Um palco quase vazio, uma cadeira, um foco de luz e a presença absoluta da atriz. Foi a partir dessa economia de elementos cênicos que Denise Stoklos construiu o espetáculo “Mary Stuart”, um de seus maiores sucessos. A artista revisita a obra, que estreou há quase quatro décadas, em uma nova temporada. O espetáculo chega à Unicamp com apresentação gratuita no dia 9 de abril, às 20h, na Adunicamp, como parte da programação do Palco DCult, da Diretoria de Cultura da Pró-Reitoria de Extensão, Esporte e Cultura (Proeec).
Montada originalmente em 1987, em Nova York (EUA), no circuito experimental do qual fazia parte o teatro La MaMa, “Mary Stuart” percorreu dezenas de países e foi apresentada em diferentes idiomas. A remontagem, em cartaz desde o ano passado em São Paulo, integra as celebrações dos 75 anos de vida e 57 de carreira de Stoklos, que construiu uma trajetória de sucesso com 27 espetáculos solos autorais e sete livros publicados.

Sozinha no palco, a atriz interpreta duas figuras históricas centrais da monarquia europeia: Mary Stuart, rainha da Escócia, e Elizabeth I, da Inglaterra. A disputa entre as primas, que culminou na execução de Mary no século 16, surge na encenação como uma metáfora potente para investigar tensões universais, como poder, opressão, liberdade e os mecanismos que atravessam as estruturas políticas e humanas ao longo do tempo
Para Stoklos, revisitar a peça traz novos sentidos, já que a permanência do espetáculo no tempo comprova sua atualidade. “Essa questão da luta pelo poder é constante e parece que, nestes nossos tempos, há ainda mais questões em torno desse tema, o que torna o espetáculo atual, infelizmente”, diz. Mesmo após quase quatro décadas, a encenação permanece próxima da concepção original. “Estou fazendo dentro do que foi concebido, com pequenas mudanças aqui ou ali.”
A artista destaca a força da linguagem cênica construída na montagem. “É um espetáculo físico, com uma presença grande de corpo. São 50 minutos com cenas que vêm acompanhadas de voz, texto, gestos e movimentos”, afirma. “Foi incrível perceber que ele comunica da mesma forma como quando esteve em temporadas de estreia, apesar de o mundo estar tão diferente.”
Foi durante o processo de criação da peça que ela sistematizou os princípios do Teatro Essencial, uma proposta que rejeita o excesso de elementos cênicos e privilegia a presença do ator. “Fui criando justamente durante o processo deste espetáculo. Nele, trabalho com três elementos fundamentais: o corpo, a voz e o pensamento, esse elemento abstrato que organiza e cria a dramaturgia.” Depois, vieram obras como “Casa”, “Des-Medeia”, “Calendário da Pedra”, “Desobediência Civil” e “Preferiria Não”, entre outros. “Esses três elementos foram os que me mostraram que eu poderia, a partir daí, construir outros trabalhos.”
A proposta do Teatro Essencial nasceu da ideia de valorizar a atuação. “Um teatro sem cenário ainda é teatro. Sem figurino, sem iluminação e sem música, ainda é teatro. Mas o que não pode faltar é o ator”, afirma. “É ele o centro da comunicação teatral, com seu corpo, sua voz e sua mente organizando a cena”, explica. “Era uma proposta original e muito brasileira, com essa energia miscigenada. Isso me deu aceitação em muitos países, onde me apresentei diversas vezes”, relembra.

Acostumada a trabalhar com repertório, a artista explica que a retomada da obra ocorre em meio a outros projetos. “Fui fazendo outras peças e apresentando esses trabalhos. Também fiquei um tempo dando aulas online, o que me afastou um pouco dos palcos, mas eu nunca parei”, conta.
Mais recentemente, a artista tem buscado fortalecer sua relação com o público. “Tenho apresentado peças que me dão uma receptividade muito boa, então isso me anima a fazer mais”, diz. Atualmente em cartaz no Teatro Estúdio, em São Paulo, “Mary Stuart” também tem circulado por outras cidades. Apresentá-la na Unicamp, segundo ela, tem um significado especial. “Eu sei da importância da Universidade, do curso de Artes Cênicas. Então, para mim, está sendo um privilégio.”
Para Stoklos, esse retorno à obra da década de 1980 tem proporcionado um encontro especial com as novas gerações. “Muitos jovens estão tendo a oportunidade de ver agora, e isso me deixa extremamente feliz.”
A artista destaca o interesse em dialogar com públicos mais jovens. “Tenho duas netas adolescentes, então fico muito interessada nessas gerações. Quero me comunicar com elas e, se esse teatro fizer sentido, me deixa ainda mais contente, porque é um trabalho de uma vida.”
Serviço:
Palco DCult apresenta “Mary Stuart” com Denise Stoklos
Dia 9 de abril, às 20h
Entrada gratuita (Haverá distribuição de senhas 1 hora antes do espetáculo)
Auditório da Adunicamp – Av. Érico Veríssimo, 1479, Cidade Universitária Zeferino Vaz
Foto de capa:

