No Gabinete de Estampas,
novas histórias de arte em papel
Coleção da Unicamp com cerca de 4,5 mil obras amplia possibilidades de pesquisa e inspira projetos
O Gabinete de Estampas da Unicamp, que reúne uma coleção referência em obras de arte em papel, é reconhecido como um dos mais importantes acervos universitários dedicados ao tema no país. A coleção, atualmente com cerca de 4,5 mil obras, majoritariamente gravuras, é sediada na Biblioteca de Obras Raras (Bora) e tem atraído pesquisadores e inspirado projetos semelhantes em outras instituições de ensino.
O nome pode até sugerir uma sala administrativa, mas o Gabinete de Estampas tem seu título inspirado nos antigos gabinetes de curiosidades que antecederam os museus modernos. A proposta permanece fiel ao projeto que lhe deu origem: reunir imagens, preservar a produção artística e transformá-la em conhecimento.
Seja por meio da pesquisa acadêmica, da formação de estudantes, dos cursos de extensão ou das atividades educativas realizadas com o público, o espaço continua ampliando o acesso ao acervo e construindo novas histórias.
Vinculado ao Departamento de Artes Plásticas (Desenho e Gravura) do Instituto de Artes (IA), a história do Gabinete começou em 1997, com a criação do Centro de Pesquisa em Gravura (CPGravura), iniciativa idealizada pela professora Lygia Eluf. A partir de doações de artistas, professores e ex-alunos, além de obras provenientes de intercâmbios internacionais e exposições organizadas pelo próprio Gabinete da Unicamp, o acervo passou a reunir uma coleção voltada majoritariamente à preservação da gravura brasileira.
O projeto ganhou impulso com a incorporação, em 2015, de mais de 220 gravuras de Marcello Grassmann (1925-2013), um dos mais importantes nomes da arte gráfica nacional, adquiridas com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). “O Gabinete de Estampas abriga um dos mais importantes conjuntos de obras de Grassmann em uma instituição pública brasileira. A coleção tem como diferencial a preservação de praticamente toda a sua produção em gravura em metal reunida em um único acervo”, destaca o coordenador do Gabinete, Sérgio Niculitcheff, professor do IA.
“Existem obras de Grassmann espalhadas por várias coleções, mas poucas instituições possuem um conjunto tão completo. Isso permite pesquisas mais amplas e um olhar mais aprofundado sobre sua trajetória artística”, completa. Considerado um dos maiores gravadores brasileiros do século 20, Grassmann desenvolveu uma linguagem própria em uma produção que atravessou mais de sete décadas.
Hoje, integram a coleção obras de artistas consagrados, como Maria Bonomi, Alfredo Volpi, Roberto Burle Marx e Renina Katz, provenientes da galeria especializada em gravura e arte gráfica Glatt & Ymagos, bem como trabalhos de Mario Gruber, Arl Leskoschek e Oswaldo Goeldi. “Os artistas sabem que aqui as obras serão conservadas, pesquisadas e disponibilizadas para consulta. Existe uma relação de confiança que foi construída ao longo dos anos”, destaca Niculitcheff. Para o coordenador, a principal riqueza do Gabinete está em seu caráter dinâmico. “Cada nova doação amplia as possibilidades de pesquisa e ajuda a preservar a memória, principalmente da gravura brasileira.”
Sem orçamento permanente para aquisição de obras, o Gabinete tem ampliado seu acervo também pela iniciativa de famílias de artistas já falecidos, que encontram no local um porto seguro para a preservação dos seus legados. Uma das mais recentes doações, por exemplo, foi feita pela família da artista argentina radicada no Brasil Laura Salgado (1944-1998), que está em processo de digitalização.
Na coleção, destaca-se um importante encontro de gerações, com trabalhos de Arcangelo Ianelli (1922-2009), doados por seu filho, Rubens Ianelli, que também é artista e está presente no acervo. “Além de doar trabalhos de sua própria autoria, Rubens Ianelli contribuiu com obras produzidas pelo pai, ampliando a representatividade de uma das famílias mais importantes das artes visuais brasileiras”, ressalta Niculitcheff, que articulou a doação. “A presença de obras dos dois artistas oferece aos pesquisadores a possibilidade de observar aproximações, diferenças e diálogos entre pai e filho, além de ampliar a diversidade de linguagens representadas no acervo”, completa.
Outro nome de destaque é o de Wesley Duke Lee (1931-2010), cujo trabalho “Cartografia Anímica” amplia as possibilidades de pesquisa ao aproximar técnicas como o offset, a gravura e o desenho à cartografia imaginária e à experimentação artística.
Há ainda a Coleção Maneira Negra, dedicada a uma das técnicas mais refinadas da gravura em metal. Conhecida internacionalmente como mezzotint, a técnica nasceu no século 17 e se caracteriza pela produção de imagens com ricos contrastes e delicadas gradações tonais. “O resultado são gravuras marcadas por efeitos de luz e sombra que lembram desenhos a carvão ou pinturas”, explica Niculitcheff. “A preservação desse conjunto no Gabinete amplia as possibilidades de estudo das técnicas históricas de impressão e oferece aos pesquisadores contato com um procedimento pouco frequente em coleções brasileiras”, completa.
Além da preservação física das obras, uma das prioridades atuais é a digitalização do acervo. A técnica em museologia Ana Paula de Andrade, doutoranda do IA e responsável técnica pelo espaço, destaca a constante expansão da coleção. “Quando comecei a atuar no Gabinete, em 2017, a coleção reunia pouco mais de 200 obras. Hoje, o número ultrapassa 4,5 mil. É difícil estabelecer um número definitivo porque, quando terminamos de catalogar uma coleção, outra é incorporada”, explica.
O Gabinete está aberto a pesquisadores externos à Universidade, que podem consultar o acervo mediante agendamento prévio. “Parte das obras já está disponível no catálogo digital, ferramenta que auxilia os visitantes a identificar materiais de interesse antes da consulta presencial”, completa.
Ensino e extensão
O acervo do Gabinete atrai estudantes, professores, artistas e pesquisadores de diferentes instituições, que utilizam regularmente a coleção para estudos sobre história da arte, técnicas de gravura, curadoria, conservação e processos de impressão. O espaço também integra atividades de ensino da graduação e da pós-graduação. “Professores utilizam as obras em sala de aula, estudantes desenvolvem projetos de pesquisa, e o Gabinete oferece cursos e oficinas voltados à conservação de obras em papel”, aponta Andrade.
A coleção faz com que ganhem materialidade as diferentes técnicas de gravura – linguagem artística baseada na criação de uma matriz que permite a impressão de múltiplos exemplares de uma imagem. Entre os processos representados, estão a xilogravura, feita a partir de matrizes de madeira; a gravura em metal, produzida em chapas de cobre, zinco ou outros metais; a litografia, que utiliza pedras calcárias; e a serigrafia, realizada por meio de telas. Cada técnica possui características próprias de traço, textura e impressão, constituindo um importante campo de pesquisa.
Além das gravuras, desenhos e matrizes, o Gabinete conta com equipamentos utilizados nos processos de impressão, como prensas de madeira e de metal empregadas por artistas e ateliês na produção de gravuras, construídas e doadas pelo professor Márcio Périgo. “As máquinas ajudam a contar a história das técnicas de impressão e permitem compreender etapas fundamentais do trabalho dos gravadores”, ressalta Niculitcheff.

Além das atividades de pesquisa, o Gabinete também promove ações formativas, como um curso de extensão voltado à conservação de obras em papel, livros e documentos, oferecido anualmente no segundo semestre. A iniciativa reúne estudantes, profissionais de museus, bibliotecas, arquivos e pessoas interessadas na preservação de acervos.
O trabalho desenvolvido tem servido de modelo para outras instituições de ensino superior. Um dos casos mais emblemáticos é o da Universidade Federal de Sergipe (UFS), que criou seu próprio gabinete de estampas após conhecer a experiência da Unicamp, resultando numa parceria permanente. Integrantes da equipe da Universidade passaram a oferecer consultorias e cursos sobre conservação, catalogação e gestão de acervos gráficos em Aracaju.
Diversão na UPA
As ações educativas também ganharam espaço crescente nos últimos anos. Durante o Unicamp de Portas Abertas (UPA), evento que recebe milhares de estudantes do ensino médio no campus, o Gabinete de Estampas promove oficinas e atividades que apresentam ao público os processos de criação e impressão das gravuras.
Para a próxima edição, no dia 22 de agosto, a equipe pretende utilizar jogos educativos desenvolvidos em uma oficina voltada à formação de professores e educadores. Entre as atividades estão quebra-cabeças, jogos da memória, tabuleiros e outras propostas inspiradas em obras do acervo. “A ideia é aproximar os visitantes do universo das artes de forma lúdica e participativa, permitindo que os estudantes conheçam técnicas, materiais e processos de impressão que fazem parte do cotidiano do Instituto de Artes”, completa Andrade.
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