonaro. O partido consegue blindar, digamos, seu candidato?
Marcos Nobre – Blindar ele não consegue. O que ele tenta fazer é construir uma boa narrativa. Precisa convencer a base de que não só esse é o melhor candidato, mas que isso é uma tentativa do sistema de desacreditar o candidato do Partido Digital Bolsonarista e que, portanto, é preciso defendê-lo. É importante essa diferenciação, porque alguém que olha quem era Flávio Bolsonaro em novembro de 2025 e que olha uma pesquisa em fevereiro de 2026 se pergunta: mas como é possível? Para nós, a explicação é muito clara, e é uma explicação organizacional. Existe uma organização que é capaz de fazer isso num espaço de tempo curtíssimo, de transferir a intenção de voto de uma pessoa para outra.
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