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Atualidades Manchete

A vida em números: Unicamp celebra legado e avanços da biomatemática 

Da pandemia ao aquecimento global, há 40 anos grupo do Imecc usa cálculos para estudar, simular e prever cenários para ações práticas; Inteligência Artificial amplia eficiência 

biomatemática IMECC
Grupo de professores do IMECC: juntos transformam cálculos em políticas públicas

Os professores colocados lado a lado para uma foto no hall de entrada do Instituto de Matemática, Estatística e Computação Científica (Imecc), da Unicamp, formam uma verdadeira seleção. Juntos, eles transformaram a frieza dos cálculos e tabelas em ações práticas e políticas públicas que orientam governos e salvam vidas pelo Brasil afora. Há 40 anos, inspirados na ideia de “jogar diferente com os números”, eles perceberam que uma improvável parceria entre matemáticos e biólogos daria jogo e, melhor, resultados positivos.  Assim, passaram a se dedicar ao time da biomatemática.

À biologia cabe apresentar os fenômenos complexos da vida. A matemática os organiza em padrões mensuráveis e analisáveis. O resultado disso é uma área interdisciplinar que aplica ferramentas, modelos e teorias para estudar, simular e prever fenômenos e sistemas biológicos. O objetivo aqui é traduzir vários aspectos da vida em equações e gráficos, permitindo testar cenários, analisar dinâmicas de populações e compreender a incidência e avanço de doenças, por exemplo.

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Professores que integram o grupo considerado referência da biomatemática no Brasil

A partir de 1986, o mesmo Bassanezi, em parceria com os colegas João Frederico Meyer, Laércio Vendite, Laécio Carvalho de Barros, Wilson Castro Ferreira Júnior e Estevão Esmi Laureano – mais recentemente, a equipe ganhou o reforço da professora Jaqueline Godoy Mesquita – formaram o grupo que é considerado referência da biomatemática no país.

Outro impulso para que o trabalho avançasse foi uma série de palestras realizadas na Universidade, em junho de 1989, pelo israelense-estadunidense Lee Segel, professor do Instituto Weizmann, de Israel. Ele consolidou o caminho para que a biomatemática se expandisse na Unicamp. O próprio Segel se autodefinia como um “pregador em busca de seguidores”.

Nesta época, uma das pesquisas desenvolvidas na Universidade observava a dinâmica do crescimento de tumores cancerígenos e sua resistência às drogas quimioterápicas. O trabalho era feito em parceria com o Hospital da Mulher Prof. Dr. José Aristodemo Pinotti – Caism. Tratava-se da continuação de uma pesquisa desenvolvida pelo professor Laércio Vendite, também da Unicamp, em sua tese de doutorado realizada em Trento, na Itália.

Juntamente com um grupo de oncologistas italianos, Vendite desenvolveu um modelo matemático para analisar a resistência adquirida pelas células tumorais após certo tempo de tratamento com quimioterápicos. A partir do tamanho inicial do tumor era possível saber que fração dele passava a ser resistente à droga. Através de simulações sobre velocidade de crescimento do tumor, taxa de mutação e de destruição das células cancerígenas pelo medicamento, o modelo matemático determinava o momento em que o tratamento deixava de fazer efeito e havia a necessidade da troca das drogas utilizadas, otimizando as ações.

A sintonia entre duas áreas, aparentemente, tão distantes chamou a atenção da sociedade ao redor e de outros estudantes naquele final de década. De acordo com reportagem do jornal Folha de S. Paulo, publicada em junho de 1989, dos então 11 mestrandos admitidos pelo Departamento de Matemática Aplicada da Unicamp, oito haviam escolhido a área da biomatemática.

Ao longo dessas quatro décadas, o grupo contribuiu para o desenvolvimento de modelos matemáticos aplicados a problemas reais da sociedade. O impacto da propagação de epidemias, dinâmica populacional, desenvolvimento de medicamentos, controle de pragas agrícolas, poluição ambiental, previsão da eficácia de tratamentos, genética e hereditariedade, além de aplicações em sistemas biológicos e médicos são alguns dos muitos exemplos. Nesse contexto, é interessante destacar que a matemática não serve apenas para “resolver contas”, mas para identificar padrões; fazer previsões; reduzir incertezas e apoiar decisões.

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A Lógica Fuzzy permite que a análise de uma máquina possa avaliar e atuar com certos graus de imprecisão, exatamente como o cérebro faria

Em paralelo, para reforçar as infinitas possibilidades da biomatemática, o grupo tem trabalhado em conjunto com a Faculdade de Ciências Médicas (FCM) no diagnóstico de câncer de próstata. “A partir de trabalhos acadêmicos, foi produzido um software para predizer o estadiamento (processo médico que avalia a localização, tamanho e extensão de uma doença no corpo) da doença”, explica o professor Barros.

Outro trabalho diz respeito aos riscos de incêndios florestais, que são calculados a partir de variáveis físicas (altitude, tipologia florestal, presença de estradas e cursos d’água). Tal indicador envolve modelos de Machine Learning e a já mencionada Lógica Fuzzy para que, a partir dos dados reais georreferenciados, seja possível identificar localidades em uma determinada região que possuem uma maior propensão à ocorrência dos incêndios florestais, otimizando as tomada de decisão pelo Poder Público.

O professor Estevão Esmi, há uma década no grupo, também utiliza a Lógica Fuzzy em trabalhos em parceria com a FCM, já tendo desenvolvido desde um sistema de auxílio para diagnóstico de endometriose até questões envolvendo UTIs para gestantes de alto risco. “Atualmente, tenho trabalhado na elaboração de um sistema computacional baseado em aprendizagem de máquina que auxilie na elaboração assertivas de laudos de Transtorno do Espectro Autista”, conta ele.

Com tantas vertentes de atuação, o professor Barros menciona que, além da formação de um grande número de pessoas nessa área ao longo de 40 anos da biomatemática, um dos sólidos legados do grupo são os materiais didáticos – livros e uma revista -, que pode ser acessada pelo link: https://www.ime.unicamp.br/~biomat/revistas.htm.

Representatividade

Os anos passaram e novos integrantes surgiram, como a professora Jaqueline Godoy Mesquita, atual presidente da Sociedade Brasileira de Matemática e da Unión Matemática da América Latina e Caribe. Ela é a única mulher do grupo até o momento. “A representatividade é extremamente importante. Recentemente, tivemos a aprovação de mais uma mulher em um concurso na área de Matemática Aplicada, e espero muito que ela venha integrar o grupo, fortalecendo ainda mais essa presença feminina. Embora tenhamos observado avanços importantes, ainda existe uma sub-representação significativa. A presença de mulheres em espaços de pesquisa, liderança e tomada de decisão é fundamental porque gera identificação e inspira novas gerações”, comenta ela. “A biomatemática também pode, e deve, ser um espaço de representatividade, mostrando às jovens estudantes que elas pertencem a esse universo e podem ocupar qualquer posição que desejarem”, reforça a professora.

Pandemia

Jaqueline Mesquita lembra que, durante a pandemia do coronavírus, modelos matemáticos foram aplicados para apoiar decisões relacionadas a quarentenas, prever ondas de contágio e entender a dinâmica da propagação da covid. “Mas a biomatemática vai muito além da área da Saúde. Hoje, diante de desafios como as mudanças climáticas e o aquecimento global, ela também pode ser uma grande aliada para modelar fenômenos ambientais, estudar impactos em ecossistemas, prever cenários futuros e contribuir para soluções sustentáveis. É uma área que está diretamente conectada à melhoria da qualidade de vida e ao enfrentamento de problemas que afetam toda a sociedade”, aponta.

Futuro

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Professor João Frederico Meyer

Medicina personalizada

Europa é o ‘berço’

Conferência

Uma conferência realizada na segunda quinzena de maio no Instituto de Matemática, Estatística e Computação Científica (Imecc) celebrou Martin Bohner, matemático de reconhecimento internacional e professor da Missouri University of Science and Technology. Bohner é amplamente conhecido por seu papel pioneiro no desenvolvimento das equações dinâmicas em escalas temporais, teoria que unifica equações diferenciais e de diferenças e impactou pesquisas em diversas áreas do conhecimento.

Autor de mais de 350 artigos e sete livros, Bohner também exerceu importante liderança acadêmica como editor de periódicos científicos e presidente da International Society of Difference Equations. Esta conferência celebrou seus 60 anos e homenageou uma carreira marcada pela excelência científica, colaboração e profunda contribuição à comunidade matemática internacional.

Aplicações da Matemática

  • Epidemiologia: uso de modelos matemáticos para prever a propagação de doenças infecciosas e planejar estratégias de vacinação ou contenção;
  • Ecologia: análise de interações entre espécies, dinâmica de crescimento populacional e preservação de espécies ameaçadas;
  • Genética e Evolução:  estudo de mutações, frequência de genes em populações ao longo do tempo e heredogramas utilizando probabilidade e estatística;
  • Biomedicina e Farmacologia: simulações de como medicamentos se espalham no organismo e cálculo da dosagem ideal para tratamentos;
  • Fisiologia: modelagem matemática do funcionamento de órgãos específicos, como a forma que o sangue flui no sistema circulatório ou os impulsos elétricos no coração. 

Fonte: Imecc

Foto de Capa

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Grupo de professores no prédio do IMECC

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