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Cultura e Sociedade Pesquisa

Entre deslocamentos e resistência, livro analisa presença quilombola na pós-graduação

Andréia Rosalina, pós-doutoranda do IFCH, pesquisou trajetórias que foram mapeadas como um ‘trabalho de detetive’

A presença e a permanência de quilombolas nas universidades motivaram a pesquisadora Andréia Rosalina Silva, pós-doutoranda em Antropologia pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), da Unicamp a lançar o livro “Quilombolas na pós-graduação: construindo ‘Ébgés’ de Resistência no Ensino Superior Brasileiro”, disponibilizado gratuitamente em formato e-book pela Editora da Universidade Estadual de Ponta Grossa (PR). A autora deve também lançar a obra no formato físico, em maio, num evento no IFCH.

O termo “ébgé”, que vem do iorubá, remete à ideia de coletividade. E foi pelo coletivo que a autora, especializada em políticas afirmativas de inclusão e equidade racial, elaborou a obra, base para a pesquisa “Caminhos e Desafios – o impacto das ações afirmativas para indígenas e quilombolas na gestão político-pedagógica universitária”, que vem sendo desenvolvida no IFCH com orientação do professor José Maurício Arruti, do Departamento de Antropologia, e apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

O lançamento marca também um percurso pessoal que, segundo a autora, começa antes mesmo da escrita. “Esse livro é fruto de um processo iniciado muito antes, com a minha ancestralidade”, afirma.

A pesquisadora e autora do livro Andréia Rosalina: vínculos estreitos com a comunidade onde ainda vive parte da minha família
A pesquisadora e autora do livro Andréia Rosalina: vínculos estreitos com a comunidade onde ainda vive parte da família

Nascida em Belo Horizonte (MG) e criada no interior paulista, em São Roque, a pesquisadora descende de negros escravizados que se estabeleceram em Belo Vale (MG) e formaram núcleos em comunidades tradicionais da região. Sua ancestralidade também remete ao município de Barão de Cocais (MG), terra de seu avô paterno.

Orientada pela memória de seus ancestrais, de seus saberes e da tradição oral, Rosalina sempre carregou questões sobre pertencimento. “Embora não tenha vivido no quilombo de forma permanente, mantive vínculos estreitos com a comunidade onde ainda vive parte da minha família. Na infância, ia para lá todas as férias escolares”, relata.

Essa herança, segundo ela, não apenas sustenta sua identidade, mas também orientou sua atuação acadêmica e profissional. “Eu conheço toda a minha história, sei de quem descendo, quem sou e a razão de valorizar quem veio antes de mim. E isso é importante para construir e consolidar o conhecimento em que acredito”, completa.

Rosalina graduou-se em Ciência da Informação na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Sua trajetória acadêmica a levou a ingressar no Projeto Ações Afirmativas da UFMG, um programa que articula ensino, pesquisa e extensão e também desenvolve ações voltadas à Educação Escolar Quilombola no estado. Já em São Paulo, fez doutorado em Educação na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e pós-doutorado em Psicologia Social e do Trabalho na Universidade de São Paulo (USP).

Hoje, na Unicamp, integra a equipe do Laboratório de Pesquisa e Extensão com Populações Tradicionais Ameríndias e Afro-americanas (LaPPAA) e o Centro de Estudos Rurais (Ceres), coordenados pelo professor Arrutti.

Rosalina resolveu investigar a presença de estudantes quilombolas a partir da análise de deslocamentos e estratégias de permanência

Mapa dos caminhos

Em sua pesquisa, com levantamentos na Universidade de Brasília (UnB), Universidade Federal de Goiás (UFG), Universidade Federal da Bahia (UFBA) e Universidade Federal do Recôncavo Baiano (UFRB), Rosalina resolveu investigar a presença de estudantes quilombolas a partir da análise de deslocamentos e estratégias de permanência.

“No livro, mostro esses deslocamentos. Mapeei os caminhos percorridos pelos estudantes, desde suas comunidades de origem até diferentes universidades do país. Em muitos casos, os percursos incluem passagens por múltiplas instituições e estados, revelando uma circulação acadêmica marcada por desafios, mas também por estratégias de inserção.”

Esses percursos revelam tanto os desafios estruturais quanto a capacidade de articulação desses estudantes. “Na UnB, por exemplo, a maioria não era de lá. Tinha gente do Pará, do Tocantins, de Minas Gerais. Já tinham passado por outros lugares e foram sendo direcionados, encontrando caminhos”, relata.

Em outras instituições, como a Universidade Federal de Goiás (UFG), a autora identificou diversidade de áreas de formação. “Encontrei pessoas na Antropologia, que é um curso muito procurado por quilombolas e indígenas, mas também em Relações Internacionais, o que eu achei muito interessante”, destaca.

Mas a pesquisadora enfatiza a dificuldade que encontrou para acessar dados consolidados sobre a presença quilombola no ensino superior. “As universidades sabem quem entrou, mas não sabe quantos terminaram, quantos mudaram de curso, quantos seguiram para o mestrado ou doutorado. Isso ainda precisa ser muito avaliado”, afirma. A ausência de informações, segundo ela, torna “invisíveis trajetórias importantes e dificulta a formulação de políticas mais eficazes”.

Capa do livro Quilombolas na pós-graduação: construindo ‘Ébgés’ de Resistência no Ensino Superior Brasileiro

Construção coletiva

Um dos diferenciais do livro está na forma como a pesquisa foi conduzida. Ao todo, 32 interlocutores participaram do estudo — estudantes, professores e gestores — que, segundo a autora, não são apenas fontes, mas coautores do processo. “Eu os considero interlocutores, porque foram eles que construíram, junto comigo, a pesquisa”, explica.

Essa perspectiva se reflete na própria estrutura do livro. No primeiro capítulo, os participantes se apresentam com suas próprias palavras. “Eu sinto falta disso na Ciência. Às vezes alguém te apresenta, mas não deixa você se apresentar. Eu quis que cada um dissesse quem é, de uma forma que fizesse sentido”, afirma. A escolha dialoga com uma crítica mais ampla ao modo como o conhecimento acadêmico é produzido. “Essa coisa de ser apenas ‘objeto de pesquisa’ é horrível. Eu já cansei de ser observada, acho que tenho o direito de falar de nós também. Então quis fazer diferente.”

Parte do desenvolvimento da pesquisa, entre 2018 e 2022, coincidiu com o período da pandemia, o que trouxe obstáculos adicionais. Sem acesso à internet em muitas comunidades, a autora precisou criar estratégias para realizar as entrevistas. “Foi um trabalho de detetive. Eu sabia que muitas pessoas iam ao INSS ou à prefeitura para receber benefícios. Então eu tentava encontrá-las nesses momentos”, conta.

A empatia também aparece como elemento central nas entrevistas. “Quando você começa a conversar, percebe semelhanças. A pessoa se abre e diz: ‘ue bom estar falando com você’. Isso não tem preço”, relata.

Outro aspecto marcante foi a predominância feminina entre os participantes e apoiadores do estudo. “A maioria dos gestores com quem conversei era de mulheres. Foram dez pessoas, só um homem. Somos nós, mulheres, que estamos construindo a Ciência neste país”, afirma.

A pesquisadora reconhece o papel fundamental de outras mulheres em sua formação. “Eu tive professoras que viram em mim a possibilidade de ser uma intelectual. Por muitas vezes eu era aquela que só ficava escutando nas salas de aula. E, de repente, fui para a frente, para participar, viajar, falar em congressos”, lembra. Hoje, ela busca reproduzir esse movimento em sala de aula. “Às vezes vejo uma jovem negra de cabeça baixa e, quando começo a falar, ela se reconhece. Pensa: ‘Essa história é igual à minha”, eu posso ir além’.”

Para Rosalina, o livro é parte de um processo maior de transformação. “Essas trajetórias mostram que estamos produzindo conhecimento, ocupando espaços e construindo novos caminhos. Não é só sobre estar na universidade, é sobre transformá-la”, afirma. Ela destaca a importância de ocupar espaços institucionais também como forma de incentivar outras trajetórias. “Eu acho importante marcar essa presença, até como inspiração para outros”, afirma.

Pós-doutoranda em Antropologia pelo IFCH, Andréia Rosalina optou por disponibilizar o livro no formato e-book gratuitamente
Pós-doutoranda em Antropologia pelo IFCH, Andréia Rosalina optou por disponibilizar o livro no formato e-book gratuitamente

Desigualdades

A trajetória da pesquisadora também evidencia as desigualdades ainda presentes no ambiente acadêmico. Recentemente em uma atividade da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp, ela era a única mulher negra entre mais de 50 participantes. “O espanto das pessoas ao me verem foi incrível.”

Para ela, a experiência revela uma visão ainda limitada sobre quem pode produzir conhecimento. “Acham que os quilombolas estão olhando só para as suas comunidades. Nós pensamos em melhorar a sociedade. Não vivemos isolados”, afirma. Essa crítica se estende ao próprio modelo de Ciência. “Hoje é construída isoladamente. E não é isso que a gente está procurando. Queremos uma Ciência que sirva para todo mundo”, defende.

Por essa perspectiva, Rosalina optou por disponibilizar seu livro no formato e-book gratuitamente. “O conhecimento não é só meu, ele tem que ser partilhado. Eu abri mão dos direitos autorais porque quero que muitas pessoas leiam, especialmente quilombolas, e se vejam refletidas ali”, afirma. Além do livro, ela também participa de outros projetos, como o desenvolvimento de um dicionário biográfico intitulado “Histórias entrelaçadas de mulheres afrodiaspóricas” (Editora Malê), ampliando o alcance de sua atuação acadêmica.

Acesse o e-book.

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