Dissertação de mestrado defendida na Unicamp chama a atenção sobre temas relevantes na educação médica brasileira: a rápida expansão dos cursos de Medicina, o impacto da distribuição de unidades por regiões e a qualidade da formação dos profissionais da saúde. O estudo, realizado pelo médico e pesquisador Guilherme Frayha, sob orientação da professora Eliana Amaral, no programa de Pós-Graduação em Educação para as Profissões da Saúde da Faculdade de Ciências Médicas (FCM), analisou o perfil das escolas médicas do estado de São Paulo entre 2013 e 2025, período marcado por forte crescimento impulsionado por políticas públicas como o Programa Mais Médicos.
Os resultados mostram que o número de cursos e vagas aumentou de forma expressiva, especialmente após 2013. No entanto, essa expansão ocorreu de maneira concentrada: novas escolas foram predominantemente instaladas em regiões já mais desenvolvidas do estado e, em sua maioria, vinculadas a instituições privadas. Esse padrão reforça um paradoxo importante – embora haja aumento no número absoluto de médicos em formação, a expansão não necessariamente contribui para reduzir desigualdades regionais no acesso à saúde.
Outro ponto diz respeito à qualidade da formação. O estudo identificou que escolas médicas com maior tempo de funcionamento e aquelas de natureza pública apresentaram melhor desempenho nos principais indicadores regulatórios do país, como o Enade 2023 e o Conceito Preliminar de Curso (CPC). Por outro lado, instituições privadas tiveram avaliações mais positivas no que diz respeito à infraestrutura, a partir das respostas diretas dos estudantes, evidenciando o impacto das diferentes dimensões dos indicadores na percepção do que se identifica como qualidade de formação.

Expansão
A pesquisa também reforça um debate crescente no cenário nacional: expandir vagas não é suficiente. Para o autor do estudo, é fundamental que políticas de crescimento da educação médica estejam alinhadas às necessidades do sistema de saúde e às características regionais, garantindo não apenas maior oferta de profissionais, mas também formação de qualidade e responsabilidade social. Além disso, o estudo destaca que a expansão desarticulada de políticas efetivas de fixação de profissionais tende a limitar o impacto dessas estratégias, visto que o aumento no número de formados, por si só, não assegura sua permanência em regiões de maior vulnerabilidade, nem contribui, de forma consistente, para a redução das desigualdades na distribuição da força de trabalho médica.
Ao utilizar o estado de São Paulo como um “laboratório” – por sua dimensão, diversidade socioeconômica e complexidade do sistema de saúde –, o estudo oferece evidências com potencial de aplicação em outros contextos, inclusive internacionais.
Mais do que avaliar se há “médicos demais” ou se foram “mal formados”, a pesquisa propõe uma reflexão mais profunda sobre como a qualidade da formação, mensurada pelo desempenho dos estudantes e do curso em avaliação externa, pode ser garantida em diferentes regiões, ao mesmo tempo em que se busca ampliar acesso a profissionais médicos em regiões com menores índices de desenvolvimento. “Este estudo oferece evidências para um debate que tem mobilizado a sociedade e se propõe a contribuir para as políticas públicas de provimento e fixação de médicos”, afirma a professora Eliana Amaral.

Pressão
Frayha demonstra preocupação com o impacto do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) e de avaliações semelhantes sobre o processo formativo. Para ele, embora as provas tenham importância como ferramenta de monitoramento, há risco de que a pressão por desempenho transforme a formação médica em uma preparação voltada exclusivamente para exames teóricos. “O movimento está sendo contrário ao esperado. Em vez de pressionar por uma melhor formação médica, as escolas começam a focar na preparação para provas”, comenta.
Ainda de acordo com o pesquisador, isso pode reduzir a valorização das atividades práticas, consideradas fundamentais na formação médica. “A prática clínica supervisionada é um dos pilares do ensino médico e há um risco de substituição desse processo por treinamentos voltados a questões objetivas. A vivência prática do aluno é fundamental. O bom desempenho em uma prova não necessariamente representa um bom médico”, reforça.
Frayha também critica o caráter punitivo atribuído à divulgação pública dos resultados das avaliações. Para ele, a reprovação social sobre instituições e estudantes pode provocar distorções no ensino e transferir aos alunos responsabilidades que deveriam ser compartilhadas entre escolas, poder público e órgãos reguladores.
Outro ponto levantado pelo pesquisador foi a dificuldade de acesso a dados consolidados sobre o ensino médico no Brasil. De acordo com Frayha, diferentes bases oficiais apresentam números divergentes sobre a quantidade de escolas médicas em funcionamento no país. Enquanto uma planilha obtida por ele no sistema e-MEC apontava 427 escolas em abril deste ano, outras fontes mencionam números próximos de 467 instituições. “Sem dados confiáveis, não se consegue fazer gestão”, aponta Frayha, que agora pretende aprofundar os estudos sobre expansão e qualidade das escolas médicas no Brasil no doutorado.

Desafio
Amaral, por sua vez, ressalta que há um desafio delicado em ampliar o acesso à formação em regiões menos desenvolvidas ao mesmo tempo que se garante que os estudantes tenham experiências clínicas adequadas. “O perfil esperado do médico hoje é muito amplo. As diretrizes curriculares nacionais exigem um profissional capaz de atuar desde a atenção primária até situações mais complexas e especializadas”, comenta a professora.
As novas diretrizes para os cursos de medicina, atualizadas em 2025, reforçam a necessidade de uma formação abrangente, baseada em experiências práticas supervisionadas. Para a professora, isso exige não apenas infraestrutura física, mas principalmente profissionais preparados para orientar os estudantes durante a formação clínica. “O grande problema não é apenas construir uma escola com laboratórios modernos. Se não houver estrutura clínica e docentes qualificados para supervisionar os alunos, a formação fica comprometida”, explica.
O estudo de Frayha mostra que as regiões do estado com menos escolas médicas também apresentam menor desenvolvimento econômico e menor estrutura de saúde. Isso dificulta a presença de preceptores, especialistas e hospitais capazes de sustentar a formação médica completa. Apesar disso, Amaral destaca que cidades menores podem, sim, desenvolver cursos de qualidade quando há planejamento pedagógico e envolvimento institucional. Como exemplo, ela cita a experiência da escola médica de Caicó, no interior do Rio Grande do Norte, estruturada com forte acompanhamento pedagógico e participação ativa do corpo docente.
A orientadora ainda chama a atenção para a necessidade de políticas mais amplas para reduzir os chamados “vazios assistenciais” – regiões com carência de profissionais de saúde. Segundo ela, abrir escolas médicas não é suficiente para resolver o problema da distribuição de médicos. “Hoje se sabe que o médico tende a se fixar no local onde faz graduação e residência. Mas, se já é difícil garantir estrutura adequada para a graduação, isso se torna ainda mais complexo na residência médica”, diz.
Outra questão é o avanço das instituições privadas no processo de expansão dos cursos. De acordo com Amaral, a abertura de novas escolas ocorreu majoritariamente em regiões com maior capacidade econômica, onde há estudantes capazes de arcar com mensalidades elevadas.
Projeto Rever
Ao mesmo tempo, cresce a preocupação nacional com a qualidade da formação médica. Amaral participou recentemente de uma reunião do projeto Rever, iniciativa da Associação Brasileira de Educação Médica com apoio do Ministério da Saúde, Ministério da Educação e da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS). O projeto reúne coordenadores de cursos de medicina e representantes de órgãos públicos para discutir estratégias de qualificação do ensino médico no país. Entre as ações desenvolvidas, estão materiais de orientação para coordenadores e professores responsáveis pela implementação das diretrizes curriculares nacionais. Para a professora da Unicamp, a discussão sobre medicina precisa ultrapassar a lógica individual e mercadológica. “A formação em saúde é um bem público. O compromisso de qualidade não é apenas com o estudante, mas com toda a sociedade”, ressalta.
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