
“O inalcançável é sempre azul”, afirma a epígrafe de Clarice Lispector na abertura do livro Azul, da oftalmologista Mônica Alves, professora da Faculdade de Ciências Médicas (FCM). Durante muito tempo, a escrita ocupou um espaço silencioso na vida da médica. Não havia projeto literário, ambição editorial ou planos de publicação. O que existia eram cadernos repletos de anotações, frases surgidas na madrugada e pensamentos registrados entre um compromisso e outro. Esses pequenos textos, escritos como quem tenta organizar o que sente, transformaram-se em seu livro de estreia, lançado no início deste ano.
O que estava guardado em um território íntimo ganhou um novo lugar. “Escrevia muito para mim mesma. Nunca imaginei que pudesse virar um livro”, conta Alves. Foi em um contexto de reconstrução, quando foi obrigada a uma reorganização completa da rotina, que sua escrita deixou de ser apenas um hábito silencioso. “Sempre adorei ler e acho que quem lê, de alguma forma, acaba escrevendo. Minha vida inteira foi do lado de lá, como leitora”, destaca. “Agora é estranho, e bonito, perceber que as pessoas podem entrar neste lugar tão íntimo que é a minha escrita.”
Durante a pandemia, enquanto escrevia parte dos textos, a médica enfrentava o fim do casamento e, simultaneamente, dois concursos decisivos na Unicamp. O primeiro, para livre-docência, já vinha sendo preparado há anos. O segundo apareceu de maneira inesperada após a morte de um professor do departamento, abrindo uma vaga de docente aguardada havia quase uma década. “Eu estava devastada emocionalmente”, lembra. “E, ao mesmo tempo, precisava escrever tese, preparar provas, organizar toda a vida profissional.”
Foi justamente nesse contexto de instabilidade que a escrita ganhou ainda mais espaço. Paralelamente à carreira acadêmica, a oftalmologista passou a frequentar oficinas de escrita criativa organizadas durante a pandemia por um grupo de amigas, reunidas inicialmente em torno de encontros femininos que misturavam culinária, leitura, meditação e conversa. As reuniões virtuais abriram espaço para exercícios literários e novas experimentações com a linguagem. “Aprendi a escrever para além do que eu só sentia”, afirma. “A misturar histórias, criar personagens, transformar sentimentos em outra coisa.”
Embora profundamente pessoal, Azul incorpora essa experiência: parte dos textos nasceu diretamente da intimidade, mas outra surgiu dos exercícios de escrita criativa. “Tem muito de mim, mas também tem invenção, mistura e deslocamento.”
Ao mesmo tempo, ela começou a digitalizar os inúmeros textos espalhados em cadernos. Aos poucos, percebeu que havia construído um arquivo extenso. O material foi enviado para amigas próximas, entre elas a livreira Adriana Haddad, da livraria Candeeiro, em Campinas, e a psicanalista e artista plástica Gabriela Sampaio Monteiro, que enxergaram ali um livro. Em um processo coletivo, afetivo e artesanal, o projeto ganhou forma, com ilustrações de Monteiro e com a chegada do escritor e poeta Diego Pansani, do Lume Teatro, que entrou na história para acompanhar a organização e edição dos textos. A diagramação e o projeto gráfico são de Henrique Pasti.
A autora define Azul como um conjunto de “fragmentos”. “Alguns textos se aproximam da poesia, outros lembram pequenas narrativas ou anotações confessionais”, afirma. O livro foi organizado em três partes – Cobalto, Celeste e Turquesa – como variações emocionais de um mesmo azul. A cor que dá nome ao livro vem de uma lembrança antiga. Na adolescência, a autora assistiu ao filme A Liberdade É Azul (1993), primeiro longa da Trilogia das Cores, do cineasta polonês Krzysztof Kieślowski. “Fiquei obcecada pelo filme. Assisti várias vezes, ouvia a trilha sonora, decorei falas”, lembra.
Décadas depois, sentiu vontade de rever a obra. “Foi completamente diferente tantos anos depois”, diz. “Agora, eu assistia como uma mulher madura, que também tinha passado por perdas e mudanças, assim como a protagonista do filme, vivida pela atriz Juliette Binoche.”

Ao começar a organizar os textos, Alves percebeu que o azul já aparecia de maneira espontânea em tudo: nas imagens evocadas pela escrita, nas ilustrações, na atmosfera melancólica e delicada dos fragmentos e até no arquivo original enviado ao editor, digitado em letras azuis.
Durante a leitura final do livro, feita em voz alta ao lado do editor, dois textos ganharam significados inesperados. Um deles revelou-se uma homenagem involuntária à avó. O outro passou a carregar a memória de uma amiga inseparável desde os tempos da faculdade de medicina em Juiz de Fora, que morreu após enfrentar um tumor cerebral. “Terminei de ler e entendi imediatamente que aquele texto era para ela”, conta.
Mineira de Frutal, no Triângulo Mineiro, Alves deixou a cidade natal ainda adolescente para estudar medicina na Universidade Federal de Juiz de Fora. Depois, fez residência médica em oftalmologia, pós-graduação na Unicamp e acabou construindo toda a carreira acadêmica na instituição. Hoje, atua como professora da FCM, pesquisadora e especialista em doenças da superfície ocular, especialmente olho seco – condição que estuda há cerca de 25 anos. Coordena pesquisas, orienta estudantes e mantém consultório em Campinas.
Nesse cotidiano marcado pela exigência técnica da medicina, a literatura acabou surgindo como uma espécie de contraponto. “A medicina exige uma objetividade de muita dureza”, afirma. “A escrita me reconecta com outras sensibilidades.”
Produzido de forma independente, Azul pode ser encontrado na livraria Candeeiro https://www.livrariacandeeiro.com.br/, conhecida pelos encontros literários e pela atmosfera intimista. No lançamento, em fevereiro, a sessão de autógrafos virou também festa de aniversário da autora. “Tinha bolo, vinho, amigos, leitores. Foi muito bonito”, lembra.
Foto de Capa

