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Atualidades Cultura e Sociedade

A linguagem ao alcance de todos

Livro sobre o poder simbólico da língua abre a Coleção Linguística Contemporânea da Editora da Unicamp

Não é preciso ser linguista para ler, apreciar e absorver o conteúdo do livro Língua como poder simbólico, de Claire Kramsch, o primeiro da série Estudos Linguísticos, que dá início à Coleção Linguística Contemporânea, da Editora da Unicamp. A professora emérita da Universidade da Califórnia, em Berkeley (EUA), faz análises de temas atuais – quase sempre polêmicos – como Donald Trump e os usos que ele faz das mídias sociais, sob a perspectiva do poder simbólico da língua no cotidiano das pessoas.

“A língua pode informar ou enganar, seduzir ou insultar, fazer com que nos apaixonemos ou acabar com a nossa reputação. O que há na língua que lhe dá esse poder?”, escreve Kramsch no texto de agradecimento do livro, mencionando sua apresentação da disciplina Língua e Poder, ministrada por ela ao longo de 12 anos, que deu origem ao livro. As aulas sobre o funcionamento da língua eram dirigidas a estudantes de diferentes áreas com o objetivo de “envolver e inflamar as mentes de não especialistas”, como foi proposto pelo programa Disciplinas de Descobertas da Universidade.

De acordo com a professora Anna Bentes, do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Unicamp, coordenadora da coleção, o livro retoma e aprofunda o conceito de poder simbólico do sociólogo e filósofo francês Pierre Bourdieu como mecanismo capaz de “construir a realidade social por meio da criação e do uso de símbolos que dão sentido ao mundo”.

A coordenadora da Coleção Linguística Contemporânea, da Editora da Unicamp, Anna Bentes: livros acessíveis para o público em geral
A coordenadora da Coleção Linguística Contemporânea, da Editora da Unicamp, Anna Bentes: livros acessíveis para o público em geral

Acessível ao leigo

“No livro, Kramsch amplia o conceito de poder simbólico e fala da nossa capacidade de construção, por meio da linguagem, das relações e das interações”, diz a coordenadora da Coleção Linguística Contemporânea. “Nos últimos mais de cem anos, desde que Ferdinand Saussure fundou a Linguística, em 1916, nós, do campo dos estudos da linguagem, mostramos a importância das teorizações produzidas nesse campo. Hoje, há uma influência muito grande dos estudos da linguagem em várias áreas, mas muitas vezes não temos livros que sejam acessíveis para o público de fora da área”, afirma Bentes. 

A série Estudos Linguísticos, que integra a nova coleção da Editora da Unicamp, prevê a publicação de quatro obras de formação, com o objetivo de “entender a natureza social da linguagem e sua centralidade”. Serão títulos traduzidos, cujos processos são mais caros e mais demorados do que publicações de autores brasileiros. A cada dois anos deve ser publicado um novo título. “Primeiro é preciso pagar os royalties, depois a tradução, a revisão da tradução e a publicação. Essa série vai demorar cerca de oito anos.” Já na série Temas de Linguagem e Sociedade, que também compõe a Coleção Linguística Contemporânea, as obras serão de autores brasileiros com o foco de tornar os estudos da linguagem mais conhecidos e divulgados. 

A professora emérita da Universidade da Califórnia, em Berkeley (EUA) Claire Kramsch: "paradoxo do poder simbólico da língua"
A professora emérita da Universidade da Califórnia, em Berkeley (EUA) Claire Kramsch: “paradoxo do poder simbólico da língua”

“Nós escolhemos a produção de obras que apresentem uma linguagem de mais fácil acesso para o público de não especialistas do campo e temas interdisciplinares ou multidisciplinares”, diz Bentes. Não por acaso, a coleção começou a série Estudos Linguísticos com Língua como poder simbólico, de Claire Kramsch. Para a coordenadora, um dos valores do livro é não privilegiar a teoria. “Ela trata de fenômenos concretos e mais atuais. É um título que vai interessar e dialogar com muitas áreas. A coleção tem como princípio fundamental esse diálogo com outras áreas do conhecimento.”

Para além da comunicação

Com exceção da obra de Bourdieu, não há no Brasil nenhum título cujo tema central relacione língua e poder simbólico, afirma a professora. “Nós temos a capacidade de compreender o mundo de forma linguística. A obra contribui para entender melhor o poder da nossa compreensão por meio das línguas naturais”, reafirma Bentes.

Logo no início do livro, a autora chama a atenção para a importância da língua. “Tem gente que acha que a língua é uma coisa que usamos apenas como meio de comunicação”, escreve Kramsch. E complementa: “Não é apenas isso”. A professora Bentes acrescenta: “Os usos linguísticos e, portanto, as línguas têm o poder de influenciar os outros.”

Para Claire Kramsch as mídias sociais são criadoras de dependência, ansiedade e alienação
Para Claire Kramsch as mídias sociais são criadoras de dependência, ansiedade e alienação

Mídias sociais

Sobre as mídias sociais, Kramsch escreve que, “de maneira idealista”, elas se propõem apenas a “conectar as pessoas ao redor do mundo”, mas na prática são “criadoras de dependência, ansiedade e alienação, além de minarem a própria democracia”. A autora situa as mídias sociais na história contemporânea: “A propaganda política grosseira da Guerra Fria foi substituída pelas chamadas ‘tecnologias de persuasão’, muito mais sutis, do Facebook e do Google”.

Kramsch fala do “paradoxo do poder simbólico da língua”, que nos dá “o poder de organizar e classificar as coisas no mundo, mas também tem o poder de disciplinar e restringir o nosso conhecimento”. Já nas suas considerações finais, a autora conclui que não é novidade “que as pessoas não necessariamente querem dizer o que dizem nem dizem o que querem, mas, com a mídia social, as incertezas de significado de hoje aumentaram exponencialmente”. 

Verdade

A verdade foi substituída por uma multiplicidade de opiniões nas redes sociais, e esse contexto implodiu e fragmentou a ideia de apenas uma verdade, diz o livro. “Não existe uma única visão de mundo, uma única perspectiva, uma única verdade. A verdade é sempre perspectivada”, acrescenta a professora Bentes.

Conhecimento não é o mesmo que informação. Esse é também um dos temas do livro. “O que as pessoas estão aprendendo na internet, que elas pensam que é conhecimento, é misconnaissance, na definição de Bourdieu, de um tipo de conhecimento desvirtuado ou equivocado, aquilo que você acha que conhece, mas não conhece”, explica a professora da Unicamp. “É um conhecimento que parece ser da ordem natural das coisas porque a pessoa nem sequer questiona. É como se fosse um consenso”, explica Bentes.

Capa do primeiro livro da coleção intitulado Língua como poder simbólico
Capa do primeiro livro da coleção intitulado Língua como poder simbólico

Violência masculina

Mesmo a construção de consensos leva muito tempo. A professora cita o exemplo do consenso de que determinadas práticas civis das mulheres brasileiras não podem mais ser, hoje em dia, determinadas pela autoridade masculina. “No início do século XX, era um consenso que as mulheres tinham que ser tuteladas pelos homens. Isso mudou. Passa-se a ter outro consenso, o de que as mulheres podem ter independência. Mas hoje vemos a tentativa de retomada daquele consenso anterior de que a mulher precisa ser tutelada ou de que não pode dissolver o seu relacionamento amoroso; se isso acontece, ela corre o risco de sofrer um feminicídio ou outros tipos de agressão. Temos que nomear isso: mais que violência contra a mulher, trata-se de violência masculina”, pontua Bentes.

“Eles vão forjando isso por meio de blogs e sites, em que isso vai sendo dito, como no caso de estudantes que elegiam a garota ‘estuprável’, escrevendo em uma mídia. A norma social fez com que eles apagassem, mas a polícia recuperou.” As pessoas têm o poder simbólico na medida em que têm o poder de interpelação, diz a professora. Isso acontece tanto na dimensão micro (do uso de símbolos linguísticos) quanto macro (dos usos e abusos do poder simbólico), conforme teoriza a autora do livro.

Donald Trump

Kramsch também traz temas atuais, como a política do presidente norte-americano, Donald Trump, descrito por Kramsch como uma pessoa que “faz uso abusivo do poder simbólico da língua”. Ela reconhece no livro que a figura do presidente causou forte impacto em suas análises.

“A atual situação política dos Estados Unidos afetou fortemente a maneira como vejo as questões discutidas neste livro. Os excessos verbais de Trump (uso abusivo da linguagem) que desafiam as normas e rompem com a verdade e esmagam atos de fala criam um clima de ‘incerteza e ansiedade simbólica’, mas também proporcionam o aumento da conscientização dos usuários de línguas e dos usuários de sistemas digitais sobre os efeitos paradoxais da língua como ação simbólica em nossas trocas verbais diárias.”

Foto de capa:

O livro de Claire Kramsch faz análises de temas atuais – quase sempre polêmicos – como Donald Trump e os usos que ele faz das mídias sociais, sob a perspectiva do poder simbólico da língua no cotidiano das pessoas
O livro faz análises de temas atuais – quase sempre polêmicos – como Donald Trump e os usos que ele faz das mídias sociais
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