
Em busca das histórias e dos rituais que cercam a morte, integrantes do Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas Teatrais da Unicamp, o Lume Teatro, percorreram cemitérios, velórios e hospitais em diferentes regiões do país. A morte passou a ser vivida não como abstração, mas como experiência cotidiana, a partir de relatos de coveiros, profissionais de cuidados paliativos e doulas da morte na pesquisa que vai resultar em um novo espetáculo, previsto para estrear no início de 2027.
As atrizes e pesquisadoras Ana Cristina Colla e Raquel Scotti Hirson, integrantes do Lume
desde 1994 e docentes do Programa de Pós-Graduação em Artes da Cena, do Instituto de
Artes (IA), contam que viajaram pelo Brasil para investigar rituais, cuidados e ofícios que
cercam a finitude humana. “A pesquisa de campo faz parte do nosso modo de trabalho. É a maneira que encontramos para responder às perguntas que o próprio espetáculo vai nos fazendo”, afirma Colla.
A pesquisa integra parte do projeto temático “Pedagogias, Processos e Arquivos da Presença”, com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), e o projeto do Programa de Incentivo a Novos Pesquisadores – iniciativa da Unicamp em conjunto com o Fundo de Apoio ao Ensino, à Pesquisa e à Extensão (PIN-Faepex) –, “Olhares para a invisibilidade da morte em pesquisa de campo nas artes cênicas”.
O projeto, que também conta com os atores e pesquisadores Renato Ferracini e Jesser de Souza, começou a ganhar força depois de um trabalho anterior, dedicado ao estudo da doença de Alzheimer. A reflexão sobre envelhecimento, fragilidade e memória acabou conduzindo o grupo para questões relacionadas à finitude. Em seguida, vieram a pandemia e a experiência coletiva de conviver com a morte em escala global.

“O tema da morte passou a nos atravessar de uma maneira muito forte”, diz Colla. “Começamos a nos perguntar que vida é essa que estamos vivendo e o que existe por trás desse lugar que hoje é quase um tabu. Ao mesmo tempo que queremos viver cada vez mais, falamos muito pouco sobre a morte.”
Um dos primeiros movimentos foi acompanhar equipes de cuidados paliativos em Campinas. O grupo esteve tanto no Serviço de Cuidados Paliativos do Hospital de Clínicas (HC) da Unicamp quanto no Serviço de Atendimento Domiciliar (SAD), programa municipal que oferece assistência a pacientes em suas próprias residências. “Passamos a acompanhar as visitas dos profissionais às casas das pessoas, e isso abriu um mundo para nós”, lembra Colla. “É um trabalho muito bonito, porque traz um olhar mais humano para esse momento final da vida.”
À margem
Ao ampliar o campo da investigação para o período posterior à morte, o grupo passou a conversar com coveiros, funcionários de funerárias, tanatopraxistas, jardineiros e trabalhadores responsáveis pela manutenção dos túmulos. Um dos personagens mais marcantes dessa trajetória foi Osmair Cândido, o “Fininho”, coveiro aposentado de São Paulo, formado em Filosofia. “Ele é uma figura muito interessante, porque reúne esses dois universos”, conta Hirson. “Tem toda a experiência prática da profissão, mas também um olhar filosófico sobre a morte.”

O primeiro contato com Fininho aconteceu durante uma apresentação teatral. Depois vieram novas conversas, visitas e uma ida ao Cemitério da Vila Formosa, em São Paulo. “Quando falamos que nossa pesquisa se chamava ‘Invisibilidades da Morte’, ele respondeu imediatamente: ‘Invisibilidade é um nome bonitinho para a academia. O que a gente sofre é desprezo’”, recorda Colla. “Ele nos chamou a atenção para a condição dessas pessoas que trabalham diariamente com a morte e que muitas vezes permanecem à margem do olhar social”, completa.
Ao longo da pesquisa, o grupo também se aproximou de jardineiros e cuidadores de túmulos. “São pessoas que conhecem profundamente aqueles espaços”, afirma Hirson. “Às vezes elas sabem quais flores uma família costuma levar, quais túmulos recebem visitas frequentes, quais foram abandonados. Em muitos casos, o cuidado permanece porque essas próprias pessoas criam vínculos afetivos com quem está enterrado ali.”
Norte a Sul
Desde julho de 2025, a pesquisa percorreu diferentes regiões do país para conhecer profissionais e espaços ligados ao tema. Entre as viagens realizadas, a ida a Manaus (AM) foi uma das experiências mais impactantes. As pesquisadoras visitaram o Cemitério Nossa Senhora Aparecida, ampliado às pressas durante o período mais crítico da pandemia de covid-19. “Lá, vimos um espaço que precisou crescer muito rapidamente para receber o enorme número de mortos daquele momento”, relata Hirson.
A visita revelou uma dimensão concreta da tragédia vivida na cidade. “O cuidador do cemitério nos explicou que, em muitos casos, as marcações são simbólicas. Nem sempre a localização indicada corresponde exatamente ao local onde a pessoa foi enterrada. Aquilo nos marcou profundamente”, lembra Colla.
Em Porto Alegre (RS), as pesquisadoras conheceram as chamadas “doulas da morte”, do projeto AmorTSer, profissionais que acompanham pacientes e familiares durante processos de fim de vida, oferecendo acolhimento emocional e orientação prática. Segundo Colla, elas atuam de forma semelhante às doulas do nascimento, mas estão voltadas para a despedida.
Hirson explica que essas profissionais ajudam tanto no acolhimento emocional quanto nas questões práticas que surgem nesse período. “Quando alguém morre, as pessoas frequentemente não sabem o que fazer. Vai cremar? Vai enterrar? Como conseguir os documentos? Que providências precisam ser tomadas? Existe uma desorientação muito grande”, afirma.
Para elas, os cemitérios observados durante a pesquisa revelam muito mais do que práticas funerárias. “O cemitério é quase uma microcidade, ali aparecem as diferenças de classe, as áreas mais cuidadas, as mais abandonadas, as ruínas, os afetos. É um retrato muito potente da sociedade”, ressalta Colla.
Espetáculo em construção
Apesar do grande volume de material acumulado, as artistas afirmam que ainda estão em busca da forma cênica capaz de reunir todas essas experiências. O desafio envolve articular relatos de campo, histórias pessoais, registros documentais, reflexões filosóficas e experiências de luto. “Estamos no meio de um nó”, resume Colla. “Temos materiais de naturezas muito diferentes, experiências humanas muito fortes e muitas perguntas ainda sem resposta.”
O desafio agora é transformar esse percurso por hospitais, cemitérios e histórias de luto em uma experiência poética capaz de falar sobre a morte sem perder de vista a vida. “Estamos tentando encontrar uma forma que permita abordar esse tema com profundidade, mas também com delicadeza.”
Espetáculo SerEstando Mulheres atravessa uma trajetória
Além da pesquisa para o projeto, a atriz Ana Cristina Colla segue apresentando o espetáculo solo SerEstando Mulheres, atração deste mês dentro do projeto Lume em Casa, nos dias 20 e 21 junho, às 20h, na sede do grupo (Rua Carlos Diniz Leitão, 150, em Barão Geraldo, Campinas).
A programação integra as comemorações dos 60 anos da Unicamp e o projeto Palco DCult, iniciativa da Diretoria de Cultura (DCult), vinculada à Pró-Reitoria de Extensão, Esporte e Cultura (ProEEC). A entrada é gratuita, com parte dos ingressos reservados pela plataforma Sympla e parte com retirada uma hora antes do início das atividades.

Criado em 2012, SerEstando Mulheres nasceu quando a atriz completava duas décadas de trabalho no Lume e participava de encontros nacionais e internacionais de mulheres artistas. Naquele momento, conta, o tema do feminino atravessava intensamente suas reflexões. “Olhei para trás e vi quantas mulheres já tinham passado pelo meu caminho, quantas eu tinha encontrado em cena ou fora dela. Foi daí que nasceu o desejo de reuni-las.”
O espetáculo reúne personagens construídos ao longo de diferentes processos criativos do grupo. Estão ali mulheres encontradas em pesquisas de campo realizadas no interior de Goiás, Tocantins e Amazonas, personagens inspirados em pessoas em situação de rua observadas em São Paulo e no Rio de Janeiro e figuras ficcionais criadas em sala de ensaio.
Mais do que revisitar espetáculos antigos, explica Colla, o trabalho procura revelar as histórias dessas mulheres e os atravessamentos que elas produziram em sua própria trajetória. “O que costura tudo não é a técnica, nem o espetáculo de onde elas vieram. O que costura é aquilo que me atravessa. São mulheres muito diferentes, mas que de alguma maneira passaram a fazer parte de mim.”
Embora tenha surgido a partir de uma proposta de desmontagem – prática comum nas artes da cena em que artistas revisitam seus próprios processos criativos –, SerEstando Mulheres tomou outro caminho. Em vez de revelar bastidores ou técnicas de criação, Colla decidiu colocar as personagens no centro da narrativa. “Não queria mostrar como elas foram construídas. Queria trazer essas mulheres para perto”, afirma.
Ao final da apresentação, a atriz sintetiza essa ideia em uma frase que se tornou uma espécie de marca do espetáculo: “Essa sou eu vestida de todas essas mulheres.”
Com estrutura simples – um tapete, um tambor, uma cadeira e poucos adereços –, a montagem foi concebida para circular com facilidade. “Queria um espetáculo que coubesse numa mala”, afirma. A escolha permitiu que o espetáculo percorresse diferentes países ao longo dos últimos anos, como México, Cuba, Argentina, Costa Rica e Portugal, além de circular por diversas regiões do Brasil, incluindo presídios femininos, praças e espaços alternativos.
Para Colla, uma das descobertas mais bonitas dessa trajetória foi perceber como aquelas personagens encontravam eco em públicos muito distintos. “Essas mulheres acabam encontrando outras mulheres em cada lugar por onde passam. As histórias são diferentes, mas existe alguma coisa que se reconhece.”
Foto de capa

