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Atualidades Cultura e Sociedade

Casa de Sérgio Buarque de Holanda resgata universo íntimo do historiador

Histórica residência na Rua Buri, em São Paulo, recebe evento nesta sexta-feira na abertura do Ciclo Buarqueano

Sérgio Buarque de Holanda e o filho, o compositor e escritor Chico Buarque
Retrato de Sérgio Buarque e o filho Chico Buarque de Holanda

O evento busca ampliar as ações culturais e acadêmicas desenvolvidas na residência, que atualmente sedia atividades formativas da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo. “É o primeiro passo de uma articulação entre a Universidade, o Arquivo Público do Estado de São Paulo e a Secretaria Municipal para ampliar a oferta de ações culturais e acadêmicas no local”, destaca o curador da exposição, Thiago Nicodemo, professor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) e diretor do Arquivo Público do Estado de São Paulo.

casa de sérgio buarque de holanda ganha nova função
Thiago Nicodemo (esq.) na casa da Rua Buri, ao lado do escritor Fernando Morais Foto: Divulgação

Nicodemo dedicou cerca de 15 anos ao estudo da obra de Sérgio Buarque e lançou dois livros sobre o historiador, Urdidura do Vivido – Visão do Paraíso e a Obra de Sérgio Buarque de Holanda nos Anos 1950 (Edusp, 2008) e Alegoria Moderna – Crítica Literária e História da Literatura na Obra de Sérgio Buarque de Holanda (Unifesp, 2014), além de Uma introdução à história da historiografia brasileira 1870-1970 (FGV, 2018), que também aborda sua obra.

“O Sérgio sempre foi uma referência intelectual muito forte para mim. Não apenas pela interpretação do Brasil que ele construiu, mas também pela maneira como articulava história, literatura, cultura e vida pública”, diz. “Sempre sonhei em conectar o acervo com a casa de uma forma orgânica, que respeitasse a memória do autor, mas apontasse também para o futuro”, afirma.

A proposta é estabelecer uma “cooperação técnica” para transformar a casa em um espaço permanente de pesquisa, memória e circulação pública de conhecimento. “Essa casa não é apenas um imóvel histórico. Ela concentra experiências intelectuais, políticas e afetivas e ajuda a entender não só a obra, mas o ambiente de sociabilidade intelectual que marcou sua trajetória”, ressalta. 

ambiente de trabalho de sérgio buarque de holanda recriado na Unicamp
Ambiente de trabalho do historiador Sérgio Buarque de Holanda, recriado na Unicamp

Co-curador da exposição, Luccas Maldonado, doutor em História pela Unicamp, destaca que os arquivos de Sérgio Buarque tiveram papel decisivo na consolidação das humanidades dentro da universidade. Para ele, o projeto envolve ainda a discussão sobre a democratização do acesso. “Não é apenas estudar os arquivos, mas pensar em como utilizá-los e organizá-los.”

Nas primeiras visitas ao local para o projeto, Nicodemo foi acompanhado pelo jornalista e escritor Fernando Morais que, durante sua gestão como secretário estadual de educação, em 1982, foi o primeiro a propor preservar a residência e fazer dela um centro de pesquisas para professores da rede pública. O espaço só foi adquirido formalmente pela Prefeitura de São Paulo em 2007. 

A casa de 450 m² ocupa quase todo o terreno da Rua Buri. Há jardins na frente e nos fundos, onde as cinzas do historiador foram depositadas. A residência ficou conhecida pela circulação de artistas, pesquisadores, estudantes, jornalistas e amigos. Entre os frequentadores, estavam Vinícius de Moraes, Tom Jobim, Antonio Candido, Caio Prado Júnior, Florestan Fernandes, Fernando Henrique Cardoso e Chico Buarque, um dos sete filhos do casal Sérgio e Maria Amélia.

Há relatos de festas que atravessavam madrugadas, mas a casa também foi espaço de escuta, abrigo e resistência durante a ditadura militar. Com o telefone grampeado, a família criou códigos para avisar sobre prisões e perseguições políticas. 

Acervo precioso

O acervo de Sérgio Buarque de Holanda na Unicamp é um dos conjuntos documentais mais importantes da Universidade, com manuscritos, cartas, fotografias e documentos pessoais reunidos no Siarq, e livros, periódicos, prêmios e móveis de sua biblioteca na Bora. 

Janaína Santos, coordenadora do Siarq, destaca que a abertura do Ciclo Buarqueano “demonstra como os arquivos e as instituições de pesquisa e de educação podem se articular”. Para ela, a parceria entre a Unicamp, o Arquivo Público do Estado e a Secretaria Municipal de Educação pode gerar inúmeras possibilidades de cooperação.

“Exposições, atividades de extensão, visitas mediadas, ações pedagógicas, seminários, projetos de pesquisa e iniciativas voltadas à formação de estudantes e professores e à aproximação de públicos mais amplos dos arquivos e da produção de conhecimento, por exemplo”, afirma.

Santos destaca que o Siarq, em conjunto com a Bora, é central nesse processo. “A Unicamp abriga um patrimônio de enorme valor histórico, intelectual e cultural, que vem sendo preservado, organizado e disponibilizado à pesquisa ao longo dos anos. Nesse sentido, o Siarq e a Bora contribuem não apenas como guardiões desse legado, mas também como agentes ativos em sua difusão”, completa. 

A coordenadora da Bora, Danielle Thiago Ferreira, lembra que a chegada da coleção de Sérgio Buarque de Holanda à Unicamp contribuiu para a criação e a consolidação de estruturas voltadas à preservação de coleções especiais, tanto na Bora quanto no Siarq.

casa de sérgio buarque de holanda ganha nova função Foto: Danielle Thiago
Coordenadora da Bora, Danielle Ferreira

Para Ferreira, participar da ocupação simbólica da casa da Rua Buri representa também uma forma de devolver ao público a memória do espaço. “Queremos deixar esse legado. Não apenas a memória do historiador, mas também da própria casa e do que ela significou”, afirma. Para a exposição, livros com anotações do historiador e imagens da antiga biblioteca do intelectual vão recriar parte do ambiente original do casarão.

A coordenadora da Bora destaca ainda que a coleção de Sérgio Buarque permanece entre as mais procuradas por pesquisadores. “Muitas obras têm dedicatórias, grifos e anotações feitas por ele. Isso é muito importante para quem pesquisa, porque permite acompanhar como ele lia e dialogava com os textos”, explica. 

No Siarq, parte dessa memória é organizada em fichários, que também serão apresentados no evento. A supervisora técnica Telma Murari lembra que o acervo, inicialmente incorporado à biblioteca da Unicamp, passou gradualmente para o Arquivo, ajudando a fortalecer a estrutura dedicada à preservação de arquivos pessoais e institucionais. “Quando começou o trabalho de difusão dos arquivos, a Universidade passou a receber muitos outros acervos importantes. Isso ajudou a fortalecer o órgão que existe hoje”, afirma.

PROGRAMAÇÃO

14h30: Abertura do Ciclo Buarqueano, com Thiago Nicodemo

15h: 40 anos do acervo de Sérgio Buarque de Holanda na Unicamp: balanço e perspectivas – Danielle Thiago Ferreira e Janaína Andiara dos Santos

15h30: Acervos em disputa: uma análise da memória buarqueana – Luccas Maldonado e Thiago Nicodemo. Mediação: Leopoldo Waizbort

Quando a Rua Buri virou cinema

Antes de voltar a receber visitantes com o evento “A casa do historiador: Sérgio Buarque na rua Buri”, o casarão do Pacaembu foi revisitado pelo cinema. Em 2002, o diretor Nelson Pereira dos Santos (1928-2018), de filmes como Vidas Secas e Memórias do Cárcere, lançou Raízes do Brasil, cinebiografia dedicada ao historiador. O filme transformou a residência da Rua Buri em uma espécie de território afetivo da história intelectual brasileira.

casa de sérgio buarque de holanda ganha nova função
Casa na Rua Buri se transformou numa espécie de território afetivo da intelectualidade brasileira

Parte das filmagens foi realizada na própria casa da família e parte na Unicamp. O documentário mistura imagens históricas do Brasil, fotografias da família, cenas do cotidiano da casa e leituras de trechos de Raízes do Brasil. Em uma das cenas, Sérgio Buarque surge caminhando pela casa, em um de seus raros registros em vídeo. O filme também recupera a atmosfera de encontros que marcou o endereço durante décadas como um espaço frequentado por intelectuais, músicos, estudantes e jornalistas, com conversas sobre literatura e política que atravessavam a madrugada.

Ao mesmo tempo em que revisita a trajetória intelectual do autor, o filme constrói um retrato íntimo de Sérgio Buarque: o pai, o avô, o anfitrião cercado de amigos, o homem que atravessou o modernismo, a universidade e os anos da ditadura sem abandonar a crença em um pensamento brasileiro independente.

Os depoimentos ajudam a compor esse retrato. Amigos próximos como Antonio Candido e Paulo Vanzolini aparecem ao lado de filhos e netos do historiador. Em uma das entrevistas mais marcantes, Maria Amélia, companheira de Sérgio Buarque por décadas, relembra episódios da vida familiar com humor e delicadeza. Entre os narradores do documentário está Zeca Buarque, neto do historiador, que cursou História na Unicamp e foi assistente de direção do longa. 

Em 2004, o cineasta falou sobre o documentário em entrevista à TV Unicamp. Confira

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